Estudo alerta para dificuldades de leitura das crianças nos primeiros anos de escolaridade
Projeto LER revela que as desigualdades na literacia começam antes do 1.º ciclo e persistem ao longo dos primeiros anos de escolaridade.
Metade dos alunos em Portugal termina o 1.º ano a ler menos de 37 palavras por minuto, um quarto não ultrapassa as 21 palavras por minuto, um indicador de fluência de leitura ainda pouco desenvolvida, o que torna particularmente importante a consolidação destas competências nos anos seguintes.
Os dados são revelados pelo Projeto LER, desenvolvido pelo Fundação Belmiro de Azevedo (FBA) e apresentado na Conferência Internacional do EDULOG, que envolveu uma amostra nacionalmente representativa de Portugal Continental, com mais de 6.500 crianças do pré-escolar e do 1.º e 2.º anos de escolaridade, em 184 escolas públicas e privadas de todo o país.
Apesar de a maioria das crianças adquirir rapidamente o reconhecimento das letras, muitas mantêm dificuldades na identificação e manipulação dos sons das palavras, uma competência essencial para a leitura.
Esse padrão reflete-se na evolução da leitura: o maior salto acontece no 1.º ano e, no final desse ano, a mediana de leitura chega às 37 palavras por minuto. No 2.º ano, a mediana sobe para cerca de 82, mas 25% dos alunos permanecem abaixo de 69 palavras por minuto, sinal de que nem todas as crianças evoluem ao mesmo ritmo.
Na escrita, verifica-se igualmente uma evolução gradual, mas com grande disparidade de resultados. No final do 1.º ano, um quarto dos alunos não consegue escrever corretamente mais de 12 das 37 palavras ditadas, ao passo que outro quarto ultrapassa as 27 palavras corretas.
Dificuldades surgem ainda antes da entrada na escola
O Projeto LER mostra ainda que as desigualdades nas competências de literacia têm início antes da entrada no ensino formal. No pré-escolar, não obstante o progresso no conhecimento das letras e na consciência fonémica, verifica-se uma elevada variabilidade entre crianças, indicando que uma parte entra no 1.º ciclo sem bases plenamente consolidadas.
O ambiente familiar assume um papel determinante no desempenho dos alunos. As crianças com pelo menos um dos pais com ensino superior (55% da amostra) apresentam resultados mais favoráveis nas diferentes competências avaliadas no Projeto LER. No final do 1.º ano, essas crianças apresentam, em média, uma vantagem de cerca de 14 palavras por minuto na leitura, um diferencial expressivo logo no início do percurso escolar.
Esta realidade reflete-se também nas diferenças observadas entre as escolas públicas e privadas. Os alunos do ensino privado apresentam, em média, melhores resultados em várias medidas, mas os perfis socioeducativos diferem muito entre setores: cerca de 88% das crianças no privado têm pelo menos um pai com ensino superior, face a 46% no público. Quando se tem em conta a escolaridade dos pais, a vantagem média do privado praticamente desaparece, e as diferenças remanescentes tendem a ser pequenas e raramente estatisticamente significativas.
Com base na evidência recolhida, o estudo sublinha a importância de promover atividades que promovam o desenvolvimento do interesse pelos sons da linguagem, o conhecimento das letras e o desenvolvimento da consciência fonémica. O estudo destaca ainda a importância de envolver as famílias, incentivando práticas como a leitura em voz alta e a interação regular com livros.
Para o 1.º e 2.º anos de escolaridade, o estudo recomenda a implementação de abordagens estruturadas no ensino da leitura, incluindo o ensino explícito e progressivo das relações entre sons e letras, bem como a prática regular de leitura e escrita e uma avaliação sistemática das competências de literacia, que não só avaliem a leitura e a escrita propriamente ditas, mas também os conhecimentos e habilidades em que estas se alicerçam, pois só assim será possível identificar precocemente a origem das dificuldades e ajustar as estratégias pedagógicas às necessidades dos alunos.
“Os resultados mostram que dificuldades iniciais não são resolvidas, tendem a persistir, potencialmente tornam-se mais difíceis de recuperar e com impacto no percurso escolar. Estes dados reforçam a importância de intervir precocemente e de garantir condições para que todas as crianças desenvolvam competências fundamentais desde o início do seu percurso educativo”, afirma Isabel Leite, presidente do Conselho Consultivo da EDULOG, coordenadora do Projeto LER e professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Évora.








