62% das empresas europeias pagam com atraso devido a recebimentos tardios

A proporção de receitas pagas com atraso atingiu níveis insustentáveis, colocando pressão sobre as empresas que enfrentam um contexto de incerteza económica e travando o crescimento, revela o mais recente relatório da Intrum.

As empresas europeias enfrentam uma pressão crescente sobre a tesouraria, uma vez que os pagamentos em atraso excedem níveis sustentáveis, segundo o European Payment Report 2026 da Intrum. O relatório indica que a percentagem de receitas recebidas com atraso ultrapassou os 12%, superando o nível que as empresas conseguem gerir sem perturbar as suas operações.

Em Portugal, esta tendência é igualmente visível: cerca de 10,27% das receitas são recebidas com atraso, também acima do limiar considerado sustentável pelas empresas. Mais de metade das empresas europeias afirmam que os atrasos nos pagamentos já as levaram a falhar objetivos de crescimento, evidenciando o impacto disruptivo dos atrasos de pagamento em toda a Europa.

Ao mesmo tempo, apesar de um contexto económico desafiante, 64% das empresas indicam que o crescimento é a sua principal prioridade para 2026, o valor mais elevado dos últimos cinco anos. Para muitas, o foco parece estar a mudar da sobrevivência para o sucesso. No entanto, os dados do EPR da Intrum sugerem que os pagamentos em atraso estão a afetar cada vez mais a estabilidade diária das empresas e a limitar as suas ambições de crescimento. Os pagamentos em atraso estão a gerar um efeito dominó ao longo das cadeias de abastecimento europeias. Segundo o estudo, 62% das empresas afirmam que os atrasos na receção de pagamentos levam-nas a pagar também com atraso aos seus próprios fornecedores.

Em Portugal, este efeito também é evidente: 60% das empresas pagam aos fornecedores com atraso devido a receberem tardiamente dos seus clientes, refletindo a natureza sistémica do problema.

Ao mesmo tempo, na Europa o gap de pagamento, ou seja, a diferença entre o prazo acordado e o tempo efetivo de pagamento está a aumentar. No setor B2B, este diferencial aumentou de 16 dias em 2023 para 20 dias este ano e espera-se que a pressão continue.

Mais de metade das empresas prevê que o risco de atrasos ou o incumprimento de pagamento aumente nos próximos 12 meses, refletindo uma incerteza económica persistente e uma pressão financeira contínua.

Com o crescente agravamento do impacto dos atrasos nos pagamentos, as empresas estão a responder através do reforço da disciplina de pagamento: seis em cada dez afirmam estar a tomar medidas para evitar pagamentos tardios – a percentagem mais elevada registada nos últimos seis anos. Paralelamente, 66% das empresas já recorrem à inteligência artificial nos processos de pagamento (face a 59% em 2025), com 23% a identificarem o aumento da eficiência como o principal benefício. Ainda assim, a adoção de IA permanece desigual, uma vez que 55% das empresas referem não dispor das competências necessárias para tirar pleno partido do seu potencial.

Para Johan Åkerblom, presidente e CEO da Intrum, “nos últimos anos, as empresas europeias demonstraram uma forte resiliência e mantêm o foco no crescimento, mesmo num ambiente desafiante. No entanto, as nossas conclusões mais recentes mostram que os pagamentos em atraso já não são apenas um desafio de gestão de liquidez; estão cada vez mais a afetar a estabilidade do dia a dia e a limitar a capacidade das empresas de concretizar as suas ambições de crescimento”.

“De forma encorajadora, as empresas estão a reagir. Muitas estão a reforçar a disciplina de pagamento, a apertar as avaliações de crédito e a explorar novas formas de gerir o risco de pagamento. A tecnologia está a desempenhar um papel cada vez mais relevante nesta transformação, ajudando as organizações a melhorar a visibilidade e a reforçar a resiliência financeira. A inteligência artificial, em particular, está a afirmar-se como uma ferramenta poderosa na gestão de pagamentos”, acrescenta.

Por seu turno, Anna Zabrodzka-Averianov, economista Sénior da Intrum, assegura que “o relatório deste ano destaca que o comportamento de pagamento está a tornar-se um indicador cada vez mais relevante da estabilidade empresarial. Os pagamentos em atraso criam um ciclo vicioso, uma vez que as empresas que têm dificuldades em receber acabam por pagar também com atraso a outras empresas. O problema dos atrasos está a propagar-se ao longo das cadeias de abastecimento e a prejudicar a economia em geral”.

O EPR 2026 baseia-se nas respostas de 8.385 empresas em 20 países europeus, oferecendo uma visão aprofundada sobre a gestão de pagamentos, o risco financeiro e a evolução das perceções face aos pagamentos em atraso e à incerteza económica.

 

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