Entrevista/ “Os fundadores de start-ups crescem mais depressa juntos”
“Portugal distingue-se por uma cultura de start-ups muito colaborativa. Os fundadores são abertos, internacionais e curiosos, o que reforça a minha convicção de que ecossistemas sólidos são fundamentais”, afirma Stewart Noakes, cofundador da Canopy Community, um dos hubs portugueses destacados no ranking do Financial Times.
A Canopy Community, cofundada por Stewart Noakes, destaca-se como um dos hubs de start-ups mais influentes da Europa, tendo sido recentemente reconhecida no ranking Europe’s Leading Start-up Hubs 2026, do Financial Times. Entre os 180 hubs de 25 países analisados pelo Financial Times, a Canopy Community surge na 99.ª posição, reforçando o papel do ecossistema português no apoio a fundadores e start-ups inovadoras.
Atualmente, esta comunidade, com presença global, apoia mais de 800 fundadores através de mentoring, aprendizagem entre pares e oportunidades de investimento early-stage, ajudando-os a transformar ideias em negócios sólidos e escaláveis.
Por trás deste ecossistema está Stewart Noakes, cuja carreira ligada ao investimento nos EUA mostrou-lhe o poder das comunidades de fundadores para acelerar o crescimento e gerar impacto real. Ao mudar-se para Lisboa, Stewart encontrou “fundadores talentosos que precisavam de apoio entre pares e preparação para angariar investimento”. Foi a partir desta visão que nasceu a Canopy Community. Trata-se de um ecossistema que combina mentoring, networking e programas de desenvolvimento, colocando os fundadores no centro da experiência.
“A maior lição que aprendi é que os fundadores de start-ups crescem mais depressa juntos. O apoio entre pares, o feedback honesto e a validação são mais importantes do que ideias perfeitas”, explica Noakes, resumindo a filosofia da Canopy Community.
Com planos de expansão internacional e lançamento do primeiro fundo no Reino Unido ainda este ano, a missão da comunidade é clara: reduzir barreiras, fortalecer ecossistemas liderados por fundadores e usar o empreendedorismo como ferramenta de mobilidade social, revela.
Pode partilhar o seu percurso desde a carreira ligada ao investimento nos EUA até à criação da Canopy em Lisboa? Quais foram os maiores desafios nesta transição?
A minha experiência nos EUA mostrou-me o quão poderosas podem ser as comunidades de fundadores. Boston é um lugar incrível, cheio de talento de classe mundial. Quando se juntam pessoas de forma significativa, acontece algo muito especial. Quando me mudei para Lisboa, encontrei fundadores talentosos que precisavam de apoio entre pares e preparação para angariar investimento. O maior desafio foi construir confiança e uma rede de contatos do zero entre diferentes países.
“Focamo-nos em ajudar os fundadores a testar rapidamente o seu negócio, a falar com clientes e a estarem preparados para investimento desde cedo”.
Apoia fundadores a nível global. Que lições trouxe para Portugal que considera mais valiosas para as start-ups em fase inicial?
A maior lição que aprendi é que os fundadores de start-ups crescem mais depressa juntos. O apoio entre pares, o feedback honesto e a validação são mais importantes do que ideias perfeitas. Focamo-nos em ajudar os fundadores a testar rapidamente o seu negócio, a falar com clientes e a estar preparados para o investimento desde cedo.
De que forma viver e trabalhar em Portugal influenciou a sua abordagem ao mentoring e ao investimento em start-ups?
Portugal distingue-se por uma cultura de start-ups muito colaborativa. Os fundadores são abertos, internacionais e curiosos, o que reforça a minha convicção de que ecossistemas sólidos são fundamentais. Quando os fundadores se sentem apoiados pela comunidade, pelos mentores e pelos investidores, assumem melhor os riscos e constroem empresas mais sólidas.
“É essencial ter pessoas que ajudem a pensar com clareza nos momentos difíceis”.
Quais são os principais critérios que um fundador deve considerar ao escolher as pessoas certas para estarem ao seu lado?
A primeira é confiança e alinhamento. Um bom membro deve acreditar na missão e desafiar o fundador de forma construtiva. As competências são importantes, mas a mentalidade é ainda mais. É essencial ter pessoas que ajudem a pensar com clareza nos momentos difíceis.
Da sua experiência, o que distingue um conselho de uma start-up que realmente acrescenta valor de um que é apenas formal ou simbólico?
Um conselho valioso é ativo, curioso e honesto. Os seus membros fazem perguntas difíceis, partilham redes de contatos e ajudam o fundador a pensar estrategicamente. Um conselho simbólico limita-se a participar em reuniões. Um conselho verdadeiro apoia o fundador, mas também o responsabiliza.
Quais os comuns que os fundadores cometem ao criar os seus conselhos e como evitá-los?
Um erro comum é escolher nomes conhecidos em vez de pessoas úteis. Os fundadores devem criar conselhos pequenos, com pessoas que tragam experiência, redes e aconselhamento prático. Começar de forma simples, reunir regularmente e encarar o conselho como um parceiro de reflexão.
E quais são os erros mais comuns que cometem ao levantar capital ?
Muitos fundadores levantam capital demasiado cedo ou sem validação clara. Os investidores querem ver clientes, tração e aprendizagem. A melhor abordagem é demonstrar que existe uma necessidade real pelo produto. O investimento segue o progresso e o momento.
Existem estratégias eficazes para a angariação de investimento em fases iniciais?
Estabelecer contatos de confiança e envolver-se em comunidades relevantes é essencial. Os investidores investem em fundadores nos quais confiam. Construir relações cedo, partilhar o seu progresso, as suas vitórias e aconselhar-se antes de pedir investimento resulta em conversas mais sólidas mais tarde.
” Os investidores querem progresso mensurável. Uma comunicação aberta e a entrega regular de pequenas conquistas ajudam a gerar confiança (…)”.
Como devem os fundadores equilibrar a visão de longo prazo com as expectativas de curto prazo dos investidores?
Devem manter uma visão forte de longo prazo, mas mostrar marcos claros. Os investidores querem progresso mensurável. Uma comunicação aberta e a entrega regular de pequenas conquistas ajudam a gerar confiança, sem comprometer a missão maior. Os investidores valorizam fundadores que comunicam de forma aberta e tratam-nos como parceiros de longo prazo.
É importante pensar na sucessão desde uma fase inicial?
As start-ups crescem rapidamente e as necessidades de liderança mudam. Pensar na sucessão desde cedo ajuda a construir organizações mais fortes e dá confiança aos investidores de que a empresa não depende apenas de uma pessoa.
Quais as principais diferenças entre preparar a sucessão numa start-up e numa scale-up?
Nas start-ups, o foco está na flexibilidade. Os papéis mudam frequentemente e os fundadores acumulam funções. Nas scale-ups, a sucessão torna-se mais estruturada, com camadas de liderança e governação definidas. O importante é planear antes de ser urgente.
“Os fundadores bem-sucedidos criam equipas capazes de liderar sem eles. As falhas acontecem quando tudo depende de uma única pessoa”.
Pode partilhar exemplos de sucesso ou falhas na sucessão?
Os fundadores bem-sucedidos criam equipas capazes de liderar sem eles. As falhas acontecem quando tudo depende de uma única pessoa. A lição é clara: capacitar líderes desde cedo e criar sistemas que permitam à empresa funcionar de forma autónoma.
Tem uma filosofia de proximidade com os fundadores. Como equilibra mentoring e autonomia?
O meu papel é fazer perguntas, não dar ordens. Os fundadores devem tomar as suas próprias decisões. Um bom mentoring cria espaço para pensar, oferecendo experiência quando necessário.
Que qualidades valoriza mais nos fundadores?
Curiosidade, resiliência e honestidade. Os melhores fundadores sabem ouvir, aprendem rapidamente e mantêm a calma na incerteza. Também são generosos com a comunidade e apoiam outros fundadores.
“Já contamos com mais de 800 fundadores e vamos lançar o nosso primeiro fundo no Reino Unido este ano”.
Em que projetos está atualmente envolvido e que mais o entusiasmam?
A Canopy Community é o projeto mais entusiasmante. Apoiamos fundadores globalmente através de mentoring, demo nights (encontros com a comunidade) e aprendizagem entre pares. Já contamos com mais de 800 fundadores e vamos lançar o nosso primeiro fundo no Reino Unido este ano.
Que projetos tem para o futuro e o que o motiva?
Estamos a expandir a comunidade global e a criar mais oportunidades de investimento early-stage. O objetivo é reduzir barreiras e facilitar o acesso a apoio, mentoring e capital. A nossa missão centra-se em usar o empreendedorismo como ferramenta de mobilidade social.
A Canopy foi reconhecida pelo Financial Times. O que significa esta distinção?
Este reconhecimento valida o trabalho da nossa comunidade. Mostra que ecossistemas liderados por fundadores fazem a diferença. Queremos continuar a crescer e usar este reconhecimento como referência para evoluir.
“Construam algo que as pessoas realmente precisem. Falem com clientes desde cedo. A empatia com o problema é essencial para alcançar product-market fit rapidamente”.
Se pudesse dar um conselho a empreendedores, qual seria?
Construam algo que as pessoas realmente precisem. Falem com clientes desde cedo. A empatia com o problema é essencial para alcançar product-market fit rapidamente.
Criar redes globais desde cedo é importante. Comunidades, mentores e outros fundadores ajudam a aprender mais rápido. Reflexão constante, contacto com clientes e apoio estratégico são fundamentais — e exigem consistência e dedicação contínua.








