Opinião
Uma estratégia económica para Portugal num mundo novo
Portugal não tem falta de medidas, mas sim falta de uma ideia do que quer ser. As várias iniciativas que têm vindo a ser lançadas, incluindo diversos programas de capitalização, incentivos à inovação, apoios à internacionalização e sucessivos quadros comunitários, são defensáveis, uma a uma, mas respondem a diagnósticos diferentes e raramente se somam. Uma economia pode ter muitos instrumentos, mas nenhuma estratégia.
Os artigos anteriores desta série descreveram o mesmo fenómeno por ângulos distintos: falta escala para competir onde a margem se acumula, falta um mercado de capitais que a financie, o poder económico está nas estruturas de propriedade, e o Estado desenha os mercados através das regras que escolhe. Resta saber o que fazer com esse diagnóstico.
O ponto de partida é reconhecer o que Portugal não pode ser. Portugal não pode competir por volume nem por custo, nem crescer por consumo a crédito, nem depender de investimento estrangeiro que produz cá mas decide, patenteia e retém a margem noutro sítio. A partir daqui, a estratégia assenta em quatro decisões que só funcionam em conjunto.
A primeira é a escala: empresas de média dimensão capazes de adquirir, consolidar e internacionalizar, e uma política de concorrência que não penalize a consolidação onde a subescala é estrutural. A segunda é o capital: aprofundar a Euronext Lisbon, alargar o capital paciente, mobilizar fundos de pensões e reorientar um crédito ainda ancorado em colateral imobiliário. Enquanto o sistema financeiro souber avaliar um edifício e não uma patente, o país financiará o que já tem e não o que precisa de ter. A terceira é o centro de decisão: cada medida deve ser avaliada pelo que faz à conceção, à propriedade intelectual e à margem que ficam em Portugal, com preferência pelo investimento estrangeiro que ancora mandatos globais. A quarta é o sistema: regras de fiscalidade coerentes com o crescimento, regulação previsível e contratação pública que não cristalize posições incumbentes.
Falta a pergunta incómoda: onde apostar. A objeção de que o Estado não sabe escolher vencedores é válida, mas Portugal já escolhe setores todos os dias, por omissão, através da fiscalidade, dos incentivos e da contratação pública. Fazê-lo com critério permite avaliar e corrigir. Saúde e ciências da vida, defesa e aeroespacial, tecnologias da água e da produção vegetal, energia limpa, materiais avançados e tecnologias digitais com propriedade intelectual nacional são um ponto de partida, não uma lista fechada.
O rumo cabe em quatro deslocamentos: da margem por execução para a margem por conceção, da escala doméstica para uma escala internacional defensável, do crédito colateralizado para o capital paciente para intangíveis, e da boa reputação para uma marca que consegue cobrar por ela.
Nada disto exige um Estado maior. Exige um Estado mais preciso, que crie enquadramento, garanta contestabilidade, invista em dados, certificações e normas e não substitua a iniciativa privada por meio de subsídios. A ausência de estratégia também é uma estratégia, apenas não escolhida, e produz uma economia que cresce sem se aprofundar e exporta sem reter.
Países como Portugal não competem em volume. Competem por escolher poucas coisas explicitamente e por serem coerentes por tempo suficiente para que a escolha produza efeito. A alternativa não é o caos. É o que já temos.








