Assédio laboral dispara nas empresas e já afeta quase 40% dos profissionais

O assédio laboral continua a aumentar nas empresas portuguesas e já é referido por 38,3% dos profissionais inquiridos, segundo o mais recente relatório do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis.

Quase 40% dos profissionais que participaram no mais recente relatório do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (Labpabs) afirmaram ser vítimas de assédio laboral, um aumento que os especialistas classificam como um “sinal de alerta” e que consideram não poder ser ignorado.

O estudo reuniu respostas de 5.549 profissionais de diferentes setores de atividade e indica que 38,3% dizem ser vítimas de assédio laboral. O fenómeno tem vindo a crescer nos últimos anos: passou de 16,5% em 2021/2022 para 20% em 2023, atingindo 27,7% em 2024.

A coordenadora do estudo, a psicóloga Tânia Gaspar, explicou à Lusa que existe atualmente uma maior consciencialização sobre o tema. “As pessoas têm este tema mais em cima da mesa (…) e acabam por rejeitar coisas que antes aceitavam”, afirmou, alertando também para um “desinvestimento” das empresas na área da saúde mental.

Os especialistas consideram que os resultados relativos à saúde mental são “particularmente expressivos” e merecem “especial atenção”. O relatório identifica uma elevada frequência de exaustão, sintomas de ‘burnout’ e sentimentos de solidão numa “parte muito significativa” dos profissionais.

Segundo os autores, a conjugação destes fatores com a elevada percentagem de vítimas de assédio laboral revela um desgaste que não pode ser interpretado apenas como um problema individual, mas antes como um “sinal de vulnerabilidade” das organizações, com impacto direto na saúde dos trabalhadores, no compromisso com o trabalho e na sustentabilidade das instituições.

Tânia Gaspar defendeu que “é preciso coragem” para promover mudanças estruturais nas empresas, uma vez que essas alterações implicam mexer em modelos organizacionais já “cristalizados”.

“Por isso, estou a apostar muitas vezes em propor planos que impliquem, por exemplo, acreditação por normas. Assim fica dentro da empresa e acaba por fazer parte dela”, explicou.

Descontentamento com os salários

Os resultados mostram também um forte descontentamento com as remunerações: 77,4% dos participantes consideram não receber uma remuneração justa pelo trabalho que desempenham. Os especialistas falam num “descompasso” entre exigência, reconhecimento e recompensa.

A coordenadora do estudo sublinhou ainda a necessidade de reorganizar o trabalho e apontou as lideranças como um elemento central. “As lideranças estão na geração X [entre os 45 e os 60 anos], que é aquela em que o trabalho ainda era ‘um ponto de honra’”, afirmou.

Segundo Tânia Gaspar, muitos líderes continuam a reproduzir modelos antigos de gestão junto das gerações mais novas. “Elas ainda aceitaram esse modelo dos seus superiores e estão a tentar importar esse modelo para as novas gerações, que têm outras prioridades”, acrescentou.

A sobrecarga de trabalho continua igualmente a surgir como um problema relevante, levando os especialistas a defender mais recursos humanos e uma distribuição mais equilibrada das tarefas. O relatório refere que “o respeito pelas pausas, descanso e recuperação dos trabalhadores é essencial para prevenir fadiga, desgaste físico e emocional”.

O estudo identifica ainda grupos considerados mais vulneráveis, nomeadamente mulheres, profissionais mais jovens, pessoas com doença crónica e trabalhadores que apresentam sintomas de ‘burnout’, solidão, infelicidade ou experiências de assédio laboral.

Os especialistas defendem, por isso, a necessidade de políticas universais acompanhadas de respostas específicas dirigidas a grupos mais vulneráveis. “Esta constatação reforça a necessidade de políticas universais, mas também de respostas seletivas, sensíveis às desigualdades e às vulnerabilidades concretas de diferentes grupos profissionais”, refere o relatório.

Apesar do cenário traçado, o documento identifica fatores de proteção. O modelo híbrido de trabalho surge associado a melhores indicadores de bem-estar, enquanto o trabalho totalmente presencial aparece relacionado com piores resultados.

Os dados revelam também diferenças geracionais. As gerações Z e Y, até aos 30 anos, apresentam menores níveis de envolvimento profissional, mais riscos psicossociais associados à saúde mental e maiores sentimentos de solidão.

Já a geração ‘babyboomer’, composta por profissionais com mais de 60 anos, é a que apresenta melhores indicadores de bem-estar, felicidade e envolvimento profissional, além de mais fatores protetores relacionados com ambientes de trabalho saudáveis.

Os ‘millennials’, entre os 30 e os 45 anos, destacam-se como a geração com maior risco ao nível da saúde mental.

O relatório aponta ainda “fragilidades significativas” nas dimensões consideradas “mais estruturantes” das organizações. Menos de metade dos profissionais reconhecem que as empresas se centram no bem-estar dos trabalhadores e apenas cerca de um terço considera que a liderança encara esse bem-estar como uma prioridade. A isto juntam-se queixas relacionadas com falta de informação atempada sobre decisões importantes e perceções negativas quanto à justiça na resolução de conflitos.

“Estes resultados sugerem que o mal-estar laboral não se explica apenas pela carga de trabalho, mas também por défices de confiança, previsibilidade, reconhecimento e participação”, conclui o relatório.

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