Opinião
Preparar Portugal para os desafios do mercado global
Vivemos num contexto altamente desafiante, em que a aversão à mudança se confronta com a necessária adaptação tecnológica exigida pelo mercado. É preciso dar resposta a esta nova realidade, sobretudo em dois eixos-chave.
A mão-de-obra em Portugal, altamente valorizada no exterior, pode ser simplificada em dois perfis distintos: por um lado, uma força de trabalho jovem e altamente qualificada, que privilegia o work-life balance e modelos de trabalho mais flexíveis; por outro, quadros mais experientes, com elevado capital de conhecimento técnico e organizacional, mas frequentemente mais resistentes à mudança.
O “confronto” entre estes dois modos de estar e trabalhar pode gerar desafios significativos nas mais diversas organizações, destacando-se um tema transversal: o change management, em que os modelos tradicionais de trabalho se revelam inflexíveis perante a evidente e necessária evolução tecnológica do sector industrial em Portugal.
Modificar métodos de trabalho não significa apenas introduzir tecnologia. Implica, sobretudo, uma atenção cuidada à cultura das equipas, departamentos e organizações, bem como uma valorização do legado e da experiência acumulada, de forma a garantir que os quadros mais experientes mantenham um forte sentimento de ownership durante este processo de transformação.
Internamente, este constitui um dos desafios mais complexos a resolver no curto e médio prazo. Contudo, surgem igualmente desafios, e oportunidades, de natureza exógena às próprias empresas.
A disrupção das rotas comerciais tradicionais, impactadas por novas tarifas, instabilidade geopolítica ou pela dificuldade de adaptação ao novo contexto económico-financeiro global, representa um dos principais reptos para as empresas portuguesas. Ultrapassadas por economias com regimes laborais mais flexíveis ou fortemente subsidiadas, como a China e vários países do Sudeste Asiático, a renovação do tecido empresarial e da capacidade produtiva nacional torna-se imperativa.
Neste contexto, os desafios podem transformar-se em oportunidades estratégicas, nomeadamente através da abertura a novos mercados. Os acordos entre a União Europeia e o Mercosul, bem como entre a União Europeia e a Índia, evidenciam este potencial, cabendo tanto ao Estado como à iniciativa privada capitalizar o caminho já traçado pela UE, identificar parceiros de confiança e reforçar a presença em mercados historicamente próximos de Portugal.
A Península Arábica tem igualmente vindo a destacar-se pela sua capacidade de atrair e integrar know-how internacional, em particular no domínio da engenharia, impulsionando projetos altamente inovadores. Neste enquadramento, assume especial relevância o papel da Câmara do Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa, enquanto agente facilitador das relações entre Estados e empresas.
É neste panorama que temos trabalhado. Como parceiro estratégico de organizações com forte presença internacional, beneficiando de um benchmark que abrange desde o apoio à extensão de centrais nucleares até ao desenvolvimento de projetos de elevada complexidade tecnológica, como aeronaves militares.
A crescente abertura das empresas à colaboração com entidades externas traduz uma mudança estrutural no modelo organizacional, baseada na convicção de que a capacidade de resposta, sobretudo em picos de atividade, pode residir também fora dos quadros internos, promovendo relações simbióticas, flexíveis e ajustadas às exigências do mercado global.








