Entrevista/ “Ter criado e escalado uma empresa totalmente remota em quatro continentes é a nossa maior conquista”
“A cultura entre a Irlanda e Portugal está muito alinhada, assim como o facto de ambos os países terem licenciados e profissionais bem formados e simpáticos. Isto é essencial para uma boa relação com os clientes — os clientes norte-americanos, em particular, valorizam este nível de apoio”, afirma Hilary O’Shea, cofundadora e CCO da Otonomee.
A Otonomee, empresa de recursos humanos fundada em Cork, em 2020, por Hilary e Aidan O’Shea, tem-se destacado pelo seu rápido crescimento internacional e pelo modelo remoto que coloca a cultura e o talento no centro da estratégia. Com mais de 600 colaboradores, a maioria em Portugal, a empresa tem vindo a criar oportunidades globais para profissionais portugueses, ao mesmo tempo que oferece soluções em operações e tecnologia para clientes internacionais.
Recentemente, a Otonomee foi patrocinadora da gala The Tony Boyle Business Success Awards 2025, organizada pela Irish-Portugal Business Network (IPBN), que celebra o sucesso empresarial entre Portugal e Irlanda e reforça as relações económicas e culturais cada vez mais próximas entre os dois países.
Ao Link to Leaders, Hilary O’Shea, cofundadora e CCO da Otonomee, partilha a visão que levou a empresa a crescer rapidamente e a tornar-se num exemplo de inovação, sustentabilidade e valorização do capital humano. Desde o investimento estratégico em Portugal até à implementação de soluções operacionais baseadas em inteligência artificial, Hilary O’Shea fala de como a cultura, a flexibilidade e a estratégia internacional podem transformar desafios em oportunidades concretas de negócio.
A Otonomee foi patrocinadora da gala The Tony Boyle Business Success Awards 2025 no final da semana passada. O que significa, para a empresa, estar associada a uma iniciativa que celebra o sucesso empresarial entre Portugal e a Irlanda?
Estamos extremamente orgulhosos por ter patrocinado os IPBN Tony Boyle Business Success Awards. Eu teria apresentado a candidatura a estes prémios em janeiro de 2022, apenas 9 meses depois de termos estabelecido presença em Portugal. Desde o início da nossa pesquisa sobre Portugal como localização estratégica para criar e contratar uma equipa de excelência, o IPBN foi fundamental para nos ajudar a conhecer especialistas de confiança e essenciais em várias áreas, desde banca a fiscalidade e direito. O IPBN tem um poder de networking incrível, e tanto o Aidan [cofundador da empresa] como eu sentimos-nos muito bem recebidos pela rede, mas também conseguimos aproveitar conexões através de eventos, tanto na Irlanda como em Portugal.
“Portugal destaca-se pelo excelente domínio de línguas e pelas sólidas bases técnicas e académicas proporcionadas pelas suas universidades”.
Portugal e Irlanda têm vindo a reforçar as suas relações económicas. Na sua experiência, o que torna esta ligação empresarial tão natural e promissora?
A cultura entre a Irlanda e Portugal está muito alinhada, assim como o facto de ambos os países terem licenciados e profissionais bem formados e simpáticos. Isto é essencial para uma boa relação com os clientes — os clientes norte-americanos, em particular, valorizam este nível de apoio. As nossas equipas têm competências interpessoais elevadas, com grande inteligência emocional e são pessoas agradáveis para fazer negócios. Esta elevada inteligência emocional assenta numa base educativa sólida, fornecida por universidades reconhecidas. Portugal destaca-se pelo excelente domínio de línguas e pelas sólidas bases técnicas e académicas proporcionadas pelas suas universidades.
Que impacto acredita que eventos como esta gala têm na criação de oportunidades concretas para empresas e talento nos dois países?
O networking deste tipo é crítico para permitir que empresas em crescimento acelerado tenham uma plataforma para apresentar a sua empresa. É uma experiência fantástica para os fundadores terem a oportunidade de apresentar a sua empresa a um grupo internacional de empresários. Eu e o Aidan fomos finalistas no programa EY Entrepreneur of the Year na Irlanda em 2025 e isso permitiu-nos fazer parte de uma rede empresarial incrível e inspirou-nos a ter uma visão ainda mais ambiciosa. Os IPBN Tony Boyle Business Success Awards têm a capacidade de gerar inspiração e energia junto de todos os participantes.
“Em cinco anos, construímos uma equipa de Operações e Tecnologia com 600 pessoas que apoiam algumas das empresas que mais crescem no mundo”.
A Otonomee nasceu em Cork, em 2020, e rapidamente ganhou dimensão internacional. Que necessidade do mercado estiveram a tentar resolver quando fundaram a empresa?
Sim, a Otonomee tem a sua sede em Cork, mas foi criada desde o início para crescer rapidamente. Em cinco anos, construímos uma equipa de Operações e Tecnologia com 600 pessoas que apoiam algumas das empresas que mais crescem no mundo. Fundámos a Otonomee com o objetivo de criar uma oferta diferente para vários stakeholders — para as nossas pessoas, parceiros e as comunidades onde vivemos.
Para as pessoas, o objetivo era construir uma empresa da qual se orgulhassem de fazer parte, mantendo o foco na experiência dos colaboradores mesmo com o rápido crescimento. Para os parceiros, percebemos que enfrentavam baixos padrões de serviço e elevada rotatividade, que lhes custava em conhecimento e formação — o nosso modelo previne esse “turnover”, incorporando inteligência artificial para que as operações resolvam questões complexas, onde a confiança é essencial. Para as comunidades, como BCorp, vivemos o mantra “Fazer o Bem e Fazer Bem”, apoiando iniciativas locais e globais, o que é fantástico.
O modelo remote-first é um dos pilares da Otonomee. Que vantagens competitivas trouxe, especialmente num contexto global de escassez de talento?
O modelo remoto foi o catalisador do crescimento e da atração de talento excecional, que permaneceu na Otonomee. Temos uma taxa de retenção de 85%, que é extraordinária. A nossa força de trabalho é altamente qualificada e usa o remoto para equilibrar a vida pessoal. Não competimos por talento nas grandes cidades. Ser totalmente remoto permite que cada pessoa escolha o local que melhor se adapta ao seu estilo de vida, urbano ou rural. O remoto permite-nos crescer rapidamente e entregar o serviço sem limitações de capacidade dos contact center tradicionais.
“(…) Portugal é um verdadeiro ponto de atração de talento, com diversidade de nacionalidades e possibilidade de encontrar apoio especializado, por exemplo, para línguas nórdicas”.
Hoje contam com mais de 600 colaboradores, a maioria em Portugal. O que levou Portugal a ser escolhido como uma das principais bases de talento?
Criámos a Otonomee Portugal em 2021, sabendo que precisávamos de uma oferta internacional para clientes fora da Irlanda. A Otonomee tem mais de 50 nacionalidades, mas Portugal é um verdadeiro ponto de atração de talento, com diversidade de nacionalidades e possibilidade de encontrar apoio especializado, por exemplo, para línguas nórdicas.
De que forma a Otonomee contribui para a valorização do talento português no mercado internacional?
Ao permitir que os profissionais portugueses acedam a marcas globais, produtos complexos e carreiras internacionais sem precisarem de se deslocar. As nossas equipas trabalham no centro de operações globais, o que posiciona o talento português como altamente capaz, confiável e competitivo internacionalmente.
Fala muitas vezes da importância de uma cultura organizacional diversa e inclusiva. Como se constrói essa cultura numa empresa totalmente remota?
Ter criado e escalado uma empresa totalmente remota em quatro continentes é a nossa maior conquista. Começámos com a intenção de criar uma cultura de excelência. Para nós, a cultura é o conjunto de valores da empresa e os comportamentos que decorrem desses valores. Cada aspeto da forma de trabalhar foi projetado para uma experiência remota de excelência. Contratamos pessoas pelo contributo que dão à cultura e investimos muito tempo em pesquisa nesse sentido. Somos uma empresa de “câmeras ligadas”, damos ênfase a sermos pessoas agradáveis para fazer negócios. Temos também tecnologia interna e recursos que ajudam a manter essa cultura, promovendo comunicação e atividades. Valorizamos encontros presenciais em algumas localizações todos os anos.
Que competências procura num profissional que queira integrar a Otonomee, para além das competências técnicas?
Procuramos o que chamamos “power skills”, como pensamento analítico, pensamento criativo, resiliência, automotivação, curiosidade e competências de liderança na vida pessoal. Todas estas competências estão alinhadas com os nossos valores: autonomia, fazer um excelente trabalho, curiosidade, construir ligações pessoais e ir além do individual para fazer o bem.
“O maior desafio para nós, fundadores, foi o financiamento e equilibrar o crescimento da empresa, trabalhando longas horas nas operações do dia a dia e simultaneamente na estratégia e no financiamento”.
Como líder, o que foi mais desafiante ao escalar a empresa, mantendo a proximidade, alinhamento e propósito?
O maior desafio para nós, fundadores, foi o financiamento e equilibrar o crescimento da empresa, ao trabalhar muitas horas nas operações do dia a dia e, simultaneament,e na estratégia e no financiamento. É desafiante para qualquer fundador, mas ter um cofundador tornou este caminho suportável. Porque, honestamente é um caminho muito exigente sozinho.
Em 2025, a Otonomee abriu mais de 150 vagas em Portugal. Que áreas estão a crescer mais e que perfis estão a ser mais procurados?
O nosso crescimento resulta das necessidades dos clientes e, por sua vez, das necessidades dos clientes deles. O setor Health Tech é onde a procura é maior, especialmente na prestação de cuidados preventivos. Há uma necessidade crescente de pessoas com alta inteligência emocional e sólida formação para resolver problemas complexos dos clientes. Procuramos perfis de Operações, Gestão de Equipas, Suporte em Redes Sociais e Suporte Técnico. Também contratamos internamente nas áreas de Finanças, RH e Jurídico.
Acredita que o trabalho remoto veio para ficar ou estamos a assistir a um novo equilíbrio entre modelos?
25% da população global quer trabalhar remotamente. Beneficiamos do recente “regresso ao escritório”, mas o talento que quer trabalhar remotamente simplesmente não quer regressar ao passado. Não precisamos que todos sejam defensores do remoto, mas queremos pessoas que compreendam o compromisso e a responsabilidade exigida. É a fórmula perfeita quando combinada com uma empresa como a Otonomee que reconhece e apoia esta forma de trabalhar.
Quais são as grandes prioridades estratégicas da Otonomee para os próximos anos?
A Otonomee continuará a inovar, apoiando e expandindo a rede de clientes e, por sua vez, os membros da equipa. Os EUA são uma grande área de foco. Bons clientes significam poder oferecer empregos de qualidade e progressão de carreira dentro da Otonomee. Estamos já a preparar a recertificação BCorp em 2027, reforçando o desejo de fazer o bem e fazer mais.
Que conselho deixaria a empreendedores que querem construir empresas globais a partir de modelos mais flexíveis e humanos?
Seguir os instintos. Muitas pessoas dirão que a tua visão não é alcançável. Disseram-nos que era impossível construir uma empresa totalmente remota com cultura vibrante — provámos que estavam errados! O segundo conselho é tentar todas as opções de financiamento; receberás muitos “nãos” — mas é importante continuar.
O que a continua a motivar, todos os dias, enquanto cofundadora e líder de uma empresa em forte crescimento?
Conhecer pessoas fantásticas de novas localizações — colaboradores, conselheiros e clientes — motiva-me todos os dias. Adoro o meu trabalho e estou entusiasmada com o que o futuro reserva à Otonomee!
Respostas rápidas:
Maior risco: Como fundadora, o pessoal e o trabalho são a mesma coisa, tanto em tempo como em investimento financeiro — o risco é enorme, mas a experiência é excecional.
Maior erro: Honestamente, não consigo pensar num específico; cometi vários, mas tenho uma mentalidade muito positiva e não fico a remoer.
Maior lição: Cash is King!
Maior conquista: Cada vez que novos colaboradores expressam felicidade por se juntarem à Otonomee, sinto que foi a maior conquista (fora dos meus quatro filhos!!).








