Portugal foi recentemente considerado por várias publicações internacionais como o melhor país do mundo para se viver, baseado na opinião de cidadãos estrangeiros. E os portugueses, concordarão que o seu país-natal é o melhor do mundo para se viver?

Um artigo recente da revista Forbes destaca Portugal como o melhor país do mundo para se viver pós-pandemia, à frente de países como Espanha, França ou Itália.

Um relatório de 2022 da InterNations, nomeia Portugal como o melhor país europeu (e o quarto a nível global) para ser imigrante, para se viver ou trabalhar, seja como nómada digital ou como reformado, na dianteira de Espanha, Suíça ou Dinamarca, entre outros países.

Entre os fatores mais apreciados em Portugal, constam, sem surpresa, o clima e o Sol, a qualidade do ar e a natureza, a facilidade em praticar atividades ao ar livre, o sentimento de segurança, o baixo custo de vida ou, não menos importante, a simpatia e a abertura do povo português, que facilitam a adaptação ao país e uma agradável vida social. Portugal é ainda visto como um refúgio que permite fugir “da rotina frenética, da violência ou até de crises sociais, políticas e económicas que existem nos países de origem”.

Gosto pouco deste tipo de rankings de melhor país, empresa, escola, etc., mas admitindo os resultados como fiáveis, será mesmo Portugal um dos melhores países do mundo para se viver?

A resposta a esta pergunta depende, naturalmente, do grupo de pessoas a quem a mesma é colocada, assim como dos fatores que cada um deles mais valoriza.

Será a opinião de um reformado do Norte da Europa similar à de um imigrante da classe baixa de um país africano ou do médio-oriente? Ou à de um refugiado ucraniano ou de outros países que enfrentem uma grave crise humanitária?

E os portugueses, concordarão que o seu país-natal é o melhor do mundo para se viver?

A minha experiência pessoal diz-me que os estrangeiros têm uma perspetiva enviesada e tendencialmente mais favorável face à dos nativos-residentes, como procurarei explicar.

Há cerca de dez anos tomei a decisão de ir trabalhar e viver para a cidade de São Paulo, no Brasil, onde me mantive por cinco anos. Muitos poderão pensar que tal período terá sido um martírio, tratando-se de uma cidade conhecida pelo seu trânsito caótico, pela sua elevada poluição, pela insegurança urbana que a caracteriza, por uma visível, e por vezes chocante, desigualdade social ou pela longa distância à minha terra-natal, certo?

Nada disso, gostei muito de viver em São Paulo e guardo saudade dos anos em que ali vivi.

Mas como e porquê?

São Paulo é tudo isso acima referido, infelizmente, mas é, também, uma cidade vibrante e dinâmica, com um ambiente de negócios altamente sofisticado, inúmeras e desafiantes oportunidades profissionais, uma amistosa e festiva comunidade portuguesa (à data), um apreciável clima tropical, próxima a praias fantásticas e com uma ampla oferta cultural e gastronómica.

Ora, foram estes aspetos, a par da oportunidade de sair da minha zona de conforto, que mais valorizei naquela etapa da minha vida.

Por outro lado, quando vivemos no estrangeiro, creio que tendemos a ser mais tolerantes e a relativizar ou a não dar a mesma importância aos aspetos que habitualmente mais nos incomodam (ou indignam) no nosso país-natal.

Vivi no Brasil num período marcado por crises políticas e escândalos de corrupção, mas por muito que gostasse do país – como gosto – esses eventos não causavam em mim um incómodo como se do meu país-natal se tratasse. Contrariamente a colegas e amigos brasileiros, que viviam e sentiam aqueles com elevada insatisfação ou até indignação. Admito que com o passar do tempo, caso por lá tivesse continuado, o incómodo acabaria por surgir.

Voltando a Portugal, entendo e satisfaz-me que um reformado com poder de compra adore Portugal, pelo seu clima, baixo custo de vida (na sua ótica), segurança e evidente simpatia do povo português; que um refugiado se sinta bem recebido e aliviado pela ausência da violência que ameaçava a sua sobrevivência; ou que um imigrante de classe baixa de um país subdesenvolvido valorize a oportunidade de trabalhar (mesmo com um salário de 750 euros) e de ter acesso a razoáveis e tendencialmente gratuitos sistemas de saúde e de ensino.

Mas, e os portugueses?
As opiniões não serão necessariamente convergentes.

No meu caso, mesmo valorizando, apreciando e procurando usufruir das inúmeras coisas boas que Portugal tem, não consigo deixar de incomodar-me – ou indignar-me – com tantas outras.

Um país que integra a UE há quase 40 anos, com milhares de milhões de euros recebidos, mas onde mais de 40% da população vive no limiar da pobreza, 25% dos trabalhadores aufere o salário mínimo, a carga fiscal (e não fiscal) atingiu um nível de ganância, sem serviços públicos que a justifique, a ética de trabalho e a meritrocacia são uma miragem e em que os jovens precisam de emigrar por falta de oportunidades, não pode, lamentavelmente, ser considerado o melhor país do mundo para se viver.

Por muito simpáticos que sejamos e por mais que o Sol brilhe neste lindo “jardim à beira-mar plantado”.

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Sobre o autor

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Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções de gestão e administração em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais