Entrevista/ “Ao integrar o Grupo Rekeep, passamos a beneficiar de um posicionamento internacional”
“O Grupo Rekeep tem vindo a crescer em mercados estrangeiros estratégicos através de parcerias com empresas locais sólidas, casos do mercado francês, polaco, turco e no Médio Oriente, e Portugal enquadra-se plenamente nesta visão globalizada”, afirma Ricardo Gonçalves Cerqueira, CEO da Rekeep Portugal, sobre a entrada do grupo italiano no mercado português.
A Rekeep, grupo italiano de referência em integrated facility management, acaba de entrar no mercado português com a aquisição de 60% da Euromex Facility Services, empresa do Porto especializada em serviços de higienização e limpeza para unidades de saúde. Com esta operação, a Euromex passa a adotar a denominação social Rekeep Portugal, mantendo Ricardo Gonçalves Cerqueira como CEO e acionista, enquanto Federico Gandino, diretor-geral da Rekeep World, assume a presidência do Conselho de Administração.
Fundada em 1991, a Euromex emprega cerca de 3.000 pessoas e faturou 30 milhões de euros em 2025, principalmente em contratos públicos.
Para o grupo Rekeep, a entrada em Portugal não é apenas uma expansão geográfica. Trata-se de consolidar a sua presença internacional através de um parceiro com experiência local, know-how operacional e reputação consolidada no setor da saúde, revela Ricardo Gonçalves Cerqueira, que explica a visão estratégica da empresa para Portugal, os desafios do mercado de serviços integrados e o papel crítico desta atividade para hospitais, empresas e para a economia nacional.
A Rekeep escolheu Portugal para dar continuidade à sua estratégia de expansão internacional. O que pesou nesta decisão e que fatores tornaram a Euromex o parceiro certo?
A entrada da Rekeep em Portugal enquadra-se na estratégia de expansão internacional do Grupo, através de parcerias com empresas locais sólidas, com forte implantação territorial e equipas de gestão reconhecidas. Identificamos Portugal como um mercado estratégico, particularmente interessante, sobretudo no setor da saúde, por ser uma área muito relevante no âmbito do Grupo Rekeep.
A Euromex apresentava um alinhamento claro com o plano de expansão da Rekeep. Conta com mais de 30 anos de história, uma posição consolidada na área dos facility management em Portugal e forte especialização em serviços de higienização e limpeza no setor da saúde, além de que mantém relações de longo prazo com algumas das principais unidades de saúde do país. Emprega cerca de 3.000 colaboradores e apresenta uma estrutura operacional robusta, com know-how consolidado, tanto no setor público como no privado. Para a Rekeep, entrar num novo mercado através de um parceiro com profundo conhecimento local, experiência comprovada e uma equipa de gestão reconhecida permite combinar enraizamento nacional com a expertise internacional do Grupo.
“Esta operação é um passo estratégico no reforço da presença internacional da Rekeep e na consolidação do seu posicionamento enquanto player europeu de relevo”.
Que visão estratégica sustenta esta operação e que papel Portugal passa a ter no mapa internacional da Rekeep?
Esta operação é um passo estratégico no reforço da presença internacional da Rekeep e na consolidação do seu posicionamento enquanto player europeu de relevo. O Grupo Rekeep tem vindo a crescer em mercados estrangeiros estratégicos através de parcerias com empresas locais sólidas, casos do mercado francês, polaco, turco e no Médio Oriente, e Portugal enquadra-se plenamente nesta visão globalizada. Apresenta um mercado estável, ainda que fortemente concorrencial, elevados padrões de exigência no setor hospitalar, onde a nossa experiência técnica e tecnológica pode ser diferenciadora e gerar valor acrescentado para a instituição de saúde.
Portugal é um mercado com forte peso dos contratos públicos, nomeadamente na área da saúde. Como avalia o potencial e os desafios deste contexto para um grupo como a Rekeep?
Para um grupo como a Rekeep, que tem uma longa experiência de gestão de clientes do setor público na área hospitalar, tanto em Itália e no contexto europeu, mas também no Médio Oriente, este é uma realidade com elevado potencial e interesse. A Rekeep gere atualmente cerca de 750 unidades de saúde: 500 hospitais em Itália e aproximadamente 250 nos restantes países onde mantemos operação, nomeadamente em França e na Polónia. O setor da saúde exige padrões muito rigorosos de planeamento, organização, controlo e conformidade, e é precisamente nesse contexto de extrema exigência que o modelo Rekeep de integrated facility management demonstra resultados de maior valor acrescentado.
“A escala e a trajetória de crescimento sustentado da Euromex representam um ativo estratégico muito relevante para o Grupo Rekeep”.
Que valor acrescenta ao grupo Rekeep a trajetória e experiência da Euromex?
A escala e a trajetória de crescimento sustentado da Euromex representam um ativo estratégico muito relevante para o Grupo Rekeep. O percurso de mais de 30 anos da Euromex traduz-se num conhecimento aprofundado do contexto regulatório e operacional português, experiência consolidada na gestão de contratos públicos relevantes e uma estrutura organizacional perfeitamente preparada para responder às diversas dimensões e exigências que os clientes colocam nesta área de negócio. Para a Rekeep, significa integrar no Grupo uma operação sólida, equipas experientes e processos testados e com resultados no terreno, acelerando a criação de valor. Julgo que “é um casamento feliz” entre as duas instituições.
Atualmente, cerca de 80% da faturação provém de entidades públicas e 20% do setor da saúde. Esta distribuição reflete uma aposta estratégica que pretendem manter ou há espaço para diversificar o portefólio de clientes e áreas de atuação em Portugal?
A atual distribuição da faturação reflete o percurso e a especialização da empresa, assente no setor público de contratação, em particular, na área da saúde, e cuja aposta será reforçada. Dito isto, a chegada da Rekeep a Portugal abre naturalmente espaço para uma evolução do portefólio de serviços a prestar aos nossos atuais e futuros clientes, em linha, aliás, com o que já acontece noutros mercados onde a Rekeep marca presença.
O Grupo atua na área dos integrated facility services, de forma abrangente, disponibilizando serviços a grandes grupos privados, entidades públicas, que vão desde a higienização, à manutenção técnica ou hard facilities, energia, fornecimento de refeições ou serviços especializados direcionados a unidades hospitalares, como a desinfeção e a esterilização. Em Portugal, pretendemos consolidar a posição no setor, mas estamos naturalmente a avaliar oportunidades de diversificação em outras áreas e segmentos de negócio onde, estou certo, o nosso know-how poderá fazer a diferença. É uma avaliação que temos estado a fazer, de forma ponderada e alinhada com a realidade do mercado português.
“Estamos a avançar para uma organização financeiramente robusta, tecnologicamente mais preparada e com uma ambição e princípios de gestão internacionais”.
A Rekeep tem sublinhado a importância de trabalhar em estreita colaboração com a gestão local. Como está a ser conduzido o processo de integração entre a cultura da Euromex e a cultura organizacional da Rekeep?
Desde o primeiro momento, a integração foi pensada enquanto processo de continuidade suave. Não vemos a entrada em novos mercados como um momento de rutura ou de disrupção. No caso da Rekeep Portugal, essa continuidade é evidente, uma vez que a equipa de gestão se mantém. Há proximidade diária entre a gestão local e internacional ao nível do Conselho de Administração onde ambos partilhamos responsabilidades.
O nosso interesse é exatamente combinar o enraizamento local, a proximidade aos clientes e a experiência operacional dos quadros oriundos da Euromex com a visão global e integrada da Rekeep. O objetivo nunca foi substituir uma cultura organizacional por outra, mas integrar e conciliar os pontos fortes de ambas. Estamos a avançar para uma organização financeiramente robusta, tecnologicamente mais preparada e com uma ambição e princípios de gestão internacionais. Julgo que estamos no caminho certo.
Este movimento coincide com um processo de rebranding, com a Euromex a passar a denominar-se Rekeep Portugal. O que muda, na prática, para clientes, parceiros e colaboradores?
Para os nossos clientes, parceiros e colaboradores, a base mantém-se, as equipas de gestão e enquadramento sofrerão ligeiríssimos ajustamentos, a estrutura operacional continua ativa, o compromisso com a fiabilidade e o rigor dos serviços mantém-se inalterado.
O que muda, fundamentalmente, é o facto de ora em diante estarmos integrados numa operação multinacional e contarmos com uma oferta multisserviços. Ao integrar o Grupo Rekeep, passamos a beneficiar de um posicionamento internacional, com maior capacidade de investimento e know-how diversificado.
A Rekeep opera num setor essencial, mas muitas vezes invisível para a sociedade. Como se comunica valor num negócio que só tende a ser notado quando algo falha?
O facility management é, por natureza, uma atividade de discrição, de bastidores. O nosso negócio permite que o negócio e a atividade core dos nossos clientes decorra num ambiente seguro, certificado e cómodo para os seus colaboradores. Dou o exemplo da operação em contexto hospitalar: os serviços por nós assegurados, têm um impacto direto na prevenção de infeções, na segurança e comodidade de profissionais médicos e não médicos e na continuidade da atividade clínica, sem sobressaltos no que às questões da higienização e limpeza de manutenção diária dizem respeito.
O trabalho que desenvolvemos é por vezes pouco sublinhado, mas sem a presença diária das nossas equipas, provavelmente os hospitais não reuniriam condições mínimas para, sequer, abrir portas.
Que diferenciação pretendem afirmar no mercado português face a outros operadores?
A diferenciação assenta na combinação entre escala internacional, especialização e mais de 80 anos de operação no setor de facility management. No mercado português, pretendemos reafirmar esta diferenciação através de três eixos fundamentais: a experiência consolidada em ambientes de elevada exigência e especialização técnica; a capacidade e o know-how para assegurar uma oferta integrada de serviços, que vão da higienização, à manutenção técnica de edifícios, ao fornecimento de refeições, lavandaria, etc.; e a aplicação de metodologias de planeamento e de controlo, desenvolvidas e testadas ao longo de oito décadas, que atestam a previsibilidade, a transparência e o desempenho operacional das nossas equipas.
“Esta é uma área que só é notícia quando é detetada uma falha ou uma disrupção na operação. Estando a operação a decorrer sem anomalias, a sua importância tende a passar despercebida”.
Serviços como limpeza hospitalar, gestão de instalações ou manutenção de infraestruturas são críticos para o funcionamento do Estado e do sistema de saúde. Porque continua este setor a ser, muitas vezes, subvalorizado?
Esta é uma área que só é notícia quando é detetada uma falha ou uma disrupção na operação. Estando a operação a decorrer sem anomalias, a sua importância tende a passar despercebida.
Existe também a perceção generalizada que associa os serviços integrados apenas à componente operacional, quando, na realidade, estamos a tratar de processos altamente organizados, de gestão de milhares de recursos humanos e de meios técnicos robotizados, com impacto direto na segurança e eficiência de muitos milhares de infraestruturas nacionais. O setor só será verdadeiramente valorizado quando se compreender que não estamos a tratar de um custo acessório mas de um investimento em segurança, bem-estar e salubridade da comunidade.
Que impacto real tem esta atividade na economia nacional, não só ao nível do emprego, mas também da eficiência dos serviços públicos e da qualidade dos cuidados de saúde?
O impacto é muito significativo, desde logo ao nível do emprego. Estamos a falar de um setor que emprega cerca de 100 mil trabalhadores, que com a sua atividade diária asseguram o funcionamento de infraestruturas críticas de norte a sul do país. Falamos de uma atividade que apoia silenciosamente o funcionamento de milhares de organizações e empresas e que contribui para ambientes de trabalho verdadeiramente seguros.
Quais são as prioridades estratégicas da Rekeep Portugal para os próximos três a cinco anos?
Um eixo importante da entrada no mercado português prende-se com o crescimento da organização e diversificação dos serviços. Estamos a avaliar oportunidades de crescimento sustentável à luz da conjuntura atual do mercado português.
Podemos esperar novos investimentos, reforço da presença no setor da saúde ou mesmo aquisições que permitam à Rekeep alargar a sua atuação a outras áreas do facility management em Portugal?
Portugal é um mercado com potencial e naturalmente pretendemos continuar a investir no seu desenvolvimento. A prioridade imediata passa por consolidar a integração, reforçar e alargar a presença em setores chave da economia portuguesa.
Qualquer movimentação futura será sempre orientada por uma visão de crescimento sustentável e de criação de valor, para a empresa e para os seus colaboradores, com a garantia de que entregaremos soluções técnicas que representem mais valias para a atividade dos nossos clientes.








