Entrevista/ “Os comportamentos são o que mais dificulta o crescimento das empresas”

Hugo Lourenço, fundador do World Management Agility Forum*

De 19 a 21 de setembro, o World Management Agility Forum vai reunir em Lisboa líderes e gestores nacionais e internacionais para darem a conhecer boas práticas e reimaginarem o futuro. O Link to Leaders falou com Hugo Lourenço, fundador deste evento, que espera que ajude os participantes a “compreenderem o que permite às empresas alcançarem crescimento exponencial, mas também consistente e sustentável”.

Lisboa será palco em setembro do World Management Agility Forum (WMAF), um evento que irá reunir especialistas e líderes internacionais em gestão, tecnologia, liderança e recursos humanos. Durante três dias, serão desvendados os segredos de empresas reconhecidas e dadas a conhecer práticas que impulsionam o crescimento, a produtividade, a criação de valor e o envolvimento dos colaboradores.

“Este evento irá, sem dúvida, revelar alguns ingredientes secretos que poderão fazer a diferença na forma de trabalhar, pensar e gerir uma empresa”, explica Hugo Lourenço, fundador do WMAF, frisando que “a participação de Jim Highsmith e Chet Hendrickson (autores do Manifesto Agile), de unicórnios portugueses como a Remote, Talkdesk e Mindera, Curt Carlson, ex-CEO da SRI International, uma potência de inovações de elevado valor para avanços como a HDTV, e de empresas como L’Oréal, Sanofi e Bayer” poderá enriquecer o conhecimento de todos os que participarem no evento.

O WMFA celebra este ano 10 anos e surge como parceiro do Global Peter Drucker Forum, na Áustria.

Quais as suas expetativas para a 10.ª edição do World Management Agility Forum?

As expectativas para a 10.ª edição do World Management Agility Forum estão elevadas. Celebramos 10 anos com a participação de especialistas e líderes internacionais e nacionais em gestão, tecnologia, liderança, recursos humanos, agilidade organizacional, entre outros, e com a presença de empresas mundialmente reconhecidas pelo seu crescimento exponencial. Serão dias marcados pela partilha de conhecimento entre painéis e apresentações, que culminam em deep dives, que espero que inspirem e contribuam para que os participantes compreendam o que permite às empresas alcançarem crescimento exponencial, mas também consistente e sustentável.

Este evento irá, sem dúvida, revelar alguns ingredientes secretos que poderão fazer a diferença na forma de trabalhar, pensar e gerir uma empresa. No sábado de manhã temos masterclasses com temáticas distintas, tais como Fatores Humanos, Liderança com Inteligência Artificial ou Otimizar o Cérebro para a performance profissional. A audiência, que era maioritariamente portuguesa, atualmente é metade estrangeira, oferecendo excelentes oportunidades de networking. Ericsson, Sanofi, LÓreal, Celfocus, Fidelidade, EDP, Accenture, Bain Consulting, Mercedes, Siemens, Bosch, Caixa Geral de Depósitos são algumas das empresas que irão marcar presença.

Quais os grandes nomes que estarão em destaque nesta edição?

Esta edição conta com a participação de diversos especialistas e líderes nacionais e internacionais, tais como Jim Highsmith e Chet Hendrickson  – um dos autores, e o primeiro assinante do Manifesto Agile, respetivamente -,  Curt Carlson, cofundador do projeto Siri para a Apple, Richard Straub, presidente e fundador do Global Peter Drucker Forum, de quem somos, este ano, parceiros de evento, três unicórnios portugueses: a Remote, Talkdesk e Mindera, assim como a Sanofi e a L’Oréal Luxe, empresas de renome europeias, e um painel do Hacking HR, a comunidade global de aprendizagem de RH e líderes empresariais. Estamos, sem dúvida, a falar de diferentes contextos organizacionais, o que por sua vez contribuirá para que cada participante se identifique com uma história e, acima de tudo, consiga perceber o que mudar e como fazer diferente para si.

“O objetivo é inspirar uma mudança global no pensamento de gestão e na forma como gestores, líderes ou equipas, de qualquer tipo de empresa, podem reinventar-se  (…)”.

Qual o objetivo do World Management Agility Forum?

O objetivo é inspirar uma mudança global no pensamento de gestão e na forma como os gestores, líderes ou equipas, de qualquer tipo de empresa, podem reinventar-se e garantir resultados exponenciais para o seu contexto organizacional. E de modo a dar resposta aos desafios da atualidade, pretende-se desafiar o status quo, descobrir novas oportunidades e soluções para desafios empresariais, promover uma liderança visionária e empática, gerar produtos e serviços sustentáveis, capazes de se adaptar às constantes mudanças e necessidades.

Durante o evento, damos a conhecer práticas inovadoras que impulsionam o crescimento do negócio, a produtividade das equipas, a criação de valor e a relação entre os colaboradores e os clientes, capacitando os participantes a adotarem práticas que garantam um crescimento sustentável. Portfólio, desenvolvimento de produtos, serviços, projetos e operações, são as áreas que mais beneficiam com as discussões e abordagens que vamos discutir.

O que tem mudado ao longo das edições desta iniciativa? O evento tem sabido acompanhar as mudanças do mercado?

Sim, esse é o nosso propósito. Todos os anos, sempre que realizamos uma nova edição, temos como foco e em consideração as mudanças que tem havido no contexto do mercado e do público da conferência. Tem sido com base no feedback dos participantes e das empresas portuguesas que nos acompanham desde o primeiro momento que temos desenhado com detalhe cada evento. Mais concretamente, em 2014 este evento iniciou o seu caminho como ScrumDay Portugal, por estar focado em investigar e saber mais sobre a forma de trabalhar das equipas, assim como por destacar práticas relacionadas com Agile, entre elas, Scrum, Kanban e DevOps.

Mais tarde, começámos a perceber que não envolveria apenas as práticas, mas também temas como o trabalho em equipa, as competências de comunicação e colaboração. Devido a esta vontade de trazer novas discussões e perspetivas decidimos expandir a conferência para o eXperience Agile Week, com um dia somente focado em fatores humanos de nome Agile Human Factors com a participação das forças armadas portuguesas e o JALG da Nato em Monsanto, do Hospital das Forças Armadas e ainda com um momento para CEO e líderes partilharem a sua história com o World Agility Forum.

Desde sempre que existiu este crescimento e o repensar na sua estrutura, mensagem e oradores convidados. Este ano não será exceção. Todas as edições contam com um conjunto muito interessante e diversificado de participantes e oradores, pelo que temos prevista e planeada uma grande celebração destes 10 anos de uma conferência única e diferenciadora em Portugal. Muitos negócios, parcerias, networking, oportunidades de emprego foram criadas e consolidadas ao longo destes 10 anos.

“(…) somos mais Ter Agile do que Ser Agile, mas isso também se verifica em muitas outras geografias, nomeadamente as mais voláteis a fatores macroeconómicos externos, e, como tal muito conservadoras”.

As empresas portuguesas são “early adopters” dos modelos Agile? Quais têm sido os grandes desafios?

O contexto em Portugal diferencia-se um pouco do que se vive, por exemplo, nos Estados Unidos e no Norte da Europa, onde as práticas surgiram bastante mais cedo. Enquanto noutras realidades vemos um mercado quase saturado, Portugal ainda se encontra um pouco distante disso, somos mais  Ter Agile do que Ser Agile, mas isso também se verifica em muitas outras geografias, nomeadamente nas mais voláteis a fatores macroeconómicos externos, e, como tal muito conservadoras.

É verdade que em Portugal há cada vez mais empresas com vontade e interesse em querer “experimentar” estes modelos, porque os que têm atualmente já não se aplicam ou encontram-se esgotados. E, por isso, é importante assegurar uma boa transição e que as pequenas mudanças sejam para melhor. Diria que 70% já usam de alguma forma modelos híbridos ou de práticas Agile, mas ser Agile é muito mais do que ter um Agile Coach ou uma metodologia Agile. Estamos no caminho certo, mas falta ser e pensar em criar valor, inovar de forma natural e orgânica. Ao longo destes anos também ajudámos a desenhar vários cursos para o Ensino Superior, como foi o caso da Faculdade de Ciência e Tecnologia.

O principal desafio que encontramos acaba por ser a mudança em si. Compreende-se que mudança pode ser entendida como uma imposição e “se funcionou assim desde sempre, porquê mudar? – Ou mudar apenas para uns e não para o middle management, que quer mudar, mas alterar o status quo não ajuda na comunicação com os seus pares.

Depois existem outros desafios muito específicos relacionados com a criação e educação ao invés da formação em fatores humanos. Temos mais um problema de sociologia do que psicologia, e uma boa parte das empresas tem optado por psicólogos organizacionais e clínicos para serem coaches. Cada contexto apresenta uma realidade diferente e copiar fórmulas de sucesso de outras organizações não irá funcionar devido às especificidades, contexto e necessidade que caracterizam cada projeto, equipa e empresa. No final, será sempre imprescindível o tempo, espaço, dedicação e vontade para melhorar o trabalho e os resultados alcançados.

“As start-ups querem ser grandes e as grandes empresas não conseguem atuar como se fossem uma start-up”.

E as start-ups? Qual o papel que a gestão baseada na filosofia Agile desempenha no crescimento de uma start-up?

As start-ups querem ser grandes e as grandes empresas não conseguem atuar como se fossem uma start-up. Todas as práticas, técnicas e ferramentas pedem que se trabalhe com equipas pequenas – a Amazon refere o número de pessoas suficientes para serem alimentadas com duas pizzas médias. As start-ups são por natureza entidades mais ágeis e abertas à mudança, não apenas pela fase do negócio em que se encontram, como também por, tendencialmente, serem geridas por jovens empreendedores cuja forma de estar no mundo empresarial é mais adaptativa, curiosa e flexível.

O pensamento Agile ajuda a crescer e a enfrentar as várias dores desse mesmo crescimento. Agile é sinónimo de inovação, mas para todos numa empresa. A forma como pensam, organizam, colaboram, sem silos, sem hierarquias, mas como grande maturidade e responsabilidade em fazer acontecer, o que obriga a terem de estar perto uns dos outros para uma boa comunicação, análise do contexto, tomada de decisão, liderança a todos os níveis. É um momento e ambiente fantástico quando se consegue chegar a este cenário das nossas vidas e da vida da empresa! Dá imenso trabalho e tem de ser de todos, por isso é crucial uma visão forte na qual todos acreditam ou tudo se desmorona como um baralho de cartas.

De que forma o Agile pode desempenhar um papel vital na evolução de uma empresa e dos seus clientes?

Agile já desempenha esse papel nas 20 maiores empresas do mundo. Ser Agile implica ser curioso sobre como apoiar e entregar valor aos seus clientes, colaboradores que aprendem uns com os outros, criam uma cultura de evolução com grande dedicação para minimizar reuniões e perda do foco no objetivo. Como refere o Agile Manifesto, “estamos a descobrir (uncovering) melhores formas de …”, não quer dizer que saibamos, quer dizer que tem de haver espaço para esta descoberta, para esta procura, assim como interesse. Uma estrutura hierárquica com uma ferramenta não vai conseguir fazer o que o Agile inspira criar para os clientes, trabalhadores e organizações, ou seja, um valioso ecossistema que gera negócio.

O truque é crescer conforme a procura, sem querer dar passos maiores que a perna, mas também ter o timing certo de resposta face a estas diferentes necessidades e desafios. Estar na cloud, ser escalável, sem aumentar o número de headcounts, e conseguir margens maiores por deter maior propriedade intelectual é o ser Agile, a prática será a que tiver de ser para lá chegar.

“Estarmos confortáveis com a incerteza que não é para todos e o Agile tem essa premissa: amanhã será melhor se compreendermos o que aprendemos hoje!”.

Como pode o Agile promover uma mudança de mentalidade genuína?

Se há uma tema delicado é a mudança, principalmente na forma de pensar. Dando um passo atrás nesta pergunta devemos primeiramente olhar para o ponto de vista pessoal no que consiste pensar. Cada realidade é composta por diferentes e pequenas partes, componentes, e cada um destes pequenos componentes interage com outro, criando assim um ambiente instável, imprevisível, com constantes variações. A biologia explica que as rotinas fazem-nos despender menos energia, logo mudar rotinas, ou ter nova disciplina na forma de trabalhar, requer mais energia. É quase certo que as pessoas vão resistir e mais ainda se não entenderem o porquê, se não estiverem apaixonadas e crentes no propósito e benefício da mudança. Estarmos confortáveis com a incerteza que não é para todos e o Agile tem essa premissa: amanhã será melhor se compreendermos o que aprendemos hoje! Mas é um tema delicado, depende e muda de pessoa para pessoa. A mudança, do que quer que seja, resulta sempre de cada um de nós.

Qual a importância dos fatores humanos hoje em dia na dinâmica das equipas?

Se há algo que temos de ensinar antes de qualquer prática, Agile ou não Agile, será sempre sobre fatores humanos, senão como confiar na equipa? Os fatores humanos são e continuarão a ser fundamentais na dinâmica dos indivíduos, grupos e equipas. Acredito que nada substituirá ou se sobrepõe à essência do conhecimento humano e às emoções, experiências vivenciadas. Os comportamentos são o que mais dificulta o crescimento das empresas. Quando temos o fundador com uma vontade única e um propósito claro sobre a razão pela qual a empresa existe,  será fácil fazer acreditar. Mas quando o propósito é gerar valor para ficar bem junto dos acionistas, então a empresa terá uma enorme dificuldade em sobreviver mais 100 anos.

As equipas, na sua natureza, são compostas por indivíduos que se conectam, colaboram e comunicam para resolver problemas para os quais não temos soluções. A verdadeira força reside nesta interação humana, onde as suas características únicas se tornam indispensáveis para o sucesso. Embora a IA traga consigo avanços notáveis na otimização de processos, análise de dados e na  automatização de tarefas, jamais poderá substituir a criatividade, a empatia, a capacidade de resolução de problemas complexos e a tomada de decisões estratégicas que caracterizam a inteligência humana. A IA deve ser vista como uma ferramenta poderosa que complementa e aprimora as habilidades de uma equipa.

Qual o impacto da inteligência artificial na filosofia Agile? Quais as oportunidades e perigos?

A inteligência artificial está a revolucionar diversos setores. A filosofia Agile tem foco nos seres humanos. Num mundo global e tecnológico, as equipas vão alcançar novos patamares de eficiência, produtividade e inovação através da IA. Algumas das oportunidades passam pela automação de tarefas repetitivas, libertando tempo para atividades mais estratégicas e criativas, o que pode gerar um aumento na produtividade e na qualidade do trabalho, uma tomada de decisão mais rápida, pois permite analisar grandes volumes de dados e identificar padrões, que podem escapar ao olho humano. Desta forma, auxilia as equipas a tomar decisões mais rápidas e informadas e otimiza os processos. Há também uma melhoria na comunicação e colaboração, principalmente em equipas remotas a nível global, o que pode melhorar o fluxo de trabalho; também a personalização de acordo com as necessidades específicas de cada projeto poderá aumentar a sua eficiência e eficácia; e ainda a deteção ou prevenção de erros, que torna produtos e serviços mais confiáveis e de alta qualidade.

Mas também existem desafios da IA no mundo do Agile, como o impacto na cultura das equipas, falta de transparência no processo de tomada de decisão, custos de implementação, especialmente para pequenas empresas. A IA é um aliado do Agile e vice-versa. No entanto, é importante estar ciente dos seus desafios e recorrer à IA de forma responsável e estratégica, para alcançar os tais novos patamares de sucesso.

“(…) no futuro teremos grandes casos de sucesso, boas histórias para serem contadas sobre formas e soluções inovadoras de criar e entregar valor no ecossistema colaboradores – clientes – empresa.

Como vê o futuro da filosofia Agile?

Tem-se observado uma maior evolução e amadurecimento relativamente ao tipo de abordagem quando as empresas procuram e investigam alternativas de métodos para operar e criar valor para o cliente. Cada vez menos são as abordagens híbridas, ou da revolução industrial, mas sim as que estão de acordo com a investigação e o conhecimento sobre o contexto e a sua complexidade. Creio que, no futuro, teremos grandes casos de sucesso, boas histórias para serem contadas sobre formas e soluções inovadoras de criar e entregar valor no ecossistema colaboradores – clientes – empresa.

Projetos para o futuro?

De momento, o nosso grande foco assenta nos fatores humanos, nas competências não técnicas e nos elementos que fazem os grupos de trabalho serem verdadeiras equipas. Há uma grande diferença entre ter uma equipa de especialistas e de estrelas, na qual a qualidade não se reflete ou evidencia no seu produto final, face a uma equipa com menos qualidade individual, mas que em termos de trabalho apresenta resultados muito acima da média. Queremos apoiar esses grupos a serem mais equipa. Já o fazemos com o nosso projeto e evento High-Performance Teaming Challenge, no qual desafiamos diferentes equipas a aprender sobre fatores humanos num contexto muito prático e neutro às suas realidades. No entanto, queremos dar o passo seguinte!

Somos um país pequeno, e precisamos muito de equipas resilientes, cibersegurança, blocos operatórios, aviação, investigação, defesa, desenvolvimento de software, distribuição, segurança, construção, e muitas outras áreas, que não têm o mínimo de conhecimento necessário de fatores humanos e da filosofia Agile para criarem equipas, que juntamente com IA, podem desafiar muitos gigantes nas suas indústrias. Teremos novidades muito em breve referentes a programas de formação, atividades práticas e até uma ferramenta que pode ajudar equipas a colaborar melhor. Tudo isto com base em mais de 20 anos de experiência a formar equipas, em dados e evidência científica.

 

* Hugo Lourenço é ainda fundador da The Agile Thinkers.

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