Opinião

A inclusão, quando nasce, deve ser para todos

Pedro Alvito, professor de Política de Empresa da AESE Business School
Foto: Pedro Alvito

Confúcio, filosofo chinês que nasceu em 551 a.C. quando refletiu sobre a velhice, teve esta frase maravilhosa: “A velhice é uma coisa boa e agradável.

É verdade que somos gentilmente retirados do palco, mas depois recebemos um lugar tão confortável na primeira fila como espetadores”. Em contrapartida, ouvi alguém, recentemente, dizer que só quem se queixa sempre de dores é que é velho, porque alguém que não se queixa, conserva sempre um espírito jovem.

De facto, estabelecer filosofias ou palpites mais ou menos elaborados sobre a velhice é fácil, mas a realidade está muito longe de tudo isto. Vivemos hoje numa sociedade em que a maioria são cada vez mais idosos, mas em que só conta ser-se jovem. Basta ver os anúncios da TV, as referências sociais permanentes ao “problema” da velhice, a atitude das empresas que privilegiam sempre os jovens, em detrimento dos mais velhos. Como pode um Conselho de Administração governar sabiamente uma empresa quando todos os seus membros têm menos de 35 anos? Dir-me-ão que o nível de formação da nossa juventude nunca foi tão elevado e que a abertura ao mundo e às suas mudanças é fundamental e só eles têm. Será?

Falar de experiência adquirida em muitos anos de trabalho é quase considerado um argumento ridículo, mas porquê cair de novo nos mesmos erros quando há alguém que já aprendeu com eles? Hoje-em-dia, é-se jovem até aos 35 anos, mas acima disso é-se logo velho. Os adultos desapareceram. Os 40, 50 e 60 anos, já não tem lugar no mercado de trabalho e, quando aparecem a ter algum protagonismo são vistos como aves raras, fora de contexto e até, em alguns casos, tomados por loucos – já não têm idade para isso.

Perguntaram a um amigo meu com 50 anos, na seleção para um concurso de televisão, porque se estava a candidatar com essa idade, mas não perguntaram o mesmo a alguém que o fez com 16 anos. Desculpem-me o atrevimento, mas acho que vou criar um movimento a favor da inclusão dos mais velhos, com quotas e tudo. Agora que os canais de televisão, as empresas e a sociedade apregoam tanto ser inclusivas face ao género, à raça, e às opções sexuais, que o sejam também face à idade. Julgo que a sociedade tinha muito a ganhar pelo fator experiência, pela ponderação própria de quem já viveu muito e pela capacidade de não embarcar de imediato em todas as modas da gestão, porque existe a capacidade para analisar e filtrar o que realmente é importante.

Hoje-em-dia, o que é importante é o que está na moda e faz parte das tendências e não aquilo que realmente se justifica fazer. Sermos retirados do palco pode ser importante, mas convém que o lugar confortável a que assistimos a tudo e de que falava Confúcio não seja apenas o sofá de casa.

Quando tanto se fala no desperdício de uma geração que abandona o país esquece-se uma geração mais velha que é continuamente abandonada, esquecida e sobretudo desvalorizada. A inclusão, quando nasce, deve ser para todos!


Pedro Alvito é, desde 2017, professor na AESE, onde leciona na área de Política de Empresa, tendo dado aulas também na ASM – Angola School of Management. Autor de duas dezenas de case studies publicados pela AESE e de dois livros publicados pela Editora Almedina – “Manual de como construir o futuro nas empresas familiares” e “Um mundo à nossa espera, manual de globalização”. Escreve regularmente em vários órgãos de comunicação social especializada. Desde 2023 é presidente do Conselho de Família e da Assembleia Familiar do grupo Portugália e membro do Conselho Consultivo da GWIKER.

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