Entrevista/ “Os consumidores não devem opor prazer e responsabilidade, porque ambos devem coexistir”
Há mais de 25 anos, Willy Mansion revolucionou a forma como os consumidores escolhem os produtos alimentares. Ao criar o selo Sabor do Ano em França, colocou o sabor no centro da decisão de compra, dando voz direta aos consumidores. Três décadas depois, o prémio é uma referência internacional e, em Portugal, celebra 10 anos a guiar escolhas com confiança, sabor e, mais recentemente, sustentabilidade.
Criado em 1995 em França, o selo Sabor do Ano nasceu com uma missão clara: colocar o consumidor no centro da avaliação e ajudá-lo a escolher produtos de qualidade, saborosos e, mais recentemente, sustentáveis. Com presença em Portugal, Espanha, Itália, México e Colômbia, o prémio já distinguiu mais de 2 mil produtos de 650 empresas, após mais de 150 mil testes sensoriais conduzidos junto de milhares de consumidores.
“Quando criei o Sabor do Ano (Saveur de l’Année), estava ligado à restauração, em contacto direto com os clientes. Como gostavam de dar a sua opinião sobre os meus pratos, quis que também pudessem fazê-lo sobre os produtos que compravam nas suas lojas.”, explica Willy Mansion, fundador da Monadia e criador do Selo Sabor do Ano.
A expansão internacional trouxe desafios: era necessário adaptar o modelo a culturas alimentares diferentes sem perder a essência. Hoje, o selo combina prazer gustativo, rigor científico e critérios de sustentabilidade, refletindo a evolução das expectativas dos consumidores e consolidando-se como uma referência de confiança no mercado português, com 92% de awareness.
Como nasceu o selo Sabor do Ano em França e qual foi a inspiração inicial para criar este prémio?
Quando criei o Sabor do Ano (Saveur de l’Année), estava ligado à restauração, em contacto direto com os clientes. Como gostavam de dar a sua opinião sobre os meus pratos, quis que também pudessem fazê-lo sobre os produtos que compravam nas suas lojas.
Criei então uma distinção que lhes permitisse avaliar os produtos com rigor, graças a uma metodologia exigente sob a supervisão de laboratórios de análises sensoriais. A ideia era simples, mas profundamente inovadora na época: colocar o sabor no centro do ato de compra, apoiando-se na inteligência coletiva. Hoje parece evidente. Há 30 anos, foi uma pequena revolução.
“Foi necessário compreender as especificidades locais, mantendo uma metodologia rigorosa. É esse equilíbrio que faz a força do modelo”.
Quais foram os principais desafios na expansão do selo para outros países, como Portugal, Espanha e Itália?
O principal desafio foi sempre adaptar sem perder a essência. Cada país tem a sua história, cultura alimentar e expectativas. Mas, no fundo, existe uma linguagem universal: a do sabor e do prazer. Foi necessário compreender as especificidades locais, mantendo uma metodologia rigorosa. É esse equilíbrio que faz a força do modelo. Se perder o ADN, perde-se a credibilidade.
Pode partilhar alguns momentos-chave da história do prémio que considera decisivos para o seu sucesso internacional?
Desde o início, optei pela exigência metodológica. Isso fundou a nossa credibilidade e diferenciação. Somos os únicos a testar produtos em laboratório, às cegas, sem referência à marca, com consumidores. Outro momento decisivo foi a integração de critérios de sustentabilidade. Percebemos que o sabor já não podia ser o único critério. Estes dois pilares (rigor científico e compromisso social) permitem-nos hoje atravessar fronteiras com legitimidade.
Quais foram as mudanças mais significativas desde a criação do selo até hoje?
No início, estávamos focados no prazer gustativo, que continua a ser o nosso ADN. Mas o mundo mudou, e as expectativas dos consumidores também. Hoje, querem produtos saborosos, mas também mais saudáveis, transparentes e respeitadores do ambiente. Enriquecemos os nossos critérios para incluir nutrição, composição e impacto. É minha responsabilidade responder aos desafios de hoje e do futuro.
“Num mundo complexo, oferecer um símbolo claro e útil no momento da compra é um grande valor”.
O Sabor do Ano celebra este ano 10 anos em Portugal. O que considera ter sido crucial para se tornar numa referência para os consumidores portugueses?
A diferença esteve na nossa capacidade de criar proximidade com os consumidores portugueses. O facto de serem consumidores portugueses a testar os produtos reforça a identificação e a confiança no selo. Atualmente, o Sabor do Ano é o selo de líder no setor alimentar com 92% awareness. Não chegámos com um modelo “chave na mão”; dedicámos tempo a compreender hábitos e expectativas. Outro fator foi a consistência. Durante 10 anos, fomos presentes, constantes e claros. Essa continuidade cria confiança. Por fim, mantivemos o selo simples de entender. Num mundo complexo, oferecer um símbolo claro e útil no momento da compra é um grande valor. Esta combinação de proximidade, consistência e clareza permitiu a sua integração no dia a dia dos consumidores.
A nova imagem do selo em Portugal reflete alguma mudança na estratégia ou valores da Monadia?
Não é uma mudança, é uma evolução. O essencial mantém-se: exigência, transparência e compromisso. A forma, no entanto, deve evoluir com o tempo. Modernizámos a identidade para melhor dialogar com consumidores mais informados e exigentes. E, como sempre, testámos esta nova identidade com os consumidores, através de um estudo realizado sobre a perceção da nova imagem.
Ao longo de 28 anos como empreendedor, quais foram os maiores desafios e conquistas que marcaram a sua carreira?
O maior desafio é a duração. Empreender não é um sprint, é uma travessia. É preciso evoluir e questionar-se sem trair valores. Houve dúvidas e transformações profundas. O maior orgulho é ter construído um modelo com sentido, duradouro e com impacto real na forma como as pessoas consomem.
Que conselhos daria a novos empresários que desejam criar produtos ou selos de referência?
Diria para nunca procurarem o caminho fácil. Criar uma referência exige tempo, rigor e exigência pessoal. É preciso obsessão pela qualidade e coerência. E ouvir a sociedade: os sinais estão sempre presentes.
Há cinco anos incorporou critérios de sustentabilidade nos prémios Monadia. O que motivou esta mudança e como avalia o impacto nos produtos premiados?
Foi uma consciência pessoal e coletiva. Ao tornar-me avô, percebi a responsabilidade perante as gerações futuras. Para completar a avaliação e responder às questões climáticas e ambientais, o espectro foi ampliado para incluir critérios essenciais, como o Nutri-Score, que avalia a qualidade nutricional do produto através de uma classificação de A a E claramente integrada na embalagem; a reciclabilidade das embalagens, concebidas com materiais recicláveis ou reutilizáveis, exigindo reflexão sobre os materiais utilizados e a sua apresentação visual; e os compromissos de sustentabilidade, que devem ser visíveis e compreensíveis, muitas vezes através de certificações ou logótipos específicos. Estes critérios incentivam as empresas a transformarem-se, não para punir, mas para encorajar e acelerar mudanças.
“O sabor continua essencial, mas inserido numa visão global. A inovação deve ser útil e responsável. A qualidade mede-se também pelo impacto na saúde e no planeta”.
Como caracteriza a relação entre qualidade, inovação e sustentabilidade nos produtos que distingue?
Hoje estão totalmente ligadas. O sabor continua essencial, mas inserido numa visão global. A inovação deve ser útil e responsável. A qualidade mede-se também pelo impacto na saúde e no planeta. Os produtos de excelência equilibram estes três pilares.
Como concilia a carreira de empresário com a música e o espetáculo My Way?
Para mim, é complementar. O espetáculo faz parte do meu ecossistema. É a primeira vez que um líder empresarial usa um espetáculo para explicar a transição ecológica — não com PowerPoint, mas com música e humor. E resulta: a imprensa tem elogiado.
As minhas músicas ajudam a transmitir convicções. São uma ferramenta de comunicação para falar de ecologia de forma positiva e envolvente. Quero inspirar ação. A emoção é essencial — é o que nos move. O alarmismo excessivo cria desistência. É mais útil motivar do que assustar.
Que novas categorias ou iniciativas podemos esperar do Sabor do Ano e dos prémios Monadia nos próximos anos?
Vamos continuar a evoluir os critérios para acompanhar mudanças no consumo. Queremos identificar, valorizar e acelerar iniciativas positivas. Seremos um revelador e acelerador dessas transformações.
“Os prémios devem ser referências fiáveis e pedagógicas, ajudando os consumidores a adotar práticas sustentáveis com prazer”.
Como vê o futuro do consumo sustentável e do papel dos prémios de qualidade na educação do consumidor?
O consumo sustentável é inevitável. Vivemos numa sociedade de excesso e precisamos mudar hábitos. Os prémios devem ser referências fiáveis e pedagógicas, ajudando os consumidores a adotar práticas sustentáveis com prazer. A mudança deve ser desejável, não imposta. A partir de 24 de julho, a Terra vive “a crédito” — consumimos mais recursos do que os que o planeta gera num ano.
Qual a mensagem que gostaria de deixar aos consumidores portugueses sobre escolhas de produtos e consumo responsável?
Os consumidores não devem opor prazer e responsabilidade, porque ambos devem coexistir. Cada escolha conta. Ao privilegiar produtos de qualidade e sustentáveis, contribuem para um futuro melhor. É um poder enorme.
Respostas rápidas:
Maior risco: Não perceber que o mundo está a mudar… e ficar parado.
Maior erro: Achar que o sucesso se constrói sozinho.
Maior lição: A confiança constrói-se com tempo, rigor e sinceridade. Maior conquista: Dar voz aos consumidores e sentido ao consumo.








