Opinião
“Liderar como ato de Justiça Social, agregar e mudar sistemas”
Liderar não significa apenas gerir pessoas ou coordenar projetos – significa agir para corrigir desigualdades históricas, abrir caminhos e transformar sistemas. Em essência, liderar é um ato de Justiça Social.
Cada decisão tomada, cada oportunidade criada e cada barreira removida molda não apenas a forma como vivemos hoje, mas também a sociedade que estamos a construir para o amanhã.
No entanto, esta visão de liderança transformadora continua a deparar-se com desigualdades profundas e estruturais. A desigualdade de género na liderança é uma realidade persistente e inegável, que demonstra que nem todas as oportunidades estão igualmente acessíveis. O Dia da Mulher, celebrado hoje, torna-se, por isso, um momento particularmente relevante para refletirmos sobre este desafio e reafirmarmos um compromisso com a mudança concreta, consistente e duradoura.
Dados recentes mostram que, embora as mulheres constituam uma parte significativa da população ativa, a sua presença em cargos de gestão e liderança continua a ser limitada. Muitas vezes socializadas para “cuidar” e “apoiar” em vez de liderar, enfrentam barreiras culturais e estruturais que dificultam o acesso a posições de topo, reflexo de sistemas que historicamente distribuíram oportunidades de forma desigual. Em Portugal, apenas cerca de 30% dos cargos de topo são ocupados por mulheres, segundo o estudo “Presença feminina nas empresas em Portugal”, da Informa, enquanto a análise “Novos Líderes para Novos Tempos”, da Claire Joster People First, revela que apenas 17% dos inquiridos percecionam a existência de paridade de género nos cargos de decisão.
Mais do que uma questão de liderança, esta desigualdade é estrutural. A disparidade salarial é um exemplo concreto disso: as mulheres recebem, em média, 14% menos do que os homens, segundo a Comissão para a Igualdade entre Mulheres e Homens da CGTP – um reflexo claro e inegável da desigualdade sistémica.
Acredito que mais do que olharmos para estatísticas importa percebermos que a igualdade de género não é um ideal distante ou abstrato – é uma responsabilidade diária, que começa nas nossas casas, nas escolhas que fazemos e nos valores que transmitimos. É nesse contexto que se constroem as bases que, mais tarde, se refletem nas organizações, nas comunidades e nas decisões que moldam a sociedade.
É precisamente aqui que a liderança assume uma dimensão verdadeiramente transformadora. Quando líderes escolhem a inclusão e a diversidade, estão a construir sistemas mais justos. Estes princípios são motores reais de mudança. Liderar como ato de Justiça Social exige coragem para questionar normas enraizadas, visibilidade para criar referências e consistência para garantir que as oportunidades permanecem uma realidade para todos. Não basta promover iniciativas pontuais, é necessário transformar o sistema de modo a que as escolhas sejam acessíveis e equitativas, permitindo que cada pessoa construa o seu percurso sem limitações impostas pelo passado ou pelo género.
A mudança verdadeira acontece quando lideramos para incluir e quando usamos a nossa influência para transformar estruturas. É assim que se constrói uma sociedade mais justa, é assim que a liderança deixa de ser apenas um cargo ou um título e se torna um instrumento de transformação social capaz de abrir portas, destruir barreiras e inspirar gerações.
Só assim podemos construir, em conjunto, um futuro em que o Dia da Mulher deixe de ser uma reivindicação necessária e passe a ser a celebração de um objetivo plenamente alcançado.








