Entrevista/ “Falta ensinar gestão de vendas, marketing cultural, literacia financeira e direito aplicado à atividade artística”
“Liberte-se imediatamente da visão romântica do “artista incompreendido” e do síndrome da miserabilidade. A crença de que é preciso sofrer e viver na precariedade para ter identidade artística é um mito obsoleto que serve apenas para alimentar sistemas de exploração económica”, aconselha Alice Joana Gonçalves, fundadora da Comunidade Artistas Inteligentes, ao ecossistema cultural nacional.
A Comunidade Artistas Inteligentes (CAI) é um projeto português que une a prática artística à estratégia de negócios. Fundado por Alice Gonçalves, foca-se em transformar o artista no CEO da sua própria carreira, oferecendo mentoria, gestão e aconselhamento jurídico, porque como lembra a sua fundadora, “falta ensinar gestão de vendas, marketing cultural, literacia financeira e direito aplicado à atividade artística”.
Em entrevista ao Link to Leaders, Alice Joana Gonçalves defende que o apoio público deve ser uma alavanca de aceleração e validação para projetos de relevo cultural, e não uma muleta assistencialista de sobrevivência diária. “O financiamento público existe e nós ajudamos os artistas a aceder-lhe de forma muito profissional, mas sem ferramentas de gestão e sem que o artista se assuma como o verdadeiro CEO da sua própria carreira, qualquer injeção de capital será apenas um penso rápido sobre um problema estrutural de insustentabilidade”, alerta.
A Comunidade Artistas Inteligentes nasceu em outubro de 2024. Que diagnóstico fez do setor cultural em Portugal para perceber que este projeto era necessário?
O diagnóstico partiu de uma constatação muito clara ao longo dos meus 12 anos de percurso enquanto artista: o setor cultural em Portugal sofre de um excesso de talento e de uma profunda escassez de estratégia. Percebi que o ecossistema cultural funciona muitas vezes de forma oligárquica, dominado por círculos fechados de influência que ditam as regras do mercado e legitimam o valor da arte. Perante isto, a maioria dos criadores debate-se com a falta de autonomia e com o desconhecimento de ferramentas básicas para gerir e propor o seu trabalho. A CAI — Comunidade de Artistas Inteligentes — nasceu precisamente para fraturar este sistema tradicional, oferecendo uma “cratera ou fissura por onde os artistas podem emergir com força, munidos de competências de mercado, e deixando de estar dependentes de que alguém os ‘leve ao colo'”, o que simplesmente não acontece.
“A maior dificuldade não reside na qualidade do trabalho criativo, mas sim na incapacidade de dialogar com as regras do sistema económico e de mercado”.
A comunidade já formou e acompanhou mais de 1.400 artistas e agentes culturais. Quais são as dificuldades mais recorrentes que estes profissionais vos trazem?
A maior dificuldade não reside na qualidade do trabalho criativo, mas sim na incapacidade de dialogar com as regras do sistema económico e de mercado. Os profissionais trazem barreiras muito concretas: a falta de um modelo de negócio estruturado, o desconhecimento sobre quem é o seu público-alvo ou como formatar a sua arte sem perder a sua identidade única.
No plano burocrático e operacional, a enorme dificuldade em preencher candidaturas a fundos, como os apoios da DGArtes, em elaborar propostas comerciais para municípios ou entidades privadas, em redigir e-mails estritamente profissionais e em dominar os mecanismos de contratualização e cobrança jurídica de dívidas. Em suma, o maior obstáculo é o isolamento estratégico e a falta de autonomia negocial.
Costuma dizer-se que as escolas de artes formam bons criadores, mas não preparam os artistas para gerir uma carreira. O que continua a faltar na formação artística em Portugal?
Falta introduzir o “ingrediente do mundo real”. As academias e escolas de artes focam-se, e bem, no desenvolvimento do magma criativo e na reflexão teórica, mas falham redondamente ao ignorar que a arte, queira-se ou não, opera dentro de um mercado e de um sistema económico capitalista. Falta ensinar gestão de vendas, marketing cultural, literacia financeira e direito aplicado à atividade artística.
No meu caso pessoal, o que me permitiu conquistar independência económica com a performance, uma área tradicionalmente considerada difícil e híbrida, não foi ter mais talento que os meus pares, mas sim o facto de ter formação em Direito e Gestão de Vendas. É este fosso entre a técnica artística e a sobrevivência prática no mercado que continua por preencher no ensino formal.
Fala-se muito da precariedade no setor cultural. Na sua perspetiva, este problema resulta sobretudo da falta de financiamento, da forma como os apoios estão estruturados ou da ausência de ferramentas de gestão?
Embora os problemas de estruturação de apoios e financiamento sejam reais, a raiz mais profunda e perigosa da precariedade é cultural e de mentalidade: reside no que eu designo por “síndrome da miserabilidade”. Existe uma visão romântica enraizada, tanto nos próprios criadores como nas instituições e no público, de que o artista precisa de sofrer e viver na privação para validar a sua identidade criativa. Isto perpetua um ciclo de exploração onde se aceita trabalhar por valores irrisórios. O financiamento público existe e nós ajudamos os artistas a aceder-lhe de forma muito profissional, mas sem ferramentas de gestão e sem que o artista se assuma como o verdadeiro CEO da sua própria carreira, qualquer injeção de capital será apenas um penso rápido sobre um problema estrutural de insustentabilidade.
“A literacia económica e jurídica não serve para tornar a obra “comercial” ou superficial, mas sim para dar estrutura à singularidade do criador”.
A Comunidade Artistas Inteligentes trabalha temas como literacia económica, gestão de negócio, contratualização e apoio jurídico. Que impacto podem estas competências ter na carreira de um artista?
O impacto traduz-se em duas palavras: autonomia e prosperidade. Quando um artista domina estas ferramentas, ele deixa de ser um “ativo explorado” pelo mercado e passa a controlar o seu percurso a longo prazo. A literacia económica e jurídica não serve para tornar a obra “comercial” ou superficial, mas sim para dar estrutura à singularidade do criador. Na prática, isto significa a diferença entre viver em subempregos precários e conseguir subsistir exclusivamente da criação.
Vemos este impacto todos os dias na comunidade: artistas sem currículo profissional consolidado a garantir financiamentos da DGArtes através de propostas irrepreensíveis, ou criadores a fechar contratos de arte pública de dezenas de milhares de euros apenas porque souberam desenhar e negociar uma proposta formal eficaz. A literacia liberta o potencial criativo.
O projeto defende a necessidade de quebrar ciclos de subsidiodependência. Como se constrói uma carreira artística mais autónoma sem desvalorizar a importância do investimento público na Cultura?
Quebrar a subsidiodependência não significa menorizar ou abdicar do investimento público; nós próprios capacitamos os artistas para vencerem concursos de financiamento como os da DGArtes. Significa, sim, mudar o posicionamento: o apoio público deve ser uma alavanca de aceleração e validação para projetos de relevo cultural, e não uma muleta assistencialista de sobrevivência diária. A autonomia constrói-se quando o artista diversifica ativamente as suas fontes de receita, entendendo a sua prática como um ecossistema sustentável a longo prazo. Isto faz-se através do desenvolvimento de modelos de negócio próprios, da venda direta ao colecionador ou público-alvo, da captação de patrocínios privados e da criação de rendimentos escaláveis. Quando dominamos o mercado, o subsídio passa a ser uma escolha estratégica de expansão, e não uma condição de subsistência.
Considera que o atual modelo de apoio público à Cultura promove a sustentabilidade dos profissionais ou continua demasiado centrado em projetos de curto prazo?
O modelo atual continua excessivamente refém do curto prazo, focado no “evento isolado” ou no “projeto pontual”, falhando na criação de uma sustentabilidade estrutural. Pese embora haja apoios às estruturas através dos Apoios Sustentados da DGArtes, que já tentam cumprir esse desígnio, ainda que de forma insuficiente, estes não abrangem os artistas em nome individual, sendo dirigidos apenas a estruturas associativas.
Aos artistas em nome individual resta-lhes investir uma quantidade massiva de energia a decifrar regulamentos complexos e a preencher formulários para garantir uma verba que, uma vez executada, os devolve exatamente ao mesmo ponto zero de precariedade. O sistema peca por não incentivar nem exigir que as candidaturas submetidas contemplem estratégias de retenção de públicos, modelos de continuidade económica ou planos de autonomia para o pós-financiamento. Subsidia-se o momento criativo imediato, mas deixa-se o profissional desarmado perante o futuro.
“É urgente desmistificar e normalizar conceitos como “estratégia de negócio”, “posicionamento de marca” ou “sistema económico” dentro do meio cultural”.
Que mudanças seriam necessárias para que a Cultura fosse encarada como um setor económico estratégico e não apenas como uma área dependente de apoios?
A grande mudança tem de ser, antes de mais, de mentalidade, de linguagem. É urgente desmistificar e normalizar conceitos como “estratégia de negócio”, “posicionamento de marca” ou “sistema económico” dentro do meio cultural. A arte tem um valor subjetivo imensurável, mas opera dentro de uma economia de mercado.
Para que o país encare a Cultura como um pilar estratégico, precisamos de ir além do orçamento direto do Estado e começar a usar as ferramentas legais que já existem, mas que estão subaproveitadas. Dou-lhe um exemplo muito claro no plano jurídico: a Lei do Mecenato. O atual enquadramento fiscal em Portugal é visto quase como um ato de caridade ou um mero benefício contabilístico residual para grandes empresas. Precisamos de uma reforma e de uma pedagogia jurídica sérias nesta área. Um Mecenato moderno e estratégico deveria ser o principal motor de captação de investimento privado direto para o setor cultural.
Quando ensinamos os artistas a estruturarem propostas de valor que ofereçam contrapartidas reais e atrativas para o tecido empresarial, ativando os incentivos fiscais do Mecenato de forma profissional, quebramos o monopólio da subsidiodependência e criamos dinamismo de mercado. Isto exige democratizar o acesso à literacia económica e jurídica, permitindo que o talento emerja com autonomia, crie valor real e demonstre capacidade de autogestão perante investidores e decisores políticos.
Muitos artistas têm dificuldade em negociar cachets, contratos, direitos ou condições de trabalho. Como se muda esta cultura de informalidade no setor?
A informalidade combate-se com uma postura de rigor corporativo e com o fim definitivo do amadorismo administrativo. O artista precisa de ditar o seu próprio método: estabelecer propostas comerciais formais, redigir contratos juridicamente blindados, dominar os prazos de faturação e, se necessário, saber como acionar os mecanismos legais para cobrança de dívidas. Enquanto a classe continuar a aceitar acordos verbais em “conversas de café” e convites informais para apresentar um espetáculo ou dar um concerto por míseros 300 euros em nome da “visibilidade”, estará a validar a sua própria exploração. A cultura do setor muda no dia em que o artista adotar uma filosofia profissional inegociável: sem condições contratuais claras e escritas, o trabalho simplesmente não avança.
Pode dar exemplos concretos de mudanças que já tenha observado em artistas ou estruturas culturais que passaram pela comunidade?
Os impactos práticos são diários e muito tangíveis. Vimos um artista plástico que, mesmo sem um percurso comercial consolidado no mercado, conseguiu estruturar e fundamentar de tal forma o orçamento e o conceito do seu projeto que garantiu o financiamento nos últimos apoios da DGArtes.
Um outro exemplo marcante foi o de um escultor especializado em arte pública que, apesar de ter uma técnica genial, não sabia como abordar o cliente institucional; após reestruturarmos estrategicamente uma proposta formal por e-mail para um município, conseguimos no dia seguinte a adjudicação de uma peça de 50.000 euros.
Temos também performers de linguagens híbridas que, ao desenharem uma estratégia clara de posicionamento durante um ano, conseguiram abandonar empregos secundários precários e vivem hoje com total independência e conforto exclusivamente da sua arte, entre outros exemplos.
“O Fórum Nacional de Artes e Cultura (…) funciona como um serviço público digital e gratuito onde qualquer artista ou agente cultural pode submeter dúvidas reais sobre gestão de carreira, preenchimento de candidaturas à DGArtes (…)”.
O Fórum Nacional de Artes e Cultura está a lançar um serviço público gratuito de apoio à comunidade artística. Como vai funcionar esse serviço e que necessidades pretende responder?
O Fórum Nacional de Artes e Cultura (integrado no ecossistema da nossa plataforma) foi desenhado para ser uma ferramenta de democratização do conhecimento prático, combatendo o isolamento burocrático e administrativo que afeta tantos criadores. Funciona como um serviço público digital e gratuito onde qualquer artista ou agente cultural pode submeter dúvidas reais sobre gestão de carreira, preenchimento de candidaturas à DGArtes, enquadramento fiscal, contratualização, direitos de autor ou relações com o mercado e galerias. O objetivo é dar respostas assertivas e fundamentadas a problemas operacionais do dia a dia, eliminando a necessidade de “redes fechadas de contactos” para conseguir informação essencial. É conhecimento de bastidores partilhado de forma aberta e orgânica.
O Fórum poderá vir a ter também um papel de representação ou influência junto de decisores públicos?
Completamente. O Fórum assume-se como um barómetro digital em tempo real das reais fragilidades, bloqueios e assimetrias do tecido cultural em Portugal. Ao centralizar, documentar e mapear as dores e as dificuldades processuais reportadas de forma sistemática por centenas de profissionais, acumulamos um manancial de dados e evidências factuais muito poderoso. Essa inteligência coletiva dá-nos uma enorme legitimidade e força política para intervir, denunciar as falhas do sistema e exercer uma pressão informada e estruturada junto das instituições e dos decisores públicos para que as políticas culturais sejam revistas com base na realidade prática do terreno..
Na sua visão, o que significa hoje um artista ser “inteligente” e pensar a sua carreira de forma estratégica?
Significa, antes de tudo, que o artista assuma a direção estratégica da sua própria prática, ocupando conscientemente a posição de CEO da sua carreira. Inteligência deriva de inter legere: ler por dentro, discernir as estruturas invisíveis, compreender aquilo que sustenta e organiza o real. O artista verdadeiramente inteligente reconhece que o seu potencial criativo — esse núcleo incandescente, irredutível e inegociável — permanece intacto na sua integridade estética. Porém, compreende igualmente que nenhuma obra alcança relevância pública sem uma arquitetura estratégica capaz de lhe conferir escala, circulação e permanência. A criação exige, por isso, uma infraestrutura operacional tão rigorosa quanto a própria investigação artística.
Pensar estrategicamente é recusar a romantização da precariedade e rejeitar o lugar confortável da vítima que aguarda, passivamente, o reconhecimento providencial de um curador, de uma galeria ou de uma instituição. É compreender que o sistema artístico não recompensa apenas o mérito; recompensa, sobretudo, quem sabe posicioná-lo. Isso implica ler criticamente o ecossistema cultural, compreender as dinâmicas de poder, desenhar modelos de sustentabilidade económica, dominar os enquadramentos jurídicos e fiscais da profissão, construir uma identidade pública consistente, negociar em condições de paridade institucional e transformar capital simbólico em valor cultural e financeiro. Porque, no fim, o mercado não explora a falta de talento. Explora, quase sempre, a ausência de estratégia. O talento cria valor; a inteligência estratégica impede que esse valor seja apropriado por terceiros.
“Aprenda a comunicar o valor do seu trabalho, perceba como funcionam os contratos e as obrigações fiscais e trate o seu percurso com a seriedade de uma empresa”.
Que conselho daria a um jovem artista que quer viver da sua arte, mas ainda não sabe como estruturar uma carreira sustentável?
O meu conselho mais urgente é: liberte-se imediatamente da visão romântica do “artista incompreendido” e do síndrome da miserabilidade. A crença de que é preciso sofrer e viver na precariedade para ter identidade artística é um mito obsoleto que serve apenas para alimentar sistemas de exploração económica. Foque-se em tornar a sua linguagem artística o mais única e autêntica possível, mas invista exatamente o mesmo tempo, dedicação e energia a adquirir literacia económica, jurídica e de gestão. Aprenda a comunicar o valor do seu trabalho, perceba como funcionam os contratos e as obrigações fiscais e trate o seu percurso com a seriedade de uma empresa.
E o primeiro passo prático dessa estrutura corporativa é a construção de um portefólio estratégico. Não o encare como um mero catálogo de imagens ou um arquivo passivo de obras antigas, mas sim como o seu principal documento de posicionamento de mercado e de afirmação curatorial. O seu portfeólio deve traduzir com clareza quem é o seu público, qual é a sua narrativa única e o valor real do seu produto artístico para os programadores, curadores e compradores.
No momento em que fundir uma identidade artística forte, visível num portefólio profissional, com a capacidade de se reconhecer e se posicionar como o gestor absoluto do seu próprio talento, o mercado será obrigado a respeitar a sua sustentabilidade.








