Nove em cada dez portugueses têm medo de falhar profissionalmente, diz estudo
O medo de falhar, dos riscos físicos e financeiros, a preocupação com erros e a rejeição social estão entre os principais receios transmitidos de geração em geração, segundo um estudo da ConsumerChoice divulgado num novo livro.
Nove em cada dez portugueses têm medo de fracassar profissionalmente, segundo um estudo nacional sobre o medo, realizado pela ConsumerChoice, que identificou os 100 principais receios da população nas áreas da vida profissional, saúde e bem-estar e relações familiares.
Entre os dez principais medos, oito estão relacionados com a saúde, destacando-se a perda de mobilidade (85%), o risco de hospitalização (85%), as doenças incuráveis (83%), a surdez (83%), a cegueira (81%), as doenças em geral (81%) e os acidentes (79%), a par do receio de envelhecer sozinho (79%) na esfera pessoal.
Os resultados são revelados no novo livro “Medo – Como Transformar Ameaças em Forças”, do empresário José Borralho. A obra cruza investigação estatística com experiências pessoais e profissionais do autor para refletir sobre o papel do medo e o seu potencial transformador.
“Se biologicamente o medo nos protege, psicologicamente ensina‑nos. O medo não é apenas um alerta de perigo físico, revela também os nossos limites e as nossas crenças”, explica José Borralho, autor da obra. “Sempre que temos medo de falhar, de sermos rejeitados ou de perder algo, estamos a tocar em camadas profundas da nossa identidade. O medo funciona como um espelho, mostrando aquilo que mais valorizamos e os pontos onde precisamos de crescer”, acrescenta.
Segundo o estudo, o medo é percecionado como uma emoção com duplo impacto: 46% dos portugueses considera-o um mecanismo de proteção e 27% como uma ferramenta de aprendizagem, enquanto apenas 15% o encara como impeditivo.
Apesar desta dualidade, o impacto nas decisões é claro: 46% admite já ter evitado uma decisão importante por medo e 38% reconhece que este condiciona escolhas relevantes. Ao mesmo tempo, 28% identifica-o como uma oportunidade de crescimento, evidenciando o seu potencial transformador.
Ainda de acordo com o estudo, o medo manifesta-se de forma praticamente igual na vida pessoal e na vida profissional (25% em ambas), seguido da esfera emocional (19%). Também se faz sentir nos relacionamentos (15%) e na vida familiar (14%), onde é alimentado por expectativas e receios de deceção. A presença do medo em múltiplas áreas evidencia que este se infiltra em tudo o que é importante: onde há afeto, desejo e pertença, há também vulnerabilidade.
No contexto profissional, 43% dos inquiridos reconhece já ter sentido impacto negativo no desempenho. Entre os principais receios, destacam-se o medo de falhar ou de não atingir metas (28%), o fracasso em projetos e tarefas (25%) e o receio de despedimento (17%). O medo revela-se também ao falar em público (15%), em relação à progressão na carreira (11%) e o receio do julgamento dos colegas (16%). Apesar disso, 92% acredita que superar o medo é a chave para o sucesso e 54% reconhece que pode ser transformador quando bem gerido.
A esfera familiar surge como um dos principais focos de condicionamento emocional. O medo de dececionar (30%) e de enfrentar conflitos (22%) influencia comportamentos e decisões, com 46% dos inquiridos a admitir impacto na autoestima. Ainda assim, 89% acredita que estes desafios podem ser oportunidades de crescimento quando abordados com empatia e comunicação. O medo da rejeição afeta a autenticidade nas relações. A maioria evita mostrar vulnerabilidade (27%) e conflitos por receio da perda, apresentando também dificuldade em confiar (26%). Em muitos casos, esta dinâmica leva à evitação de conflitos — sobretudo nos casais — com 40% a privilegiar uma aparente harmonia em detrimento do confronto.
29% dos filhos herda o medo de falhar dos pais
Os pais transmitem, muitas vezes de forma inconsciente, medos profundos aos filhos, incluindo o receio de falhar (29%), perigos físicos ou financeiros (28%) e de não ser aceite socialmente (18%). Estas influências refletem-se nas crianças, que tendem a evitar riscos, tornando-se mais inseguras e retraídas.
A infância é o primeiro território onde se constroem crenças, medos e formas de ver o mundo. Mais de três quartos dos inquiridos (77%) reconhece que crenças enraizadas na infância continuam a influenciar decisões na vida adulta, tanto no plano pessoal como profissional. Frases como “Não és capaz” ou “Isso não é para ti” deixam marcas emocionais profundas, traduzindo-se na evasão ao confronto (32%) ou na baixa autoconfiança (31%).
Neste contexto, a infância surge como a origem silenciosa de muitos dos medos na vida adulta.
As crenças limitantes surgem frequentemente de críticas recebidas na infância e de experiências de rejeição. Mais de 32% dos portugueses acredita que “não são capazes”, 27% pensa que “é tarde demais para mudar” e 58% nunca tentou ressignificar estas ideias, isto é, alterar essas perceções, revela o estudo.
Entre os fatores mais impactantes estão comentários e críticas de familiares (34%), experiências escolares e competições (23%), rejeição e bullying (21%) e comparações com outras crianças (21%). Estas palavras negativas afetam sobretudo a autoestima (27%), a confiança nas próprias capacidades (19%), a perceção sobre sucesso e fracasso (18%), os relacionamentos (17%) e a capacidade de tomar decisões (17%).







