Opinião

Onde há paz, lei e ordem, há colaboração e os negócios prosperam

Eugénio Viassa Monteiro, professor da AESE-Business School

Uma pessoa amiga mandou-me um vídeo com a impressionante estória do empresário David Sassoon, que emigrado do Iraque, da cidade de Bagdad, veio a Mumbai em 1860 e prosperou, por ter a garantia e a realidade de uma paz, lei e ordem.

Com a sua experiência de representante de têxteis britânicos em Bagdad, ele criou um grande negócio de fabricação de têxteis, no Sul de Mumbai. Como não lhe era fácil ter acesso aos portos para importar matérias-primas e exportar os seus têxteis, ele projetou a Sassoon Dock onde a linha férrea entrava quase até ao mar, facilitando as operações de carga e descarga.

Durante a sua vida, David Sassoon projetou e realizou imensas obras de alto valor filantrópico, cultural, profissional, espiritual e de cuidados de saúde para a população de Mumbai. Aliás, a Comunidade Parse de Mumbai teria tomado decisão semelhante dado que o regime do Irão, de onde eles vieram, não tolerava a liberdade de ação a pessoas de outras religiões. Felizmente para a Índia, parte importante da Comunidade Parse tomou o rumo de Guzarate, onde se estabeleceu, foi muito bem acolhida e desenvolveu uma atividade económica, científica e artística de altíssimo nível, impulsionando, ao mesmo tempo, de modo inexcedível a filantropia. Toda a Índia beneficiou e continua a beneficiar da sua presença.

Pode-se considerar que o fundador do Grupo Tata, Jamsetji Tata foi um dos mais importantes filantropos de todos os tempos da Índia. Com os rendimentos das suas empresas criou Trusts filantrópicos que participavam em 66% no Tata Sons e através dele no capital das Companhias do Grupo Tata, numa proporção variável que poderia ir até aos 100%.

Significa isso que os dividendos recebidos pela participação no capital de cada empresa teriam de ir necessariamente para as “charities”, para o seu sustento e continuação da sua ação benéfica multifacetada, em matérias de saúde (Tata Memorial Hospital para o Cancro, por exemplo), de educação, no plano de ajuda pessoal em bolsas de estudo aos melhores alunos para continuarem os seus estudos, ou na criação de instituições de ensino como é o Caso do Tata Institute of Sciences (Bangalore) e mais tarde do TISS-Tata Institute for Social Sciences, etc.

Há pessoas visionárias que não só detetam as necessidades do país, como procuram meios práticos para ir realizando paulatinamente os grandes empreendimentos que serão a base do desenvolvimento do novo país de adoção.

Diz a estória que David Sassoon, de religião judaica, terá criado 17 fábricas de têxteis no Sul de Bombay, exportando os seus produtos e também boa parte do algodão de alta qualidade produzido na Índia. Aquelas fábricas ocupavam cerca de 60% da mão de obra dessa indústria.

Quando nos EUA se dava a guerra de secessão, nos anos 1860, ele comprometeu-se com os colonizadores britânicos a exportar algodão da Índia para Lancashire, dado o grande stock de produção de qualidade indiana.

Também Jamsetji Tata lançou a sua atividade transformadora no setor têxtil, em primeiro lugar, indo depois satisfazer outras necessidades, como a construção de barragens para a obtenção de energia hidráulica para alimentar Bombay e também para as das necessidades de expansão do ensino e da prestação de cuidados de saúde.

Entende-se, com facilidade, porque houve grande desemprego quando os britânicos, através da East Índia Company, levavam todo o algodão da Índia para as suas fábricas do RU e depois reenviavam o produto fabricado para ser vendido na Índia.

O desemprego industrial na Índia foi notável, criando muita fome e miséria, e as populações procuraram instintivamente buscar trabalho na agricultura, onde “sempre cabe mais um”, porque o sentido de solidariedade é mais atuante. Ainda hoje a mão de obra no setor agrícola continua muito elevada na Índia, da ordem dos 40% do total de mão de obra ativa e a sua produção corresponde a cerca de 17% apenas, do PIB..

Devido ao clima húmido e quente de Mumbai, David fixou-se em Pune, onde continuou a sua atividade empresarial e social, tendo criado também algumas instituições de grande importância social, entre elas a Sinagoga de Pune.

O seu filho Álvaro ficou com a responsabilidade das atividades em Bombay e Pune, ao mesmo tempo que o filho mais novo, Elias, foi incentivar o comércio com a China (em Xangai), onde o dirigente local lhe cedeu um amplo terreno nos arredores da cidade para as sua atividades industriais, no local chamado Band. Assim, David Sassoon teve uma ativa presença nas cidades de Bombay e Xangai em negócios muito variados e prósperos, sempre com uma grande abertura para servir o povo.

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Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”, publicado em português, espanhol e inglês. Foi diretor-geral e vice-presidente da AESE (1980 – 1997), onde teve diversas responsabilidades. Foi presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-India e faz parte da atual administração. É editor do ‘Newsletter’ sobre temas da Índia,... Ler Mais..

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