Opinião

As organizações estão preparadas para a IA. E as pessoas?

Maria Bandeira da Palma, Business Manager People & Culture Consulting na Cegoc
Foto: Maria Bandeira da Palma

A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa para passar a integrar o quotidiano de muitas organizações. Importa agora compreender de que forma esta transformação do trabalho está e continuará a ser vivida pelas pessoas.

Há um fator que merece a devida reflexão, isto é, a tecnologia, por si só, não determina o envolvimento dos colaboradores. O que faz verdadeiramente a diferença é a forma como as estruturas preparam as pessoas para esta mudança.

De facto, os colaboradores com competências em IA mais desenvolvidas tendem a apresentar níveis superiores de envolvimento, maior disponibilidade para realizar esforço adicional, maior bem-estar e menor intenção de saída. Pelo contrário, quando a IA é percecionada como uma ameaça, o efeito inverte-se, diminui o envolvimento, aumenta a intenção de saída e reforçam-se sentimentos de isolamento e de desumanização do trabalho.

A resistência à IA não decorre da tecnologia em si, mas da forma como a sua adoção é conduzida. O desenvolvimento de competências, a qualidade da comunicação, a proximidade da liderança e o alinhamento entre a transformação tecnológica e os valores organizacionais revelam-se fatores determinantes para reduzir a perceção de ameaça e promover uma adoção mais positiva. Aliás, a compatibilidade entre estes valores e os dos colaboradores demonstra ter um impacto ainda mais significativo no envolvimento do que a própria comunicação, o que demonstra que a transformação digital é, antes de mais, uma transformação cultural.

Mas há também que olhar para a perspetiva das organizações. Através de uma avaliação da maturidade em IA realizada junto das empresas, é possível verificar que cerca de 72% já se encontram em níveis Adopter ou Transformer, o que evidencia que a IA faz já parte da agenda estratégica de grande parte destas. A dimensão Cultura surge como a mais desenvolvida, refletindo uma crescente abertura à inovação e à mudança tecnológica. Em contrapartida, as dimensões da Organização e das Competências continuam a apresentar maior margem de evolução, nomeadamente ao nível da governance, do desenvolvimento estruturado de competências e da criação de mecanismos que apoiem a adoção da IA pelas equipas.

As áreas em que as entidades reconhecem existir maior margem de evolução são também aquelas que os colaboradores identificam como mais determinantes para viver a IA de forma positiva. Este cruzamento de resultados reforça uma ideia essencial, a de que a maturidade em IA não depende apenas da tecnologia implementada, mas da capacidade de criar condições para que as pessoas a compreendam, confiem nela e desenvolvam as competências necessárias para a utilizar.

Mas será que este equilíbrio que as organizações consideram ter alcançado está efetivamente a ser sentido pelos colaboradores? Nem sempre a estratégia definida pelas empresas corresponde à experiência vivida pelas pessoas. A existência de tecnologia, investimento ou estruturas de governance constitui uma condição necessária, mas não suficiente. A verdadeira maturidade mede-se também pela confiança que os colaboradores têm para utilizar a IA, pela utilidade que lhe reconhecem e pela segurança com que encaram o impacto desta transformação no seu trabalho.

É precisamente esta questão que importa aprofundar. Dessa forma, urge avaliar, também, a forma como os colaboradores percecionam a maturidade da IA nas suas organizações, explorando dimensões, como a qualidade percebida da ferramenta, a utilidade que lhe atribuem e a insegurança que ainda pode gerar.

No final, a questão mais relevante passa por perceber se os colaboradores sentem que estão a adquirir as valências necessárias para trabalhar, crescer e criar valor com ela. A vantagem competitiva da IA não será determinada apenas pela tecnologia que as empresas conseguem implementar, mas pela forma como conseguem envolver, desenvolver e dar confiança às pessoas para a utilizarem. Se investir em tecnologia é importante, investir nas pessoas continua a ser decisivo.

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