Há cerca de dois meses, ainda em plena comemoração do ano novo, quando publicamos o último artigo que pode ser consultado aqui, falamos das preocupações que nos poderiam ocupar durante o ano ou, possivelmente, durante a década.

Um dos pontos de destaque foi a necessidade de desburocratizar serviços e processos, entendido como a i) utilização ampla das tecnologias e de recursos on-line, sem a necessidade de deslocação física aos locais, e ii) o simplificar procedimentos “burocráticos”, quando subvertidos na sua utilização.

Outro aspeto com que terminamos o artigo foi a necessidade de mudarmos o atual sistema económico, social e de valores, “Precisamos, para a nova década, de um novo sistema económico social e uma sociedade com outros valores”. Enfim, precisávamos de fazer um reset ao sistema….

E, parece que o reset poderá acontecer mais rapidamente do que pensávamos, desde que o mundo se consciencializou da gravidade da doença Covid-19 e do rápido alastramento do seu agente causador, o SARS-Cov-2.

No que toca à desburocratização, podemos dizer que com a atual pandemia e o consequente fecho ou redução de serviços estatais e empresas e o confinamento e isolamento, fez aumentar exponencialmente o leque de operações de aquisição de bens e serviços e de processos que já podem ser tratados recorrendo a ferramentas on-line sem a necessidade de se deslocar fisicamente às lojas e serviços, ao mesmo tempo que se simplificou muito os procedimentos. O que era impensável fazer on-line e instantaneamente no início do ano, hoje é o recomendável.

O indesejado coronavírus e as consequências da doença que causa, mudou os nossos hábitos culturais e sociais, retirou-nos uma parte da nossa humanidade, daquilo que somos enquanto espécie. Parece que nos obriga a repensar tudo, ou quase tudo, e a adotar medidas extremas contra a nossa natureza social, que seriam impensáveis no início do ano, quando ainda estávamos a desejar a todos um bom ano de 2020.

E de repente somos obrigados a alterar os nossos hábitos sociais, e de repente toda a atividade económica nacional e internacional se paralisa totalmente ou quase, levando à uma redução de atividade em 90% em muitos setores de atividade económica.

Portanto, está sendo feito ou será feito um reset, pelo menos enquanto durar a pandemia;

1 – Reset nos modelos sociais e comportamentais: isto leva à definição de novas regras sociais de isolamento e distanciamento sociais, impensáveis no início deste ano. Já não se pode dar um aperto de mão nem abraços que, em situações de tristeza, são terapêuticos. Recomenda-se não visitar os mais vulneráveis, nomeadamente, as pessoas em lares, não se pode levar solidariedade pessoal aos detidos em prisões, os que estão hospitalizados devem ficar sozinhos, os locais de cultos estão fechados. Ninguém visita ninguém em suas casas. Não se pode acompanhar os que amamos ou gostamos até a última morada.

2 – Reset nos modelos de negócios; o segundo tipo de vítima do SARS-cov-2 é a economia e os negócios, embora não esqueçamos que no fim desta cadeia estão pessoas e famílias. Embora este seja assunto para um próximo artigo, mas não podemos deixar de referir que muitos negócios desaparecerão porque deixarão de ser viáveis, não só porque com o confinamento e isolamento social se reduz a procura pelos seus serviços, mas mesmo depois do levantamento dessas medidas, até o retomar gradual da vida ao normal, não conseguirão sobreviver. Outros negócios vão sair fortalecidos, mas esta é a dinâmica da economia, o que representa ameaça para uns, para outros são oportunidades. Algumas dessas atividades económicas se reinventarão, com novos modelos de negócios.

3 – Reset no modelo de globalização: é inquestionável os benefícios que a globalização trouxe para o progresso da humanidade, permitindo tirar milhões de pessoas da pobreza extrema, ao se inserirem na cadeia de produção internacional, que de outra maneira seria difícil num curto espaço de tempo de duas ou 3 três décadas. Mas esta mesma globalização aumentou a dependência de continentes relativamente ao continente asiático na produção de milhões de tipos de produtos e ajudou a propagar o indesejado vírus à velocidade de um voo comercial e de forma indetetável.

Nos últimos dias ou semanas viu-se a agonia de muitos países na procura de ventiladores e equipamentos de proteção individual para os profissionais que estão na linha da frente desta batalha, a quem nós prestamos a nossa homenagem. Bravos profissionais. Certamente que depois deste episódio os países darão mais atenção à necessidade de terem um aparelho produtivo e manufatureiro mínimo, exatamente para garantir stock de segurança em situações do género. Basta lembrar que uma geração – a nossa -, desde o ano 2000 já viu os atentados de 11 de setembro, a crise financeira de 2008 e agora a pandemia Covid-19.

Os países terão de dar mais atenção à indústria nacional, mesmo que ela não seja competitiva e não possa competir nos mercados internacionais, pois já ficou patente que o atual modelo de globalização só funciona num contexto de normalidade. Com a pandemia, muitos países proibiram exportação de vários produtos e matérias-primas, o que era impensável no início do ano. Pessoalmente, enquanto economista, sempre defendi a necessidade de se diversificar a economia e apostar na industrialização nacional, à escala e dimensão de cada país, não para concorrer no mercado internacional através do preço baixo, mas sim pela qualidade e diversificação, encontrando nichos específicos de mercado.

E, quando passar a pandemia, com o esforço e dedicação dos profissionais das áreas que estão no terreno, emergiremos, enquanto humanidade, mais fortes, mais solidários, mais humanistas, menos materialistas, mais próximos do Criador e com mais vontade de viver, mesmo que seja com uns quilinhos a mais. Mas por agora, por favor, continua em casa, e no fim te darei um abraço.

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Sobre o autor

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Carlos Rocha é economista e atualmente é presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI -... Ler Mais