Opinião

Vender não é desistir

Filipe Bergaña, fundador da Audaz Capital
Foto: Filipe Bergaña, fundador da Audaz Capital

Quando não há sucessor, a venda pode ser a forma mais responsável de proteger o legado. O fundador fechou a porta da sala antes de falar. Tinha setenta anos, uma empresa que dava lucro, clientes fiéis e uma equipa que o tratava pelo primeiro nome.

Os filhos eram competentes, mas nenhum queria assumir o negócio. “Se eu vender, parece que falhei”, disse-me. Não falava de preço, nem de múltiplos, nem de impostos. Falava de uma culpa silenciosa: a sensação de que vender a empresa seria abandonar a história da família.

Esta culpa é mais comum do que parece. Em muitas empresas familiares, a venda continua a ser vista como último recurso, quase como confissão de derrota. Mas, num país onde as empresas familiares representam uma parte decisiva da economia – cerca de 75% do tecido empresarial português, segundo dados divulgados pelo COMPETE 2030 – tratar a sucessão como assunto privado é esquecer o seu impacto público: emprego, fornecedores, território, saber-fazer e continuidade.

A pergunta, por isso, talvez deva mudar. Não é apenas: “Quem da família fica?” É também: “Qual é a solução que melhor protege o que foi construído?” De forma gradual, tem-se vindo a enquadrar a transferência de empresas como tema tão relevante como a criação de novas empresas. A razão é simples: quando uma boa empresa não encontra continuidade, não desaparece apenas um accionista; pode desaparecer capacidade produtiva e conhecimento acumulado.

Vender por continuidade é diferente de vender por cansaço. Vender por cansaço acontece quando o fundador já não tem energia, a família evita o tema, a equipa percebe a incerteza e o mercado começa a cheirar fragilidade. Nessa altura, a negociação costuma ser defensiva. O dono quer resolver, o comprador sente urgência e a empresa chega à mesa com menos margem de manobra.

Vender por continuidade é outra coisa. É uma decisão tomada enquanto a empresa ainda está forte, enquanto há tempo para escolher bem, preparar informação, alinhar a família e explicar o projecto à equipa. Não significa que o fundador tenha deixado de acreditar na empresa. Pelo contrário: significa que acredita tanto nela que não quer deixá-la refém da biologia, do acaso ou de uma sucessão forçada.

Há casos em que os filhos simplesmente fizeram outra vida. Médicos, consultores, engenheiros, artistas, gestores noutras empresas ou residentes fora do país. Forçá-los a voltar por obrigação raramente produz boa liderança. A empresa merece alguém que queira estar lá todos os dias. A família merece não transformar o legado numa prisão.

E depois há um ponto delicado que muitos empresários só admitem em privado: nem todos os filhos devem ser sucessores. Podem ser bons accionistas, bons conselheiros, bons guardiões da memória familiar – e ainda assim não serem as pessoas certas para gerir clientes, bancos, equipas, tecnologia, crescimento e margens. Dizer isto não diminui a família. Liberta-a. O erro é confundir amor com aptidão executiva, ou continuidade familiar com continuidade empresarial.

O dilema fica mais claro quando se distinguem três coisas: propriedade, gestão e legado. A propriedade pode sair da família. A gestão pode passar para mãos externas. Mas o legado – a reputação, a forma de tratar clientes, a lealdade à equipa, a exigência no produto – pode e deve ser preservado.

É aqui que a escolha do comprador se torna crítica. Nem todos os compradores compram a mesma coisa. Um concorrente pode querer carteira de clientes, escala ou capacidade produtiva. Um fundo pode procurar profissionalização rápida e uma saída num determinado horizonte. Um investidor de continuidade pode procurar liderar a empresa, aprender com a equipa, preservar marca e cultura, e crescer com disciplina. Nenhuma destas opções é moralmente superior em abstracto. Mas são diferentes. E o fundador deve saber exactamente que futuro está a escolher quando assina.

Do lado de quem investe em continuidade, o que mais pesa não é apenas a taxa de crescimento, a margem EBITDA ou a geração de caixa. É a qualidade invisível da casa: clientes que confiam, colaboradores que ficam, processos que podem ser melhorados sem destruir a cultura, e um fundador disposto a transmitir conhecimento sem prolongar ambiguidade. Uma transição bem desenhada não exige que o antigo dono desapareça de um dia para o outro, mas exige que todos saibam quem lidera no dia seguinte.

Recordo uma empresa familiar do sector dos serviços técnicos onde o fundador hesitou durante meses entre entregar a gestão a um familiar pouco interessado ou vender a um terceiro. O que desbloqueou a decisão não foi uma proposta mais alta. Foi uma pergunta simples feita pelo seu contabilista: “Daqui a cinco anos, qual destas soluções deixa a empresa mais saudável?” A resposta foi desconfortável, mas clara. A venda deixou de parecer abandono e passou a parecer responsabilidade.

Preparar uma venda deste tipo exige mais do que uma boa avaliação financeira. Exige contar bem a história da empresa. O que a torna diferente? Porque é que os clientes voltam? Onde estão os riscos reais? Quem são as pessoas indispensáveis? Que investimentos foram adiados? Que partes da cultura devem ser protegidas a todo o custo? Uma empresa explicável transmite confiança. Uma empresa cheia de zonas cinzentas convida desconto.

Também exige honestidade emocional. Muitos fundadores dizem que querem “garantias absolutas” sobre o futuro. Elas não existem. O que existe é alinhamento de incentivos, qualidade do projecto, carácter do comprador, respeito pela equipa e clareza na transição. O vendedor não controla tudo depois de vender. Mas controla muito antes: quando prepara, escolhe, negoceia e acompanha.

Vender bem, no fundo, não é apenas maximizar preço. É maximizar continuidade. É receber valor justo, sim, mas também reduzir o risco de ver a empresa diluída, a equipa desorientada ou os clientes tratados como activos transferíveis. Para muitos empresários, a última grande decisão não será abrir uma nova fábrica, lançar um novo produto ou conquistar um novo mercado. Será escolher quem fica ao leme.

Talvez por isso a venda de uma empresa familiar deva ser vista menos como ponto final e mais como passagem de testemunho. Há fundadores que permanecem na empresa tempo demais por amor ao que criaram. E há outros que, precisamente por amor ao que criaram, têm a coragem de sair a tempo.

A pergunta difícil não é “quero vender?”. A pergunta difícil é: “se a minha família não quer ou não pode continuar, quem merece receber esta responsabilidade?”

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Filipe Bergaña

Filipe Bergaña

Filipe Bergaña é fundador da Audaz Capital, um veículo de investimento criado para adquirir a totalidade do capital de uma única empresa, rentável, em Portugal ou em Espanha, que enfrente um problema de sucessão e precise de continuidade. Depois de duas décadas de carreira nos mercados financeiros internacionais – em casas de referência como a BlackRock, a Fidelity, a Och-Ziff ou a Man Group – iniciou um novo caminho como empresário-operador. Filho de pai espanhol e mãe portuguesa, pertence a... Ler Mais..

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