“A transformação digital é importante para as empresas porque é uma questão de afundar ou nadar”. Esta é uma das afirmações do conferencista canadiano Heath Slawner em entrevista ao Link To Leaders.

Heath Slawner esteve recentemente em Portugal para participar na 22.ª Conferência Anual IDC Directions, um evento focado na economia e transformação digital, concretamente na aplicação das novas tecnologias na mudança de processos e na experiência do cliente.

Slawner, que tem vindo a popularizar pelo mundo o conceito de WHY, criado por Simon Sinek numa das TED Talks mais vistas de todos os tempos, trabalha com alguns dos maiores pensados e investigadores do mundo dos negócios. É um orador apaixonado com o dom de ligar as pessoas e as ideias com energia criativa. Juntou-se à equipa da Start With Why em 2015 e colabora com organizações para ajudar à mudança e reforçar os laços empresariais.

Com o seu trabalho na área da liderança, influência e confiança, Heath Slawner partilha insights e perspetivas que ajudam os outros a levar o desempenho para o próximo nível.

Quem é o Heath Slawner?
Heath Slawner é uma pessoa comum, um canadiano de Montreal. O meu trabalho leva-me ao redor do mundo, como um dispositivo de ignição na Simon Sinek Inc. Estamos a lutar todos os dias e motivados para criar um mundo onde as pessoas acordam querendo ir para o trabalho, sentindo-se inspiradas e voltando para casa no final do dia, com um sentimento de satisfação. O meu porquê, a razão pela qual faço o que faço, é para conectar pessoas e ideias para que vivamos com mais significado, com mais sentido. Para mim, significado é tudo.

O que aprendeu com Simon Sinek?
O Simon abriu uma porta enorme para mim. Sempre adorei estar em palco, fui palestrante antes de o conhecer e encontramo-nos numa conferência há nove anos. Mas assim que entrei para a equipa do Simon e comecei a pensar sobre o que faço, mudei a maneira de abordar minha própria vida. Via-me a pensar: “Como posso, a partir de hoje, viver alinhado com o meu por quê?”. O porquê, o sentido de propósito é apenas uma articulação de quem você é quando está no seu melhor. E quem não quer estar no seu melhor?
Depois de descobrir quem você é e qual é o seu porquê, pode começar a tomar decisões que se articulam com isso. Essa é a minha maior lição: realmente há uma oportunidade de viver, de viver o que tem significativo para cada pessoa, mas você não pode fazer isso a menos que saiba qual é o seu porquê.

“(…) a confiança desencadeia conexão, desempenho, criatividade e amor”.

Acredita que a confiança e o propósito estão no centro de tudo?
Realmente acredito. Esse foi o trabalho da minha vida: descobrir como criar confiança com outras pessoas porque acho que a confiança desencadeia conexão, desempenho, criatividade e amor. E acho que não falamos o suficiente sobre amor.
Recentemente, ouvi um palestrante dizer que “o amor é o precursor da contribuição” e acho que isso é verdade – há um lugar para o amor além da nossa família e amigos. Existe um lugar para esse tipo de sentimento e conexão no trabalho. Nós apenas não nos damos permissão. Amo o que faço, amo as pessoas com quem trabalho, amo o que estou a fazer? Essas são algumas perguntas nas quais não gastamos tempo suficiente.

“Se há uma coisa que é importante para o sucesso no local de trabalho é cercar-se de pessoas que acreditam no que você acredita”.

Como podem as pessoas ter sucesso no trabalho?
Essa é uma pergunta difícil. Acho que existem muitas maneiras. Creio que a resposta para essa pergunta é que não há só um caminho. Se há uma coisa que é importante para o sucesso no local de trabalho é cercar-se de pessoas que acreditam no que você acredita. Encontre organizações, empresas ou equipas com a mesma mentalidade. Sempre que estiver a dedicar o seu tempo, tenha a certeza de que encontra algo que seja importante para você, porque parecerá menos difícil e desafiador – e menos parecido com trabalho. Parece menos uma transação e mais um chamamento – e isso leva tempo. Pode não encontrar isso nos seus 20, 30 ou 40 anos, mas não pare de tentar porque, caso contrário, não tem o mesmo compromisso.

As empresas também são responsáveis por incutir propósitos no trabalho que realizamos. Participei em muitas reuniões e a maioria dos líderes sentiam-se à vontade para falar sobre os números e as estratégias, mas não sobre histórias, as histórias humanas e reais que devem ser a razão pela qual fazemos o que fazemos.

“A mentalidade dos líderes é um pouco formatada porque receiam investir nas pessoas (através de workshops, cursos, etc.) porque têm medo que deixem a organização”.

Como criar um ambiente no qual as pessoas e as ideias possam prosperar?
Acho que a grande questão é realmente “como as pessoas podem prosperar?”, porque para as ideias prosperarem, apenas precisamos de ter a mente aberta. Como seres humanos, queremos aprender, desenvolver e crescer e acho que precisamos de manter essa ideia viva nas organizações. Essa ideia da mentalidade de crescimento de que podemos melhorar, podemos mudar mesmo diante da adversidade é a chave para isso.

Dar às pessoas um lugar para crescer é dar-lhes espaço para prosperar. Às vezes, as pessoas são colocadas numa posição no trabalho e não investimos nelas. A mentalidade dos líderes é um pouco formatada porque receiaminvestir nas pessoas (através de workshops, cursos, etc.) porque têm medo que deixem a organização. Mas a pergunta é: deseja treinar trabalhadores que possam eventualmente sair ou ter trabalhadores não treinados que ficam? Portanto, é importante promover um novo tipo de ambiente, onde promovemos a liberdade, onde as pessoas querem ir trabalhar todas as manhãs. Hoje, muitas empresas, como o Google, exigem que os  seus funcionários passem 20% da semana fazendo algo que importante para eles. O problema não é que a maioria das pessoas não goste de trabalhar; simplesmente não gostam do trabalho que estão a fazer no momento.

Quem são os melhores líderes?
Os melhores líderes são aqueles que cuidam das pessoas ao seu redor e que estão dispostos a sacrificar-se para que outras pessoas possam avançar. E a ironia é que, quando os líderes se sacrificam, o resto também se sacrifica para que o líder possa avançar.

Qual diria que é a qualidade mais importante para liderar uma empresa / negócio e uma equipa?
Numa palavra: cuidado. Você precisa de preocupar-se profundamente com as pessoas sob seu comando.

Como construímos relacionamentos mais fortes baseados na confiança, inspirando ações e fazendo com que as pessoas digam “sim” com mais frequência?
Eu diria que precisamos de saber ouvir. As pessoas querem sentir-se ouvidas e toda a gente tem uma história. Mas estamos constantemente sem tempo para fazer tudo, por causa do nosso instantâneo mundo digital. E isso tem tido um impacto negativo na capacidade de nos conectarmos uns com os outros.

O que é a equipa Start With Why e o que faz?
A Simon Sinek Inc. ou a equipa Start With Why, é um grupo de pessoas que, ao longo dos anos, adotou as ideias do Simon. Essa equipa é composta pelos otimistas e pelos impulsionadores. Chamamo-nos de impulsionadores porque usamos essas ideias para provocar a mudança positiva nas organizações. Existem cinco impulsionadores (eu, o David, o Peter, o Matt e o Stephen) e quatro otimistas (o Rich, a Jen, a Kristen e a Kim). Podem descobrir mais sobre nós no site.

“(…) se você ainda está parado e não está a transformar-se e a evoluir com as mudanças, será devorado por alguém”.

Porque é que a transformação digital é tão importante para as empresas?
É uma questão de afundar ou nadar. O Simon diz-nos isso o tempo todo: “Existem jogadores conhecidos e desconhecidos que estão a conspirar para roubar os seus  negócios”. Nos últimos 15 anos, existem algumas empresas, como Uber ou a AirBnB, entre outras, que foram disruptivos e mudaram a forma como trabalhamos. Portanto, se você ainda está parado e não está a transformar-se e a evoluir com as mudanças, será devorado por alguém.

Se as empresas estão cientes da necessidade de se transformarem digitalmente, por que é que há tantas organizações a lutar para avançar com as mudanças nos negócios?
Atualmente, essa é uma mudança muito complexa a ser feita. Costumava ser mais fácil. No meu primeiro trabalho, lembro-me que o chefe de IT só precisava de verificar se tínhamos todos os programas (Microsoft Office, Adobe) de que precisávamos. Agora, a IT é o negócio e todas as empresas estão tornar-se especialistas em software ou hardware. Por exemplo, o Domino’s  já não se considera mais uma empresa de pizzas, mas um site de ecommerce.

Quais são os principais problemas quando se trata de transformação digital? O que está no caminho?
É difícil mover uma empresa numa nova direção, assim como é difícil fazer as pessoas quererem mudar algo dentro de si. Por isso, acho que o que está no caminho é, muitas vezes, a mentalidade dos líderes.
Se não houver espaço para mudanças, é difícil implementar uma nova maneira de analisar a transformação digital, de vê-la como algo que ajudará a empresa e não apenas como uma necessidade.

Dicas para uma empresa portuguesa implementar uma boa estratégia de transformação digital.
É a mesma coisa que eu diria a qualquer empresa em qualquer esfera ou país: se você vai iniciar uma transformação, tenha a certeza de que faz uma pausa de vez em quando e verifique se todos entendem “por quê”.

E sobre a sua estadia em Portugal, será um pit stop de dois segundos?
Como orador, costumava fazer mais pit stops, mas não gosto muito disso. Quero conhecer as pessoas, a cultura e seu contexto, para descobrir o seu significado. Estive em Portugal durante alguns dias. Passei alguns dias no Porto e três dias em Lisboa. Achei a história portuguesa super fascinante e a comida também foi incrível (especialmente o pastel de nata). Sinto-me muito ligado a Lisboa, adoro a energia que a cidade tem. Esta foi a minha segunda visita.

Comentários