Paulo Teixeira: “Quem regula o espaço tem de pensar que está a tomar uma decisão de saúde”
Paulo Teixeira, diretor-geral da Pfizer, foi o orador convidado do terceiro encontro do projeto Healthy Spaces, Happy People. Durante a sua intervenção, analisou os principais desafios da saúde em Portugal e destacou o impacto que as decisões sobre a conceção, gestão e regulamentação dos espaços onde vivemos e trabalhamos têm na saúde e no bem-estar das pessoas.
Onde é que a saúde acontece? Paulo Teixeira começou por lançar esta pergunta aos participantes, questionando a ideia de que se limita aos hospitais, às farmácias e aos consultórios e salientando que uma parte significativa da saúde se constrói nos espaços que ocupamos diariamente. Se, como referiu, “os europeus passam cerca de 90% da vida dentro de edifícios”, o ambiente construído assume um papel relevante na prevenção da doença e na promoção do bem-estar.
É nesta relação entre os espaços e a saúde que assenta o projeto Healthy Spaces, Happy People, uma iniciativa promovida pelo Link To Leaders e por Vanda Boavida, especialista em Espaços Saudáveis, com o apoio do Grupo Altis. Em formato de pequeno-almoço, os encontros reúnem evidência científica, boas práticas e experiências reais para colocar a qualidade dos ambientes físicos no centro das decisões estratégicas das organizações.
“Vivemos mais anos, mas isso não significa necessariamente viver com mais saúde”.
Esta influência dos espaços na saúde exige, por isso, uma mudança na forma como são pensados e geridos. O diretor-geral da Pfizer reconheceu que muitos decisores ainda não têm esta consciência, mas defendeu que ela será cada vez mais determinante para responder aos desafios que se colocam à saúde em Portugal.
Os desafios começam numa realidade que, apesar de representar uma conquista, levanta novas questões: “vivemos mais anos, mas isso não significa necessariamente viver com mais saúde”. A esperança média de vida à nascença em Portugal ronda os 82 anos, acima da média europeia, mas o país está entre os mais envelhecidos do mundo.
“Estamos a conseguir dar anos à vida, mas será que estamos a conseguir dar vida aos anos?”, questionou Paulo Teixeira, colocando no centro do debate não apenas a longevidade, mas a qualidade de vida e a necessidade de olhar para os ambientes em que as pessoas vivem e trabalham.
O responsável lembrou que apenas 19% das pessoas com mais de 65 anos avaliam positivamente a sua saúde, contra 66% dos 16 aos 64 anos. Além disso, 57% da população tem excesso de peso, só 43% pratica exercício físico regularmente e 40% consome legumes diariamente. Em contrapartida, o investimento em prevenção ronda os 2,3% e, segundo o orador, é na sua esmagadora maioria destinado à vacinação. A estes dados junta-se o facto de 15% dos portugueses não terem médico de família.
Doença crónica, ansiedade e custos para as empresas
As doenças do aparelho circulatório continuam a ser a principal causa de morte, seguidas do cancro, cuja incidência deverá crescer cerca de 20% até 2040. Muitas doenças oncológicas estão a tornar-se crónicas, mas, segundo Paulo Teixeira, entre 30% e 50% dos novos casos são evitáveis através de mudanças nos estilos de vida e da criação de condições que favoreçam uma vida mais saudável.
A par destes problemas, um terço da população sofre de dores lombares e a ansiedade está em crescimento. A percentagem de pessoas com sintomas passou de 32% para quase 40% entre 2024 e 2025. Além disso, segundo um novo relatório sobre o custo do stress e dos problemas de saúde psicológica no trabalho, estes representam um encargo superior a 13 mil milhões de euros anuais para as empresas portuguesas, o equivalente a uma vez e meia o investimento previsto para o novo aeroporto de Lisboa.
Paulo Teixeira questionou ainda se os locais de trabalho estão preparados para acolher quem regressa após uma doença grave ou crónica, garantindo a sua integração e a possibilidade de continuar a contribuir.
Olhando para o futuro, as projeções demográficas e de saúde colocam desafios acrescidos. A população ativa deverá diminuir de 6,8 milhões em 2024 para 4,2 milhões em 2100, num contexto de maior necessidade de cuidados e de aumento da despesa em saúde para o Estado e para as famílias. A estes desafios somam-se os riscos associados a ondas de calor mais frequentes e o envelhecimento dos profissionais de saúde. Os casos de demência deverão aumentar de cerca de 238 mil em 2025 para 368 mil em 2050.
Neste cenário, o orador defendeu que intervir nos espaços onde vivemos pode contribuir para alterar estas tendências, reforçando a importância de integrar a saúde no planeamento e na gestão dos ambientes construídos.
“Damos forma aos edifícios, mas depois são os edifícios que nos dão forma”
Para ilustrar esta relação, Paulo Teixeira recorreu a um episódio histórico. Em 1943, Winston Churchill discursou na Câmara dos Comuns, bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial, defendendo que fosse reconstruída exatamente como era. O primeiro-ministro britânico considerava que a configuração do edifício influenciava a forma como os deputados debatiam e tomavam decisões. Uma ideia que o orador sintetizou na frase: “damos forma aos edifícios, mas depois são os edifícios que nos dão forma”.
Na sua opinião, cada vez mais se constata que “os espaços têm muita influência na forma como vivemos, como convivemos e até como vivemos a própria saúde”.
Repensar os espaços para responder aos desafios da saúde
Perante estes cenários, Paulo Teixeira defendeu a necessidade de rever políticas e adaptar os espaços. Em casa, a saúde estará cada vez mais presente através de teleconsultas, telemonitorização e teletrabalho. Embora algumas empresas estejam a rever os modelos híbridos devido ao impacto na colaboração e no envolvimento das equipas, o orador considera que esta tendência não vai inverter-se.
Nas cidades, será necessário criar espaços exteriores com sombra e preparados para responder às ondas de calor. Nos locais de trabalho, a qualidade do ar e da iluminação também assume um papel relevante, com estudos a apontarem para um desempenho cognitivo 26% superior em edifícios adaptados a estas condições. O envelhecimento da população e o aumento das doenças crónicas exigem, igualmente, ambientes capazes de acolher e integrar quem continua a trabalhar.
É também nesta necessidade de aproximar a saúde do planeamento dos espaços que se enquadrou a intervenção de Vanda Boavida. A especialista em Espaços Saudáveis alertou para a falta de literacia nesta área e frisou que a neuroarquitetura vai muito além das cores, dos objetos ou dos aromas. A iluminação é disso um exemplo concreto: a luz branca e intensa ao final do dia pode interferir com o ritmo circadiano e comprometer o sono, com consequências no humor, nas relações e na saúde.
Vanda Boavida destacou ainda, como exemplo positivo, a crescente aposta internacional na personalização dos espaços, com soluções adaptadas às necessidades individuais, incluindo de pessoas com autismo ou perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA). “Algumas intervenções são simples e pouco dispendiosas, mas podem fazer a diferença no bem-estar e na capacidade de concentração”. Deu como exemplo uma cadeira com um elástico, para que possan abanar o pé sem incomodar os outros colegas.
O terceiro encontro contou ainda com a presença de vários líderes empresariais, entre os quais Bernardo Mota, COO da Olisipo; Daniela Costa, COO da Eurotux; Élia Jesus, diretora de Recursos Humanos da EAD; Filipe Romão, membro do Conselho de Administração da HighSun DMC Portugal & Spain; Maria Klien, psicóloga especialista em ansiedade; Martim de Botton, CEO do LACS; Paula Dall’Stella, médica especialista em saúde integrativa e neuro-oncologia; e Sandrine Veríssimo, diretora regional da Hays Portugal.
Recorde-se que o primeiro encontro Healthy Spaces, Happy People contou com Ana Moreira, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Integrativa, e o segundo teve como convidado o médico Rogério Gaspar, ex-diretor do Departamento de Regulação e Pré-qualificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra.
O próximo encontro do projeto está previsto para janeiro, em data a anunciar.







