Opinião

Crescimento económico sem grandes empresas

David Pereira de Castro, sócio-fundador da consultora Phibon

Porque a escala empresarial continua a ser o grande tabu do debate económico nacional. Este é o primeiro de cinco artigos que serão publicados ao longo deste ano, com cadência regular e encadeamento lógico assumido. A proposta é deliberada. Contribuir para o debate sobre o crescimento económico português de forma estruturada, comparativa e sequencial, a partir de uma lente pouco utilizada.

Cada texto parte do anterior e prepara o seguinte, procurando um debate mais informado, menos impulsivo e mais alinhado com a realidade europeia e global. Não para encerrar discussões, mas para as tornar mais úteis.

Portugal discute crescimento económico com frequência, mas quase sempre a partir dos mesmos pontos de partida. Fala-se de empreendedorismo, start-ups, incentivos, talento e inovação. Todos estes temas são relevantes e fazem parte da equação. O que raramente entra na conversa, de forma direta e consequente, é o papel das grandes empresas na estrutura da economia e no tipo de crescimento que o país consegue gerar.

Este silêncio não é neutro. Nas economias desenvolvidas, as grandes empresas desempenham funções que vão muito além da sua dimensão nominal. São âncoras de produtividade, organizam cadeias de valor, concentram investimento em capital e tecnologia e criam condições para salários mais elevados de forma sustentada. Quando este tipo de estrutura tem um peso reduzido, os efeitos fazem-se sentir em toda a economia, da produtividade aos rendimentos, passando pela capacidade de competir em mercados mais exigentes.

Os dados ajudam a enquadrar o problema. Em Portugal, o peso relativo das médias e grandes empresas no emprego e no valor acrescentado é inferior ao observado em economias europeias comparáveis. Em paralelo, a produtividade por hora trabalhada mantém-se persistentemente abaixo da média da União Europeia. Esta relação não é um detalhe estatístico. Ajuda a explicar porque os salários crescem pouco e porque o debate sobre rendimentos tende a desligar-se da discussão sobre a estrutura produtiva. O problema não reside na produtividade do capital humano, mas na produtividade do capital fixo e nos setores onde esse capital é aplicado.

Há ainda uma característica estrutural que merece atenção. Uma parte significativa do crescimento económico recente assenta no consumo financiado por crédito e no investimento direto estrangeiro, mais do que na consolidação e expansão sustentada das empresas nacionais, em particular das médias e grandes. Isto não diminui a importância do investimento externo, mas levanta uma questão central: que tipo de capacidade produtiva estamos a construir internamente e quem controla, de forma efetiva, os centros de decisão associados a essa capacidade.

Capacidade produtiva essa que não se mede apenas pelo número de empresas ou pelo volume agregado de investimento. Depende da dimensão média das organizações, da intensidade de capital, da incorporação tecnológica, da capacidade de financiar investimento de longo prazo e da integração em cadeias e redes de valor mais complexas. Quando estas dimensões são frágeis, o crescimento tende a ser mais volátil, menos gerador de produtividade e com impacto limitado nos salários.

Portugal apresenta aqui uma fragilidade estrutural clara. O peso das grandes empresas no emprego é inferior ao observado em economias comparáveis da OCDE, sugerindo um potencial retido de produtividade e capacidade produtiva interna. A fraca produtividade não é um fenómeno conjuntural, mas um padrão estrutural ligado à reduzida dimensão média das empresas e à dificuldade em gerar valor acrescentado intensivo em capital e tecnologia de forma continuada.

Mesmo quando observamos os maiores grupos económicos nacionais, o contraste torna-se evidente. Apesar da sua relevância interna, operam frequentemente a uma escala inferior à dos seus congéneres europeus, em mercados menos extensos e com menor capacidade de capitalização. Em muitos casos, a estrutura legal e societária reflete um posicionamento avesso ao risco e uma presença limitada em mercados de grande dimensão e elevada competitividade, com impactos diretos na capacidade exportadora e na consolidação de cadeias de valor.

Isto ajuda a explicar porque a existência de algumas grandes empresas não altera, por si só, a estrutura agregada da economia em termos de emprego industrial, produtividade ou salários. O problema não é apenas o número, mas a escala relativa, a capacidade de investimento intensivo e o papel efetivo na organização do tecido produtivo.

É neste ponto que importa clarificar a relação com o debate sobre startups e PME. As start-ups e as PME são essenciais. Renovam o tecido empresarial, promovem inovação e facilitam a transferência de conhecimento da academia para o mercado. O seu contributo está ligado à experimentação e à substituição do tecido produtivo. O debate sobre grandes empresas é diferente, mas complementar. Envolve escala, capital, absorção de inovação, integração em cadeias globais e sustentação de investimento de longo prazo.

Confundir estes planos empobrece a análise. Discutir crescimento económico focando apenas a criação de novas empresas, sem discutir a estrutura e as capacidades das grandes organizações, é olhar apenas para uma parte do problema. Se quisermos compreender porque Portugal enfrenta desafios persistentes em produtividade e salários, é inevitável analisar de forma comparativa o papel que as grandes empresas desempenham, ou não desempenham, na economia nacional.

Este é o ponto de partida, mas mais que análises, precisamos de soluções. Ao longo do ano a discussão avançará para o financiamento e os mercados de capitais, para as estruturas de controlo económico e, por fim, para as escolhas estratégicas e de política pública que moldam estes resultados. Porque o crescimento não é um acidente. É, em grande medida, o reflexo das estruturas que escolhemos construir.


David Pereira de Castro é investigador na Copenhagen Business School, sócio-fundador da consultora Phibon e presidente do Conselho de Administração da SPOT Nordic. O seu trabalho centra-se em economia política internacional, governação corporativa, finanças sustentáveis e ecossistemas de inovação, com particular enfoque na forma como as empresas multinacionais se estruturam e organizam juridicamente, bem como no papel da diplomacia científica na transformação das economias europeias.

Paralelamente à sua investigação académica sobre greenwashing, transparência financeira e estratégias de controlo em empresas multinacionais, tem estado envolvido em projetos de avaliação estratégica de tecnologias de defesa baseadas em IA, desenvolvimento de ecossistemas de inovação à escala europeia e mapeamentos globais de inteligência artificial e robótica aplicadas ao turismo e ao desenvolvimento regional. Trabalhou anteriormente com a administração pública e em consultoria estratégica, incluindo no Ministério da Economia, onde contribuiu para iniciativas de transformação digital e implementação de políticas públicas.

Na Copenhagen Business School, leciona Economia Política Comparada, Economia Política Internacional Aplicada e Governação da Transição Verde, e orienta teses de licenciatura e de mestrado nas áreas de finanças sustentáveis, regulação e estratégias corporativas de empresas multinacionais. No âmbito das suas funções como presidente da SPOT Nordic e enquanto Jovem Conselheiro da Diáspora Portuguesa no Mundo, adquiriu experiência sólida em diplomacia científica, promovendo a articulação entre a academia, as empresas e os decisores públicos no contexto internacional. Participa regularmente no debate público sobre política económica, inovação e transição verde, com publicações em meios como a Review of International Political Economy, a Bloomberg, o Politiken e o Observador.

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