Opinião

A proposta de valor não se escreve. Cumpre-se.

Pedro Celeste, diretor-geral da PC&A

Num mercado cada vez mais saturado e competitivo, a proposta de valor não se pode cingir a um mero exercício de comunicação. Deve afirmar-se como um dos pilares estruturantes de qualquer organização.

Mais do que responder à pergunta “o que fazemos”, importa clarificar “porque deve o mercado escolher-nos”. É aqui que reside a sua verdadeira essência: na capacidade de traduzir, de forma clara e consistente, aquilo que torna uma empresa relevante, distinta e confiável.

Uma proposta de valor sólida não é um conjunto de frases inspiradoras colocadas num website ou num relatório institucional (um banco português já desaparecido pelas piores razões inspirava-se na frase “A aposta na confiança depositada pelos clientes”).

É, antes de mais, uma expressão concreta do propósito da organização, refletida nas suas decisões, nos seus comportamentos e na sua cultura. Quando bem definida, funciona como um referencial interno que orienta a ação, especialmente nos momentos de maior pressão ou incerteza. Não se trata de estética ou semântica; trata-se de coerência.

Há exemplos amplamente reconhecidos de propostas de valor bem conseguidas. A Apple construiu a sua proposta na interseção entre design, simplicidade e experiência integrada, garantindo que cada produto reflete essa promessa. A IKEA democratizou o acesso ao design funcional, sustentando a sua proposta numa combinação de preço acessível, eficiência logística e autonomia do cliente. A Amazon construiu a sua proposta em torno da conveniência extrema, rapidez e obsessão pela experiência do cliente, assegurando consistência em larga escala. A Sonae tem conseguido afirmar uma proposta centrada na criação de valor sustentável, combinando inovação no retalho com uma forte orientação para o cliente e para a eficiência operacional. A Delta Cafés construiu a sua identidade com base na proximidade, na qualidade do produto e numa cultura empresarial profundamente enraizada em valores humanos e sociais. A EDP tem vindo a reposicionar a sua proposta de valor em torno da transição energética, assumindo um compromisso claro com as energias renováveis e a sustentabilidade.

Em todos estes casos, a proposta de valor não é apenas comunicada. É operacionalizada diariamente.

Por contraste, existem erros recorrentes que fragilizam a definição e a credibilidade de uma proposta de valor, tais como propostas genéricas e indistintas, que poderiam pertencer a qualquer empresa do mesmo setor ou excesso de retórica aspiracional sem correspondência na prática quotidiana. Em muitos outros casos assistimos a uma total falta de alinhamento entre a liderança e a cultura interna, gerando incoerência nas decisões ou ainda no foco exclusivo no produto ou serviço, ignorando a experiência global do cliente. Mais grave ainda é a ausência de ligação a princípios de governança, ética e transparência.

Estes erros conduzem frequentemente a um fenómeno bem conhecido: a necessidade constante de “ajustar a narrativa”. Quando a proposta de valor não é clara ou não é verdadeira, a organização vê-se obrigada a reformular mensagens, slogans e posicionamentos, numa tentativa de compensar aquilo que não está resolvido na essência. A semântica passa a ser um paliativo quando deveria ser apenas a expressão de uma realidade sólida.

A importância deste tema é inequívoca. Uma proposta de valor clara e autêntica contribui para alinhar equipas, orientar decisões estratégicas e reforçar a confiança do mercado. Funciona como um filtro: ajuda a determinar o que faz sentido fazer e, igualmente importante, o que não faz. Num contexto onde a reputação se constrói (e destrói) rapidamente, a consistência torna-se um ativo crítico.

E há uma verdade simples que importa não ignorar: uma proposta de valor só tem valor se for reconhecida, como tal, pelos clientes. É essa validação externa, traduzida em escolhas, lealdade e confiança, que confirma a sua autenticidade. Tudo o resto são apenas palavras.

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Pedro Celeste

Pedro Celeste

Doutorado em Gestão pela Universidade Complutense de Madrid. Diplomado pelo INSEAD, London Business School, Wharton School, University of Virginia, MIT Management Sloan Management School, Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management de Chicago e IESE Business School. Na Católica Lisbon School of Business & Economics é Diretor Académico dos Executive Master in Management e coordenador do Programa Avançado de Marketing para Executivos, do Programa de Gestão Comercial e Vendas, do Programa de Gestão em Marketing Digital... Ler Mais..

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