Com 23 campus distribuídos por oito países e 56 milhões de euros angariados, a Talent Garden é um dos principais players nos espaços de coworking e educação na Europa. Em entrevista ao Link To Leaders, Davide Dattoli, cofundador e CEO da empresa, fala dos desafios dos espaços de trabalho atuais e da expansão internacional do grupo que tem sede em Itália.

Quer queiramos ou não, 2020 mudou a cultura de trabalho em todo o mundo – e provavelmente a longo prazo. A velha realidade das salas de escritório, de reunião e dos intervalos para café com colegas de repente passou para uma sala de casa com a família por perto.

Perante esta nova realidade surgem questões: Como será futuro do trabalho?; Sobreviverão os espaços de coworking? devem as empresas apostar no modelo hibrido?; Voltaremos à cultura anterior? Falámos com jovem Davide Dattoli, cofundador e CEO da Talent Garden, uma empresa sediada em Milão que está a desenvolver e a gerir a maior rede de coworking da Europa, e que já conta com mais de 20 campus.

O italiano, que integrou a lista 30 Under 30 da Forbes em 2019, aponta as tendências futuras e traça um panorama otimista para o seu setor de atividade. Está a expandir-se para várias cidades europeias e Portugal também está na lista, num futuro próximo.

Como é que começou a Talent Garden e qual é a sua missão?
Fundei a empresa em 2011. Tinha 21 anos e o meu desejo era conectar pessoas e ajudá-las a crescer, profissional e pessoalmente. O primeiro campus foi em Bréscia, a minha cidade natal, uma pequena cidade no Norte de Itália, não muito longe de Milão.

Atualmente, o Talent Garden é a maior rede de coworking europeia com 28 localizações, em oito países. Criámos campus locais vibrantes para comunidades de tecnologia digital, e depois conectamo-las globalmente. Abertos 24/7, os nossos campus são desenhados para fornecer às equipas de start-ups, freelancers e corporativos uma base física para crescerem juntos, mas também uma escola para aprendizagem profissional com mais de 1500 estudantes todos os anos, eventos, projetos de inovação abertos com empresas e tudo o que ajuda os talentos da tecnologia a serem fortalecidos.

“Nunca parámos e provavelmente estamos a trabalhar mais arduamente do que antes”.

Como é que a Talent Garden foi afetada pela pandemia e que medidas tomou?
A pandemia está a impactar-nos e muito. Não podemos negá-lo. Já nas semanas anteriores ao bloqueio total em Itália, metemos em prática uma série de ações. Nunca parámos e provavelmente estamos a trabalhar mais arduamente do que antes.

Certamente, depois de pensar sobre a saúde dos nossos colaboradores e da nossa comunidade, aplicando o trabalho à distância e protegendo os nossos espaços, metemo-nos em ação para garantir que todos os serviços que fornecemos offline estavam online. Primeiramente, movemos todos os nossos cursos para online (os que já estavam em andamento e os que começam esta primavera). O mesmo tem sido feito com todos os eventos reservados para a nossa comunidade: reuniões com profissionais da tecnologia e do digital, encontros e workshops, cursos de yoga e aulas de línguas.

Contudo, não pensámos só na nossa comunidade, mas no mundo das empresas que talvez se tenham encontrado mais despreparadas na gestão deste momento de transição, especialmente no que diz respeito ao trabalho inteligente. Então desenhámos, desenvolvemos e lançámos em duas semanas a Antea, uma plataforma digital dedicada aos tópicos de trabalho inteligente e às novas metodologias de trabalho que nos permite aprender, treinar, crescer profissionalmente, conhecer profissionais da indústria, criar redes de contacto e criar novas oportunidades de negócio numa comunidade mais ampla. Para nós, este ponto, não é só sobre fazer negócio, mas sobre apoiar a nossa comunidade alargada nesta altura difícil para se prepararem para o fim desta crise de saúde.

“(…) acreditamos que o coworking irá crescer muito, as pessoas agora confiam no trabalho à distância “.

Quais são as suas previsões sobre como o coworking irá mudar depois da pandemia?
A maneira como vivemos em espaços irá mudar certamente, por exemplo, na entrada de todos os nossos campus temos sensores que detetam temperatura corporal. A mesma coisa para a distância social entre mesas, lugares, etc. Temos investido muito nas medidas de segurança, pois acreditamos que a Talent Garden tem de ser, tanto quanto possível, o sítio mais seguro para trabalhar, tão seguro como a nossa própria casa.

Isto vai perturbar muitas práticas de negócio, de reuniões regulares no local até a viagens de negócio. Mas nós acreditamos que o coworking irá crescer muito, as pessoas agora confiam no trabalho à distância. Mas elas também entendem o valor de estar com colegas para partilhar experiências offline.

Então o que acha que irá mudar no futuro em relação à colaboração e ao trabalho com clientes?
Este período confirmou que as equipas remotamente eram capazes de operar como uma característica permanente do cenário de negócios no futuro. As organizações aprenderam muito por terem sido obrigadas a trabalhar à distância – os empregados ganharam flexibilidade e os negócios provaram que eram capazes de se adaptar às necessidades urgentes do cliente num ambiente volátil.

Durante a pandemia, os gestores estavam mais preocupados com a produtividade, enquanto os trabalhadores estavam mais preocupados com a colaboração. Na verdade, produtividade e colaboração estão diretamente ligadas. Aumenta o potencial colaborativo da equipa e irás aumentar a produtividade deles. A chave para fazer ambos é adotar fluxos de trabalho ágeis e processos que permitem interação, exploração, e colaboração significativa.

Nos últimos meses, a maioria das equipas europeias têm trabalhado em casa. Como é que os escritórios e os espaços de coworking irão ficar?
As organizações deviam experimentar alcançar um local de trabalho centrado no ser humano, e em práticas que aproveitem o melhor do mundo pessoal e virtual, com um foco de juntar as pessoas e criar uma experiência inerentemente mais humana.

Tendo experimentado esta experiência de trabalhar em casa em grande escala, muitos indivíduos podem continuar a ver isso como uma opção viável no futuro. Por outro lado, alguns indivíduos podem querer separar o trabalho da vida pessoal, e ver o escritório como o seu ambiente de trabalhado preferido. A natureza individualista da nossa sociedade significa que os líderes terão que apoiar os funcionários para alcançar o melhor resultado para o indivíduo. Mas, antes que seja possível criar uma utopia de trabalho, é vital que primeiro entendamos as necessidades dos funcionários.

“Não podemos perder o know-how desenvolvido ao longo do ano passado. Precisamos de evitar a perda de trabalhos que irão comprometer os avanços rápidos que estão a acontecer (…)”

Que conselho daria às start-ups europeias neste momento?
Não podemos perder o know-how desenvolvido ao longo do ano passado. Precisamos de evitar a perda de trabalhos que irão comprometer os avanços rápidos que estão a acontecer e colocar em risco os investimentos importantes que foram feitos e que precisam de continuar a acontecer.

“Tenta construir a tua empresa como o teu avô construiu a dele”. Não sigas apenas o modelo Sillicon Valley de se focar só na receita ou no crescimento, e pensa sobre EBITDA (ganhos antes de interesses, taxas, depreciação e amortização). O EBITDA está a tornar-se muito mais importante do que antes. Foca-te em construir algo que irá durar; necessita de ter em mente não apenas a saída, mas antes construir algo a longo prazo que poderá mudar a sociedade.

“Portugal conseguiu nos últimos anos posicionar-se como um dos principais mercados para talentos europeus (…)”.

Conhece o ecossistema empresarial português?
Portugal conseguiu nos últimos anos posicionar-se como um dos principais mercados para talentos europeus no desenvolvimento da tecnologia, e grandes eventos como a Web Summit têm trazido os holofotes da Europa para o país. A Covid é outra grande oportunidade com trabalhadores à distância. A Ilha das Canárias, em Espanha, agarrou agora esta oportunidade, mas Portugal está na melhor posição para ganhar a liderança deste desenvolvimento.

Enquanto CEO e investidor, o que acha que mudará na abordagem dos investidores em relação à decisão de onde investir depois da vida voltar ao normal?
Com certeza a principal coisa que irá mudar será as avaliações que serão mais baixas do que antes. Eu acredito que depois desta crise, todos os investidores, incluindo os tradicionais, entendem que a chave está em investir nas empresas de tecnologia. Eu estou pessoalmente muito otimista sobre o futuro porque acredito que a quantidade de investimentos nas start-ups será maior e com um avaliação mais baixa, o que pode ser bom porque provavelmente estava tudo louco demais.

As pessoas perceberam que a tecnologia não era apenas uma moda ou uma coisa que apenas parece bem, mas algo que é necessário, particularmente para um continente tradicional como a Europa.

O que está previsto para a Talent Garden para o resto de 2021? Que projetos está a trabalhar?
Acabámos de abrir o nosso primeiro campus em França, em Lille, e estamos a planear abrir três novos campos no Sul de Itália. Também estamos a lançar a nossa escola educativa em muitas áreas da Europa e acreditamos que o empurrão que a COVID-19 deu à digitalização da Europa é uma oportunidade incrível para a Talent Garden e para a nossa comunidade. Por isso, estamos a trabalhar para construir um ecossistema tecnológico melhor do que antes!

Portugal está nos planos da empresa?
Ainda não é um plano, mas esperamos abrir um campus num futuro próximo. Entretanto, muitos estudantes portugueses estão a participar nos nossos cursos e atividades online e em outros campus ao longo da Europa.

Respostas rápidas: 
O maior risco: Não ser suficientemente ambicioso.
O maior erro: Correr muito e não ver sempre a big picture.
A melhor ideia: A Europa precisa de conexão entre diferentes países para desenvolver um ecossistema tecnológico para competir contra os EUA e a China.
A lição mais importante: Trata-se apenas das melhores pessoas.
A melhor realização: Criar uma equipa fantástica de pessoas talentosas.

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