Opinião
Podar é estratégia. Estratégia começa no que decide não fazer.
No fim de semana, podei a minha romãzeira. Ficou mais “pobre” à vista: menos ramos, menos volume, mais espaço. No meio dos ramos, um detalhe: um ninho vazio. Um ciclo completo, deixado para trás sem drama.
A poda parece perda. Na prática, é direção. E é por isso que esta metáfora serve tão bem para desenvolvimento pessoal, e para liderança. Porque há uma ideia confortável (e errada) de crescimento: adicionar. Mais objetivos. Mais projetos. Mais reuniões. Mais responsabilidades. Mais “sim”.
O resultado é previsível: a energia dispersa-se. A estrutura enfraquece. O fruto encolhe. E a sensação de movimento aumenta… enquanto o impacto real diminui.
Onde começa, quase sempre, a falha
Começa quando confundimos capacidade com boa vontade.
“Dá para fazer.” “Vamos só encaixar.” “É importante.”
E, aos poucos, a agenda vira um mapa de boas intenções. Sem cortes, não há foco. Sem foco, não há execução. E sem execução… não há crescimento, há desgaste.
Há um teste implacável ao foco: os trade-offs. Se tudo continua a caber “sem mexer em nada”, então não há foco, há otimismo. Foco existe quando algo sai para outra coisa entrar. E se, nas últimas semanas, não se cortou nada (nem um projeto, nem um compromisso, nem uma rotina), o mais provável é que o teu foco esteja a ser declarado e não praticado.
O assassino silencioso: o “sim” fácil
O que mata mais trajetórias (e estratégias) raramente é um grande erro. É um hábito: manter tudo.
- Manter compromissos por inércia.
- Manter hábitos que já não servem.
- Manter iniciativas “zombie” porque um dia fizeram sentido.
- Manter a identidade antiga porque já deu resultado antes.
O ninho vazio é um lembrete útil: há coisas que foram certas… e já passaram. Maturidade é saber fechar ciclos sem culpa.
Podar é decidir (e decidir é desconfortável)
Poda não é cortar aleatoriamente. É cortar com intenção.
Três perguntas que ajudam:
- O que estou a manter só porque “sempre esteve lá”?
- O que está no meu calendário, mas não está nos meus objetivos?
- Que “sim” eu dou para evitar a conversa difícil?
E três podas práticas, de liderança, que quase sempre libertam impacto:
- Parar o que já não cria valor.
- Delegar decisões que a equipa precisa aprender a tomar.
- Simplificar processos que viraram tradição, não necessidade.
No fim, progresso nem sempre é expansão. Muitas vezes é subtração bem feita. O que precisa podar esta semana para a próxima estação ser mais forte?
Pedro Fonseca é um executivo de transformação com mais de 20 anos de experiência em planeamento e direção de tecnologia. Com uma carreira focada na liderança de equipas globais e na implementação de estratégias de transformação digital, especializou-se em arquitetura empresarial, gestão de serviços de TI e inovação tecnológica.
Atualmente, lidera o Cloud Center of Excellence global na Saint-Gobain, onde impulsiona a adoção de tecnologias cloud, gestão de produtos e sucesso do cliente. Anteriormente, desempenhou funções de destaque em empresas como Feedzai, Nokia, Fidelidade, Oney Bank e Caixa Geral de Depósitos, conduzindo iniciativas estratégicas de inovação, otimização de processos e transformação digital.
Com percurso académico em Engenharia Informática e formação em Sociologia pelo ISCTE, além de uma especialização em Gestão e Inovação Digital pela Católica Lisbon School of Business and Economics, é também certificado em Gestão de Projetos e Gestão de Serviços de TI e Tecnologias. Além da sua experiência corporativa, conta com vários anos de consultoria estratégica, apoiando organizações na definição e execução de estratégias tecnológicas e operacionais.








