Entrevista/ “A energia deixou de ser uma rubrica administrativa para passar a ser uma alavanca de competitividade”

Pedro Miranda, cofundador e CEO da Youdera
Foto: Youdera

“Muitas empresas continuam a tratar a energia como um custo passivo e renegociam de dois em dois anos, normalmente em pânico, quando o contrato expira”, afirma Pedro Miranda, cofundador da Youdera, que ajuda as organizações a reduzirem o custo e o risco energético sem investirem capital próprio.

Depois de passar por vários mercados internacionais e de construir parte da sua carreira na Suíça, Pedro Miranda encontrou na energia solar e na geração distribuída o caminho para empreender. Cofundador e CEO da Youdera, empresa sediada na Suíça e com operação em Portugal e Espanha, o gestor português lidera um projeto que aposta em modelos descentralizados e Zero Capex para ajudar as organizações a produzir e a gerir energia sem investimento inicial.

Nesta entrevista, fala sobre independência energética, competitividade empresarial e o papel de Portugal na transição para uma economia mais eletrificada.

Passou por diferentes geografias e mercados, do setor industrial ao energético. De que forma essa experiência internacional influenciou a criação da Youdera?

Eu nasci em Portugal, estudei em Lisboa e participei em projetos industriais em geografias muito distintas – Nigéria, Madagáscar e Azerbaijão. Desde 2008, vivo na Suíça e, desde 2015, trabalho na indústria solar, que era um objetivo de longa data. Esta diversidade moldou-me, antes de mais, como empreendedor. A Youdera foi criada na Suíça e a minha experiência internacional acabou por ser um bom cocktail para fazer nascer um projeto deste tipo, embora a sorte e o timing também tenham tido a sua importância.

O impulso final veio de uma experiência menos boa. Depois do meu Master of Business Administration (MBA), entrei como diretor de Operações (COO) numa pequena empresa solar que acabou por encerrar. Ficaram lições importantes: diversificar a base de clientes, preparar-se para o pior e manter uma boa dose de otimismo. Mas ficou, sobretudo, a convicção de que a energia solar e a geração distribuída teriam um papel central no futuro energético europeu.

“Vendemos contratos de energia produzida localmente, a um preço atrativo, investindo nós próprios na instalação”.

Em que contexto surge a Youdera e que necessidade concreta do mercado procurou responder desde o início?

Criámos a Youdera para oferecer uma solução de Solar-as-a-Service, num mercado onde esse tipo de oferta era escasso. Vendemos contratos de energia produzida localmente, a um preço atrativo, investindo nós próprios na instalação. Tornámo-nos, na prática, um produtor descentralizado de energia ao serviço dos nossos clientes.

Por detrás dessa proposta, há uma motivação que também é pessoal: contribuir para reduzir o desequilíbrio da balança energética portuguesa e europeia e acelerar a saída dos combustíveis fósseis. Este desequilíbrio continua marcante – segundo a Pordata, com dados Eurostat, em 2024, Portugal importou cerca de 64,5% da energia que consumiu, um valor muito acima da média da União Europeia (57%).

Para indivíduos e empresas, esta dependência traduz-se diretamente em volatilidade de preços, em incerteza para quem planeia investimentos e em risco geopolítico. O combate é o mesmo nas duas frentes: produzir mais energia limpa localmente para reduzir, ao mesmo tempo, a exposição geopolítica e a pegada de carbono. E, quando essa energia local é mais barata do que a alternativa fóssil, abre-se uma segunda porta – a da eletrificação a sério: transportes, climatização e processos industriais. É esse o caminho que ajudamos a percorrer.

A Youdera está sediada na Suíça, mas tem operação em Portugal e Espanha. Que importância têm estes mercados na estratégia de crescimento da empresa?

Portugal e Espanha são mercados centrais. A Península Ibérica combina recursos solares que estão entre os mais competitivos da Europa, com um potencial muito relevante em autoconsumo, armazenamento e comunidades de energia. A Ibéria é, também, um excelente teste à escala mundial, porque tudo o que se está a passar aqui – penetração elevada de renováveis, comunidades de energia, complexidade tarifária e eventos extremos no sistema – irá repetir-se noutros mercados nos próximos anos. O que aprendemos a fazer neste contexto torna-se replicável, o que confere à nossa exposição ibérica um valor estratégico que vai muito além do volume de negócio local.

A Suíça, por outro lado, traz um perfil diferente: estabilidade regulatória, política energética fortemente ancorada na independência energética de médio e longo prazo e um mercado que nos abre portas naturais para países adjacentes. É a combinação dos dois – laboratório ibérico e âncora suíça – que define a nossa proposta.

“Energia descentralizada significa produzir e gerir eletricidade junto ao local onde é consumida, usando recursos renováveis e armazenamento”.

A empresa aposta em modelos de energia descentralizada. Como define este conceito e que relevância pode ter para as organizações europeias?

Energia descentralizada significa produzir e gerir eletricidade junto ao local onde é consumida, usando recursos renováveis e armazenamento. Em vez de depender apenas da rede, a empresa passa a ter parte da sua energia sob controlo próprio. Para uma organização europeia, isto traduz-se em três benefícios concretos.

O primeiro é económico: a energia produzida localmente tende a ser mais barata e o contrato de longo prazo fixa o custo – funciona como cobertura natural contra a volatilidade dos preços. O segundo é a credibilidade ambiental: produção renovável próxima do consumo, mensurável e auditável pesa hoje na decisão de clientes e investidores e tornou-se um elemento real de atração e retenção de talento. O terceiro é estratégico: cada quilowatt-hora produzido no próprio local é menos um quilowatt-hora exposto à volatilidade.

O modelo Zero Capex é um dos elementos diferenciadores da proposta da Youdera. Como funciona, na prática, para uma empresa cliente?

O princípio é simples. O cliente não compra equipamentos, compra energia. A Youdera financia integralmente o investimento, instala, opera e faz a manutenção. O cliente assina um contrato de fornecimento de longo prazo e paga apenas o que consome, com poupanças desde o primeiro mês.

Isto permite-nos ir bem mais longe do que uma instalação solar standard: num caso recente, financiámos a renovação completa da cobertura de um cliente industrial em conjunto com o sistema fotovoltaico – uma intervenção que, isoladamente, exigiria CAPEX significativo. Dependendo do caso, pode tratar-se de um contrato único ou de uma combinação de contratos. O cliente tem sempre um único interlocutor – a Youdera – que funciona como único parceiro para a sua infraestrutura energética.

Que barreiras à transição energética este modelo permite ultrapassar, sobretudo em organizações que não pretendem ou não conseguem realizar investimentos iniciais elevados?

A maior barreira continua a ser o investimento inicial e é o que o Zero CAPEX resolve diretamente – o cliente não imobiliza capital nem consome a sua capacidade de investimento. Mas há uma segunda barreira quase tão importante: o tempo e a especialização exigidos para tomar boas decisões energéticas hoje. Não é apenas dinheiro que falta, é a largura de banda interna para gerir um tema que se tornou tão técnico e contratualmente exigente. O nosso modelo absorve essa carga e entrega o resultado, no fundo.

“(…) começamos sempre pela análise da curva de carga em intervalos de 15 minutos e, a partir daí, desenhamos o todo, maximizando o autoconsumo e simplificando a gestão do lado do cliente”.

A Youdera combina produção solar, armazenamento e gestão energética. Qual é a importância de uma abordagem integrada neste domínio?

Sem dúvida, é decisiva, porque acaba por estar tudo interligado. O dimensionamento do solar depende da curva de consumo. A bateria só faz sentido quando se conhecem os picos de potência e os ciclos tarifários. A adesão a uma comunidade de energia ou a um contrato de compra e venda de energia produzida longe do local de consumo (PPA off-site) depende do que já se produz localmente.

Tomadas, isoladamente, estas decisões, os resultados ficam abaixo do esperado, enquanto em conjunto o valor é multiplicado. Por isso, começamos sempre pela análise da curva de carga em intervalos de 15 minutos e, a partir daí, desenhamos o todo, maximizando o autoconsumo e simplificando a gestão do lado do cliente.

Num contexto de maior volatilidade e pressão sobre os custos energéticos, de que forma a energia passou a ser uma dimensão estratégica da competitividade empresarial?

A energia deixou de ser uma rubrica administrativa para passar a ser uma alavanca de competitividade. Quando a fatura representa uma parte material do custo total e o preço pode oscilar muito em poucos meses, geri-la bem é tão estratégico como gerir matérias-primas. Quem o faz, tem dois benefícios em simultâneo: previsibilidade financeira e credibilidade nos critérios ambientais, sociais e de governação (ESG). Quem não o faz, paga em ambas as frentes.

Considera que as empresas portuguesas já encaram a energia como uma área de gestão estratégica ou ainda prevalece uma visão centrada no custo operacional?

Vejo progressos claros, mas a mudança ainda se está a consolidar. Muitas empresas continuam a tratar a energia como um custo passivo e renegociam de dois em dois anos normalmente em pânico, quando o contrato expira. Em paralelo, vai surgindo uma nova geração de gestores que integram autoconsumo, armazenamento e dados de consumo nas suas decisões. Trabalhamos cada vez mais com esse perfil e é o que me deixa motivado quanto ao ritmo da transição em Portugal.

“Quem produz e gere parte da sua energia conhece a exposição, planeia investimentos com mais confiança e negocia com os retalhistas em pé de igualdade”.

Que impacto pode ter uma maior independência energética na resiliência, previsibilidade e capacidade de decisão das empresas?

A independência energética dá às empresas algo que o mercado, por si só, não consegue garantir: visibilidade e controlo. Quem produz e gere parte da sua energia conhece a exposição, planeia investimentos com mais confiança e negocia com os retalhistas em pé de igualdade.

Acredito que Portugal pode ir mais longe do que muitos outros países europeus. Temos sol, vento e hídrica em abundância e a nossa latitude permite-nos correr, praticamente todo o ano, com uma combinação destes recursos e de armazenamento. Se eletrificarmos a sério – climatização, processos industriais e transportes – Portugal tem condições para se transformar naquilo a que se chama um eletro-estado: um país capaz de funcionar quase inteiramente a eletricidade produzida internamente. É, provavelmente, um percurso de 15 ou 20 anos, mas é uma ambição realista e estrategicamente decisiva.

Quais são hoje os principais desafios para acelerar a adoção de soluções de energia descentralizada em Portugal e na Europa?

O principal desafio já não é tecnológico, é de execução. Continuamos a ter licenciamento moroso, processos de ligação à rede lentos, burocracia excessiva e um enquadramento regulatório fragmentado. E há um bloqueio muito prático no parque industrial: muitos edifícios continuam sem condições para avançar, seja por falta de reabilitação, seja pelo amianto nas coberturas.

Falta também flexibilidade no mercado – tarifas dinâmicas e regras claras para comunidades de energia, baterias e resposta da procura. O objetivo é simples: garantir que cada agente tem incentivo para consumir quando a energia é abundante e para poupar quando é escassa. É isso que mantém o sistema equilibrado e os preços baixos para todos.

Temos, ainda, de eletrificar mais depressa. É quase paradoxal não estarmos a adotar veículos elétricos a um ritmo mais rápido, num país onde a maioria dos condutores pode carregar a preços baixos durante o dia, precisamente quando os carros estão parados e o solar produz em força. Falta infraestrutura e faltam sinais de preço que tornem essa escolha óbvia.

O excesso de interveção – programas como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) – também cria entropia. Os decisores adiam decisões à espera do apoio. Muitas vezes, o subsídio não é atribuído, ou vem com contrapartidas pesadas. E, nesse processo de espera, há empresas que ficam para trás. O potencial existe, só falta remover obstáculos e dar previsibilidade.

Olhando para os próximos anos, que ambição tem para a Youdera e que tendências acredita que irão marcar a relação das empresas com a energia?

Desde o primeiro dia, a ambição foi construir uma utility descentralizada, focada em solar e armazenamento. Ainda estamos a construir as fundações, mas essa visão mantém-se, o que motivou a Amundi, uma das maiores gestoras de ativos europeias, a entrar no capital da Youdera. Nos próximos anos, queremos consolidar a presença nos mercados onde já estamos – Suíça, Espanha e Portugal – e levar o modelo a outros países europeus.

Criámos, recentemente, um departamento de gestão de energia, que apoia os clientes mais a montante das decisões. Antes de se decidir entre um sistema solar ou uma bateria, há um trabalho importante a fazer: auditar faturas, analisar a curva de consumo, otimizar potência contratada e ciclos tarifários, eliminar penalizações reativas e desenhar a estratégia de contratação com o retalhista. Quem conhece bem o seu consumo toma melhores decisões de investimento. As empresas vão apostar cada vez mais na descentralização, na eletrificação dos processos e nas comunidades de energia. É esse o arco completo – do telhado à fatura – que queremos continuar a entregar aos nossos clientes.

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