Opinião
Venture capital no Brasil: valuations comprimidos, IPOS na agenda e IA como infraestrutura
O ecossistema brasileiro de start-ups atravessa 2026 com uma identidade que os veteranos do setor já consolidaram em palavras simples: retomada com filtro.
Não se trata de um regresso à euforia de 2021, quando o venture capital na América Latina atingiu US$ 17,4 mil milhões em quase 1.200 deals, mas de algo potencialmente mais duradouro: um mercado que aprendeu com os excessos, sobreviveu à crise de capital e emerge agora com fundamentos mais sólidos.
O venture capital na região totalizou US$ 4,1 mil milhões em 681 rondas em 2025, um crescimento de 13,8% face a 2024 e a primeira recuperação significativa após três anos de correção. Porém, o volume de deals caiu 1,9%, atingindo o nível mais baixo desde 2017, o que sinaliza uma recuperação impulsionada exclusivamente por cheques maiores, não por mais transações.
Para investidores em Lisboa, Madrid ou Amesterdão, o sinal mais relevante é este: o deal average cresceu 16%, de US$ 5,2 para US$ 6,1 milhões. Os gestores estão a ser mais cirúrgicos, o que reduz o ruído e aumenta a qualidade média do dealflow. O Brasil continua a dominar a região, atraindo US$2,03 mil milhões em 363 deals em 2025, o que representa 52,9% de todo o financiamento regional da América Latina. Para efeitos de benchmarking, o México captou US$1,1 mil milhões em 2025 (27% do total regional), enquanto Colômbia e Chile somaram juntos cerca de US$600 milhões. A vantagem brasileira não é apenas de escala: o ecossistema paulista já oferece densidade de fund managers, experiência em down rounds e uma base de investidores locais que responde por dois terços do capital, algo raro na região e que reduz a dependência de humores externos.
O início de 2026 trouxe, porém, um soluço. Em janeiro, os aportes no Brasil somaram US$128 milhões, um recuo de 16% face ao mesmo mês de 2025, com desaceleração de 53% nos investimentos em equity na comparação anual. Fevereiro inverteu a tendência com vigor: os aportes em start-ups latinas subiram 106% em equity puro e 255% incluindo outros instrumentos de financiamento, segundo dados da Sling Hub.
A leitura correta deste padrão não é de declínio, mas de compressão racional. O capital circula, mas vai onde existe governança, métricas e visibilidade de retorno. Ao contrário dos picos de 2021, quando start-ups SaaS B2B negociavam a 25 a 35 vezes o EV/Receita recorrente, os múltiplos atuais situam-se entre 8 e 14 vezes para empresas em estágio de Series A/B com crescimento anual de 40% a 60% e margem bruta acima de 70%. Para negócios em estágio seed com tração inicial, o pre-money médio para uma equipa de três fundadores e ARR de US$ 500 mil ronda os US$ 4 a 6 milhões, valores que os investidores europeus reconhecem como sensatos e próximos da média do sul da Europa.
O evento mais aguardado pelos investidores focados em liquidez é o regresso das aberturas de capital. Após um hiato prolongado na B3, informações veiculadas pelo InfoMoney e confirmadas pelo Valor Econômico dão conta de que pelo menos duas empresas de tecnologia de médio porte protocolaram pedidos de registo na CVM em abril de 2026, visando uma estreia entre o final de maio e o início de junho.
Os nomes permanecem em quiet period, mas fontes de mercado (bancos de investimento coordenadores, sob anonimato) indicam tratar-se de uma empresa de automação de marketing B2B e outra de software de gestão para saúde suplementar, ambos com receita recorrente anual acima de R$ 200 milhões e margem EBITDA superior a 25%. O driver macroeconómico é a expetativa de queda gradual da taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano, para 11,5% até o final de 2026, o que tem levado gestores de fundos long-only a considerar que o pior da curva de juros ficou para trás. Se a primeira janela de IPOs for bem-sucedida, sem down-round na precificação e com pop de estreia positivo, o mercado espera uma fila de 10 a 15 empresas para o segundo semestre. O Expert XP, agendado para 23 a 25 de julho de 2026, será o grande termómetro do apetite do investidor pessoa física brasileiro, historicamente um dos principais compradores de ativos tecnológicos na ausência de capital estrangeiro mais agressivo.
O negócio mais comentado do trimestre vem de um setor improvável: seguros. A Segura, insurtech brasileira focada em inteligência artificial para corretores, levantou a sua primeira ronda institucional, um seed de R$45 milhões co-liderado pela Andreessen Horowitz (a16z) e pela Kaszek. A participação da a16z é o dado que move o mercado: trata-se de um dos maiores fundos de venture capital do mundo a liderar diretamente uma ronda seed numa start-up brasileira em estágio inicial, uma raridade que os analistas leram como sinal claro de que o Brasil voltou ao radar dos grandes alocadores globais.
O produto central da Segura é a Helena, uma plataforma de IA que permite a corretores gerir múltiplas seguradoras numa única interface, emitir apólices, realizar cotações complexas e atender clientes finais por inteligência artificial. A start-up operou dois anos em modo stealth, sem qualquer comunicação pública, atraindo 3 mil corretores para a plataforma antes mesmo de qualquer divulgação formal. O mercado em jogo justifica o entusiasmo: o Brasil conta com cerca de 164 mil corretores licenciados, responsáveis por mais de 80% das vendas do setor, e a Segura projeta chegar a 10 mil corretores até ao fim de 2026. O mercado de prémios supera os R$ 400 mil milhões anuais, com penetração tecnológica ainda muito baixa na ponta da distribuição.
No mercado de fusões e aquisições, o período foi marcado por uma mudança qualitativa importante. Análises do Valor Econômico, da Exame e da ABVCAP destacam a transição de aquisições oportunísticas para movimentos de consolidação setorial com sinergias operacionais claras. A fintech Asaas, de Joinville, exemplifica a estratégia mais agressiva do período: sob o comando do CEO Diego Contezini, a empresa projeta duplicar a faturação de R$ 560 milhões em 2025 para R$ 1 mil milhões em 2026, e está ativamente a procurar oportunidades de M&A para incorporar tecnologias que ainda não possui.
A aquisição da Mutuus Seguros, concretizada no início de 2026, transformou a plataforma numa super app financeira que rivaliza, no segmento de pequenas empresas, com as funcionalidades dos grandes bancos digitais. Mais de 30% das linhas de código da plataforma já são escritas por inteligência artificial. A Fortezza Partners lança, contudo, um alerta que merece atenção: o mercado brasileiro amadureceu institucionalmente, mas ainda sofre com a tendência de negócios promissores serem adquiridos antes de atingirem escala global, comprimindo o potencial de retorno para os investidores originais.
O chamado middle market, empresas com faturação entre R$ 50 e R$ 500 milhões, deverá concentrar grande parte das operações de fusão e aquisição, com exigência crescente de governança e compliance como pré-requisitos para qualquer transação. Para investidores europeus, uma nota importante: nos últimos 12 meses, registaram-se pelo menos três aquisições de start-ups brasileiras por grupos sediados na UE, uma de martech comprada por uma holding francesa, uma logtech por um fundo alemão, e uma fintech de cross-border por um banco espanhol. Os valores não foram divulgados, mas as fontes do mercado apontam múltiplos entre 4 e 7 vezes a receita anual, abaixo dos 10 vezes ou mais de 2021, mas alinhados com a realidade atual. Este é um canal de saída real que merece ser monitorizado.
Para investidores europeus há um elemento adicional que raramente aparece nos relatórios de dealflow: o Brasil combina energia renovável abundante (cerca de 85% da matriz eléctrica é limpa), com custos competitivos, eletricidade industrial a menos de US$ 60/MWh em média, posicionando-se como potencial hub regional para operações intensivas em processamento de dados, uma vantagem que ganhará relevância à medida que a regulação europeia sobre pegada carbónica dos data centers se tornar mais restritiva, nomeadamente o AI Act e a CSRD. Um episódio revelador do período foi publicado em capa pelo Valor Econômico: uma start-up nacional de IA recusou contratos com o governo dos EUA para vigilância e desenvolvimento de armas autónomas. Este conservadorismo ético tem sido lido pelo mercado europeu, sensível ao AI Act e à LGPD/GDPR, como diferencial competitivo, e não como obstáculo comercial.
A Reforma Tributária brasileira, EC 132/2023, ainda em regulamentação, gera ruído objetivo para o setor de tecnologia. No texto atual em discussão no Congresso, o regime específico para software e serviços digitais prevê uma alíquota reduzida do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) de 60% sobre a alíquota padrão, estimada em 25 a 27 por cento. Contudo, o crédito presumido de PIS/Cofins, atualmente favorável para exportadores de software, deverá ser eliminado, aumentando a carga efetiva sobre as receitas domésticas. Em simulações da ABVCAP, o impacto médio para uma start-up SaaS com 70% de receita local seria de mais 2,5 a 4 pontos percentuais de tributação sobre o EBITDA. Fundos europeus com investimentos no Brasil devem acompanhar a votação do PLP 68/2024, prevista para junho de 2026, e considerar cláusulas de material adverse change nos contratos de investimento.
A iniciativa pública mais significativa do trimestre é o lançamento de um fundo estatal de investimento em inteligência artificial. A Finep e o BNDES abriram edital para selecionar o gestor de um Fundo de Investimento em Participações de Inteligência Artificial, alinhado ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. O BNDES comprometerá até R$ 125 milhões e a Finep até R$ 80 milhões, totalizando R$ 205 milhões para apoiar start-ups onde a IA é o núcleo do modelo de negócio.
Um diferencial politicamente relevante: 30% dos recursos da Finep serão obrigatoriamente destinados a start-ups nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, sinalizando uma política de descentralização do ecossistema que historicamente se concentra em São Paulo. Para o investidor europeu, o sinal prático é que o Estado brasileiro está a funcionar como anchor investor, o que reduz o risco de capital para fundos privados que co-investirem nas mesmas empresas.
No plano dos fundos, a Monashees está próxima do primeiro closing do seu 11.º veículo. Com meta de captar US$ 200 milhões, metade do fundo anterior, numa decisão estratégica para maximizar o retorno dos LPs, o Monashees XI focará em fintech, edtech, healthtech, retailtech, SaaS e IA, e já conta com investidores âncora como o IFC e o BID Lab. A lógica contra-intuitiva de reduzir o tamanho do fundo é coerente com o momento: com a IA, as start-ups precisam de menos capital para escalar, pelo que um fundo menor pode liderar mais rondas com cheques proporcionalmente maiores. A gestora acaba ainda de abrir uma filial em São Francisco, reforçando a ponte entre o ecossistema brasileiro e o Silicon Valley.
A Quartzo Capital, por sua vez, iniciou a captação do VC6, com target de US$ 100 milhões, marcando uma mudança estratégica para start-ups em estágio mais avançado, com cheques a partir de US$ 5 milhões e foco em Series A robustas e Series B. O corporate venture capital, que viveu expansão acelerada até 2022, atravessa entretanto um processo de recalibração: segundo análises da ACE Startups e da Wayra, muitas corporações estão a rever estratégias para alinhar melhor inovação com retorno financeiro e impacto no core business, com menos dispersão e mais integração operacional.
A análise geopolítica nunca esteve tão presente nos decks dos fundos brasileiros. A escalada militar no Médio Oriente gerou impactos directos no ecossistema: relatórios do Valor Econômico apontam que mais de 20 voos com destino à região foram cancelados a partir do Brasil, afetando start-ups com equipas na Europa e Ásia, especialmente aquelas que mantinham centros de desenvolvimento na Ucrânia e na Índia. O fechamento virtual do Estreito de Ormuz afetou a precificação do frete global, com start-ups de supply chain a registarem aumento repentino na procura por softwares de re-rotação em tempo real, enquanto empresas de mobilidade urbana e delivery revisaram margens operacionais.
O paradoxo brasileiro é que o país, sendo grande fornecedor de commodities, petróleo e alimentos, num momento de escassez global, acaba por beneficiar do mesmo contexto que perturba outros mercados emergentes. Para o investidor europeu, o risco cambial (BRL/EUR) permanece elevado: nos últimos seis meses, a volatilidade implícita a um ano situou-se em 14 a 16 por cento, pelo que instrumentos de hedge simples, como NDF ou opções de moeda, devem ser considerados para posições acima de €5 milhões. A moeda brasileira tem apresentado correlação positiva com o preço das commodities e negativa com a incerteza política doméstica.
Para um investidor europeu que aloca em BRL, a experiência histórica recomenda uma cobertura parcial de 40 a 60 por cento do valor exposto através de contratos a termo ou ETFs de moeda short BRL, sobretudo em períodos eleitorais, dado que o ciclo de 2026 é pré-eleitoral para a presidência, com votações marcadas para outubro. Fundos brasileiros têm oferecido cada vez mais classes de cotas em USD para investidores estrangeiros, o que elimina o risco cambial ao custo de uma pequena spread de gestão de 0,2 a 0,5 por cento ao ano. Esta é a opção mais simples e recomendada para a maioria dos LPs europeus.
O Brasil que emerge neste segundo trimestre de 2026 é mais seletivo, mais exigente, o que o torna mais interessante. Os valuations estão comprimidos face aos picos de 2021, entre 8 e 14 vezes o EV/Receita para boas empresas SaaS, contra 25 vezes ou mais em 2021. As start-ups sobreviventes têm um burn rate controlado e modelos validados, o capital público funciona como âncora com R$205 milhões para IA, e os grandes fundos globais voltaram a liderar rondas locais, como a A16z na Segura.
Os investidores domésticos contribuem com aproximadamente dois terços do financiamento de venture capital, um dado que torna o ecossistema menos dependente de capital externo e mais autossustentável do que em 2021. O risco regulatório está quantificado, com impacto de mais 2,5 a 4 pontos percentuais na tributação. O risco cambial tem soluções práticas, como classes em USD. Os canais de saída incluem não só a B3, com os IPOs esperados, mas também aquisições por grupos europeus, já documentadas. Para quem souber ler o mercado local com disciplina e paciência, a assimetria existe. A questão não é se o Brasil vai crescer, é quem estará posicionado quando isso acontecer.
Fontes: The Cap table, Startups, PEGN, NeoFeed, Startupi; Valor Econômico, Exame, InfoMoney, Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo; ACE Startups, Wayra, Distrito, Sebrae Startups, ABVCAP, Bloomberg Línea; análise de dados da Sling Hub e relatórios setoriais da ABVCAP relativos ao período março–maio de 2026.








