Chama-se Couch e é um projeto 100% português que visa resolver os problemas de acesso a cuidados de saúde mental. A equipa por trás desta start-up já participou no programa Startup Bootcamp, em Berlim, e tem agora como objetivo consolidar o mercado da psicologia, alargar a sua área de intervenção à pediatria e chegar ao Brasil ainda este ano.

Quando quiser falar com um psicólogo, pode fazê-lo através de uma videochamada a qualquer hora do dia e sem sair de casa. Tudo graças à Couch.  A ideia nasceu em Lisboa, em meados do ano passado, durante a Ideation Week for Health, organizada pela Fábrica de Startups. Foi lá que se conheceram João Villas-Boas, que estudou Medicina, e Nuno Ribeiro, engenheiro físico e com um MBA da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade Católica.

Entre novembro de 2016 e fevereiro de 2017, a Couch foi uma das participantes – e a única portuguesa -do programa de aceleração da Startup Bootcamp Digital Health, em Berlim, dedicado à área da saúde. Recebeu um financiamento pre-seed de 15 mil euros.

De regresso a Portugal, a Couch soma já importantes desafios: foi convidada para participar no Activar Portugal da Microsoft, de forma a desenvolver um projeto piloto, para que os funcionários da Microsoft tenham um desconto nos nossos serviços; e é uma das cinco start-ups shortlisted para a final do Youth Entrepreneurship Award em Bruxelas, uma iniciativa da Câmara Americana de Comércio (AmChamEU) e da Junior Achievement EU.

Mas há mais: esta start-up quer ir além das consultas virtuais, tendo desenvolvido um chatbot, para que qualquer pessoa possa avaliar se precisa realmente de ajuda psicológica. Para isso, está à procura de 200 mil euros em financiamento seed, o que poderá estar completo nos próximos quatro meses.

Como é que surgiu a Couch?
A Couch começou a ser desenvolvida na última semana de maio de 2016, na Ideation Week for Health, da Fábrica de Startups. Fomos postos em contacto com os principais stakeholders da área da saúde, com o Grupo José de Mello, com o Ministério da Saúde, com a Médis e a Deloitte. Entretanto foram-nos colocados aqueles que seriam os desafios principais da atualidade no panorama da saúde. Propusemo-nos a resolver o acesso a cuidados remotos de saúde. Entretanto isto começou como um projeto muito ambicioso e o objetivo era que fosse uma clínica online para várias especialidades. Nos Estados Unidos, no Canadá e na América do Norte a telemedicina já está massificada, mas em Portugal a realidade ainda não é essa.

Começámos a desenvolver mais a área da psicologia, isto porque fomos um dos três vencedores da Ideation Week for Health, o que nos permitiu ter acesso ao Summer of Startups, uma iniciativa da Fábrica de Startups conjuntamente com a Católica SBE. Durante o mês de julho do ano passado, tivemos a hipótese de validar a nossa ideia, fizemos estudos de mercado e falámos com mais de 300 pessoas. A partir daí, com a ideia maturada, tivemos a possibilidade de, em novembro de 2016, e porque precisávamos de financiamento inicial, integrar o Startup Boothcamp Digital Health, em Berlim, um acelerador vertical da área da saúde. Candidatámo-nos e foram vários os processos de seleção.

Concorreram 516 projetos de todo o mundo e tudo culminou em dois dias em que fomos postos à prova e tivemos 20 conversas de 20 minutos, com 10 minutos de intervalo, com aqueles que seriam os nossos potenciais mentores. Eles convidam as 20 start-ups finalistas, mas só 10 passam. Fomos a única das 10 selecionadas que tinham uma ideia bastante maturada e muita vontade de trabalhar, mas que ainda não tinha um produto. Algumas das start-ups que tinham sido selecionadas para o nosso grupo de 10 start-ups já tinham investimentos superiores a 1 milhão de euros ou já tinham receitas mensais à volta dos 50 mil euros.  No entanto, fomos a equipa que pontuou mais alto. Nós pontuámos 890 pontos em 1000, na categoria equipa.

A experiência em Berlim foi extremamente intensiva, foram cerca de 14 semanas. Nesta altura estávamos 3 pessoas, eu que sou médico e membro do Health Parliament, o Nuno, que é engenheiro e trabalhou os últimos 10 anos como software tester da Siement, da Nokia e da Novabase e fez o Lisbon MBA, que é uma mistura de CFO e faz também um bocado da parte de desenho de produto. E a Susana, que por ter um filho pequeno, não pôde estar muito tempo.

Durante essas 14 semanas, apercebemo-nos que a forma de rentabilizar ao máximo este negócio seria psicólogos trabalharem em full time na nossa plataforma.  Entretanto acabámos o programa de aceleração, que culminou no Demo Day, ou seja, numa apresentação para investidores internacionais, e conseguimos captar algum interesse e estamos em conversas com alguns.

Quanto tempo demoraram entre a ideia da empresa e a chegada à realidade?
Em 4 meses tornámos esta ideia em realidade. Entretanto lançámos o produto para o mercado. Tivemos os primeiros clientes, tivemos o primeiro feedback e apercebemo-nos que tínhamos de alterar alguns processos, que é o que estamos a fazer agora. A Couch vai ter um refresh fantástico, a tempo do Ativar Portugal da Microsoft. A Microsoft tem sido super inspiradora para nós. Conhecemos o Luís Calado, o head of start-ups, e ele lançou-nos dois desafios. Foi de uma abertura enorme e de alguma forma quase que o consideramos padrinho do nosso chatbot. Vai chamar-se Froid e vai ser o primeiro chatbot de rastreio de saúde em Portugal e um dos primeiros na Europa, porque no Reino Unido já existem.

O objetivo deste chatbot é que as pessoas possam fazer uma avaliação dos seus índices quer de stress quer de burnout. Este projeto foi desenvolvido em colaboração com um investigador do Hospital de Santa Maria que nos ajudou com uma tabela, que no fundo está padronizada para a realidade portuguesa e tem validade científica, e nós geramos vários resultados que têm pressuposto o risco implícito de cada um em desenvolver um síndrome de ansieedade e depressão. Portanto fazemos um aconselhamento comportamental a quem tem uma probabilidade baixa de necessitar de apoio e propomos  agendar uma sessão a quem necessita de uma consulta.  Neste ponto, a aposta em content marketing vai ser fundamental. Aliás, essa é a principal razão porque estamos agora a levantar a nossa pre-seed round.

Neste momento quais são as especialidades a que conseguem dar resposta?
Foi-nos lançado um desafio pelo Luís Calado, da Microsoft, que foi desenvolvermos o chatbot e começarmos um piloto na Microsoft em que os colaboradores da empresa tivessem um desconto no valor das nossas consultas. Apercebemo-nos que no contexto laboral existem duas áreas de intervenção da psicologia que são importantes. Uma é a prevenção do esgotamento e a outra é a gestão de carreiras e a performance. Alguns dos nossos “early adopters” são profissionais com uma vida bastante exigente, que não têm tempo de ir a uma consulta. Temos consultas a começarem às 11 da noite e a acabarem à meia noite.

O nosso benchmark, que neste caso é do Canadá, tem estudos publicados em revistas de alto impacto que comprovam que a eficácia de uma consulta por videoconferência é equiparável à eficácia de uma consulta presencial, no caso de ansiedade ligeira a moderada. No caso de elevada, em que é necessária terapia farmacológica, o cenário muda de figura. Por isso é que trabalhamos a psicologia e não a psiquiatria.

A nível de especialidade só se focam na psicologia…
O nosso objetivo será, talvez ainda em 2017, acrescentarmos a pediatria. Isto porque os pais são pessoas jovens, que têm facilidade em trabalhar com videoconferência, portanto com uma baixa resistência a uma nova tecnologia. Pretendemos fazer isto num registo de prevenção, impedir uma ida desnecessária à urgência e no caso de ser necessária obviamente que fazemos esse encaminhamento, o que também fazemos na Couch ao nível da psicologia, quando ultrapassa a esfera daquilo que é o nosso foco terapêutico. Nesse sentido, estamos neste momento a negociar com um grande grupo privado de saúde português para termos uma linha verde de encaminhamento.

Como é que traça o perfil das pessoas que recorrem aos vossos serviços?
Existem alguns segmentos. Um dos segmentos são os emigrantes portugueses, principalmente porque não têm acesso a cuidados de saúde mental na sua língua materna e têm uma incidência de depressão e ansiedade bastante superior às populações que vivem no seu país de origem, muito devido ao isolamento e porque o custo de uma consulta de psicologia nos países da Europa para onde emigram os portugueses é bastante superior à praticada em Portugal.

Para além disso são pessoas principalmente entre os 30 e os 40 anos e com uma vida laboral bastante exigente e desgastante. São os segmentos a que até agora conseguimos chegar mais. Agora começaremos a trabalhar com um sistema de vouchers para conseguirmos descontos a universidades e a outros segmentos, sempre com pessoas entre os 18 e os 40 anos.

Que tipo de apoio é mais procurado?
São normalmente ou problemas no trabalho ou problemas familiares, que depois dependendo da personalidade das pessoas acabam por gerar ou situações de ansiedade ou situações um bocadinho mais depressivas.

Quantas pessoas asseguram atualmente o serviço?
Neste momento temos 15 pessoas prontas a trabalhar e conseguimos escalar a oferta proporcionalmente à procura porque temos um pipeline de pessoas prontas para entrar. Se quiséssemos teríamos 100 pessoas porque a procura por parte dos psicólogos é bastante grande, até porque existe algum desemprego na área que tem que ver com o excesso de formação principalmente de universidades privadas. Mas não nos faz sentido ter lá 100 pessoas quando só temos trabalho para 50. À medida que for necessário vamos acrescentando as pessoas que temos em espera, acho que faz mais sentido.

Que lições aprendeu desde a criação da Couch?
Aprendi que é de facto importante ter uma boa ideia, mas sem dúvida que a execução representa 90%. É preciso que a equipa, para além de serem pessoas bastante competentes, estejam empenhadíssimos e sejam extremamente complementares. Não é de todo inteligente existirem na mesma equipa duas pessoas que fazem bastante bem algo e depois deixam a descoberto outras áreas.

Se pudesse, o que teria alterado?
Teria investido num colaborador digital. Teria garantido que a pessoa que começou connosco a fazer o desenvolvimento de software era a pessoa mais indicada. Não me teria precipitado para conseguir começar a desenvolver o produto o mais rápido possível, até porque neste momento está a ser remodelado e isso era algo que poderia ter sido evitado.

Teria também inicialmente verificado com todos os membros que fundaram a Couch qual o runaway que eles teriam para se aguentarem em bootstrapping para que neste momento a equipa não tivesse sido deletada por um elemento por razões que são perfeitamente nobres, justas e compreensíveis, mas que ainda assim é mais uma pedra no caminho que temos de ultrapassar, mas já estamos a fazê-lo.

É a primeira vez que estão a participar numa ronda de investimento ou já tinham participado
Tínhamos tido um investimento inicial de 15 mil euros por 6% de equity, que foi o que nos permitiu iniciar a Couch, mas esta é a primeira angel round, primeira e única, espero eu, que vamos levantar.  Para lá disso já conseguimos criar interesse em algumas pessoas, até, como disse, fora de Portugal. Apercebemo-nos que em Portugal uma pré-seed round é algo muito bonito em termos concetuais, mas que não existe. Como disse o Tim Vieira numa palestra, “em Portugal as pessoas investem nas vossas start-ups quando vocês já não precisam de dinheiro”.

Quando as coisas estiverem a correr super bem os investidores estão interessadíssimos, mas no fundo isso é utópico porque um investimento numa start-up é um investimento de risco. Eu e o Nuno, que somos os acionistas principais da start-up, chegamos à conclusão de que não vamos acelerar uma angel round só pela necessidade financeira e ficarmos com uma pessoa que não se enquadra nos nossos ideais.

Qual é a previsão para terminar esta ronda de investimento que têm em curso?
Neste momento já tivemos várias reuniões com investidores portugueses e o que a grande maioria nos diz é que gostam imenso da nossa ideia e que a equipa é muito boa. Estamos a viver um bocado a história do ovo e da galinha. Para gerar KPIs é preciso também termos dinheiro para marketing digital. Posso dizer-lhe que será nos próximos quatro meses.

E planos a nível internacional?
O nosso objetivo é anda durante 2017 testarmos o mercado brasileiro. Já identificámos alguns psicólogos brasileiros a residir em Portugal e através de um domínio.com.pt, mas basicamente será através da mesma tecnologia que já desenvolvemos para conseguimos começar a vender consultas para o Brasil.

E porquê o Brasil?
Por várias razões. Estamos neste momento também em contacto com investidores brasileiros em São Paulo e foram-nos explicadas algumas coisas. Neste caso vamos utilizar como piloto São Paulo, que tem 12 milhões de pessoas, é a capital financeira da América do Sul, onde existem níveis de stress enormes e as pessoas têm uma grande dificuldade de deslocação com um trânsito impossível. É dos países no mundo com maior índice de penetração de smatphones, com acesso à internet e as pessoas estão bastante habituadas a utilizar a videoconferência no contexto laboral e no contexto pessoal. Claro que as poucas barreiras culturais também ajudam nesse sentido, porque existem alguns países que têm uma regulação relativa à telemedicina que ainda é algo dura, como é o caso da Alemanha, em que a primeira consulta tem de ser presencial e só depois pode fazer consulta por videoconferência, ao passo que no Brasil não existe este requisito, pelo que em termos regulatórios também é bastante permeável.

Como vê o futuro da telemedicina em Portugal?
Sem dúvida alguma que a telemedicina vai acontecer. A telemedicina está a crescer a 18,3% ao ano a nível mundial. Está previsto que, em 2018, 7 milhões de pessoas  nos EUA sejam seguidas só por telemedicina.

E a população mais idosa?
Nesse caso terá de ser o cuidador a pegar no computador e a ajudar no contacto com o médico. Mas a questão é que a telemedicina vai acontecer, principalmente em algumas especialidades, aquelas que não exigem nenhum exame físico presencial e aquelas que conseguem abranger as populações mais jovens. O Eduardo, é italiano e é aluno da Católica e está aqui a fazer o mestrado internacional. O Eduardo está a ajudar-nos a perceber quais são as três próximas especialidades que deverão ser acrescentadas à Couch. Já chegámos à conclusão que a primeira é a pediatria, principalmente porque os pais são pessoas jovens e querem solucionar o problema rapidamente.

Como é que vê a Coach daqui a três anos?
Vejo a Couch já com outras especialidades, a aumentar o leque de cuidados de saúde da sua abrangência e vejo a Couch não só em Portugal e no Brasil, mas também na Europa mediterrânica.

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