Opinião

Onde faltam regras costumam sobrar urgências

Filipe Bergaña, fundador da Audaz Capital

Muitas empresas familiares não precisam de mais estrutura; precisam da estrutura certa para decidir melhor – antes que a pressão as obrigue.

Havia agenda, café e boa vontade. O fundador sentou-se à cabeceira, o director financeiro abriu o computador, o responsável comercial trouxe os números do trimestre. Ao fim de vinte minutos, a reunião descarrilou para o costume: um cliente difícil, uma contratação adiada, uma divergência antiga entre duas áreas. Nada ficou decidido. À saída, alguém comentou em voz baixa: “Voltamos a falar disto para a semana.” Em muitas PME familiares, o problema não é falta de reuniões. É falta de um espaço que obrigue a pensar melhor.

À medida que a empresa cresce, a intuição do fundador deixa de chegar para tudo. O que durante anos funcionou por proximidade, experiência e rapidez começa a mostrar limites. Os temas tornam-se mais pesados, os riscos mais caros, e a organização precisa de contraditório útil sem cair em burocracia. É aqui que um conselho consultivo pode fazer a diferença.

O primeiro equívoco é achar que um conselho consultivo serve para “formalizar” a empresa ou imitar grandes grupos. Serve, na verdade, para algo mais simples: melhorar a qualidade das decisões. Não governa no sentido jurídico, não substitui a equipa de gestão, não retira autoridade ao dono. Cria, isso sim, um ritual de exigência. Obriga a preparar informação, a separar urgência de importância e a discutir temas relevantes com mais distância e menos ruído.

Quando funciona bem, o efeito nota-se depressa. A empresa passa a ter cadência. Certos temas deixam de surgir apenas quando o problema já é evidente. O fundador deixa de decidir sempre sozinho, mas também não perde o comando. Ganha uma coisa mais valiosa: contexto. Em vez de ser a única pessoa a carregar o peso da decisão, passa a ter à mesa duas ou três vozes capazes de fazer perguntas melhores.

O segundo equívoco é pensar que o conselho consultivo tem de ser pesado para ser sério. Na maioria das empresas familiares, acontece o contrário. O formato útil costuma ser leve: duas ou três pessoas externas, uma reunião bimestral ou trimestral, uma agenda curta e uma lista clara de prioridades. Finanças, operações, estratégia comercial, sucessão, talento. Pouco mais. O importante não é o aparato, mas a disciplina.

Quem deve estar nessa mesa? Não amigos do fundador para validar o que ele já pensa, nem nomes sonantes que aparecem uma vez por semestre para dar opinião genérica. O conselho ganha valor quando junta perfis complementares e independentes: alguém com leitura financeira, alguém com experiência operacional, alguém que perceba de crescimento, clientes ou sector. Pessoas serenas, com autoridade sem vaidade. Gente que saiba discordar sem humilhar e apoiar sem capturar a empresa.

É precisamente aqui que muitas famílias hesitam. Temem exposição, perda de controlo, ou a sensação de que “agora qualquer assunto vai ser discutido fora de casa”. Mas um bom conselho consultivo não invade a esfera da família; ajuda a protegê-la. Ao separar temas de gestão dos temas emocionais, reduz-se a tentação de discutir decisões operacionais no almoço de Domingo ou de pedir ao fundador que resolva tudo com base no instinto. A empresa ganha ordem; a família ganha distância.

Recordo o caso de uma empresa industrial onde o fundador, ao aproximar-se dos setenta, percebia que a organização dependia demasiado da sua leitura do negócio. Não queria um conselho de administração pesado, nem uma máquina formal que travasse a empresa. Criou então um conselho consultivo pequeno, com uma antiga directora financeira, um gestor operacional experiente e um perfil comercial do sector. Disse-me que nos primeiros encontros, o desconforto era visível: a equipa não estava habituada a apresentar números de forma limpa, nem a justificar prioridades. Ao fim de alguns meses, porém, algo mudou. As reuniões internas ficaram melhores, os temas chegavam mais preparados e certas decisões deixaram de esperar pelo humor ou disponibilidade do fundador.

Do lado de quem investe em continuidade, este é um dos sinais mais encorajadores. Não porque um conselho consultivo “embeleze” a empresa para terceiros, mas porque mostra maturidade. Mostra que a casa já começou a aprender a decidir com processo, e não apenas com carisma. Para um comprador sério, para um banco, para um advisor ou para a própria geração seguinte, isso transmite confiança. Reduz risco de execução, reduz dependência excessiva e melhora a passagem de testemunho quando ela chegar.

Também aqui há erros típicos. O primeiro é transformar o conselho numa plateia passiva. O segundo é levar para a mesa apenas temas passados, em vez de usar o fórum para antecipar decisões. O terceiro é não fechar o ciclo: discute-se muito, decide-se pouco, acompanha-se menos. Sem actas simples, responsáveis claros e revisão do que ficou combinado, o conselho torna-se apenas mais uma reunião. E uma empresa familiar não precisa de mais ruído.

No fundo, um conselho consultivo é uma ferramenta de transição, mas também de crescimento. Ajuda antes da sucessão, durante a profissionalização e até quando não há qualquer intenção de vender. Porque a sua função mais importante não é preparar uma transacção. É preparar a empresa para continuar bem.

Muitas vezes, a boa governação começa assim: não com um grande desenho institucional, mas com a humildade de admitir que decidir sozinho já não chega. E essa admissão, longe de enfraquecer o fundador, pode ser uma das formas mais maduras de liderança. A questão, por isso, não é se a empresa precisa de um conselho sofisticado. É se já chegou o momento de ter o contraditório certo à mesa.

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Filipe Bergaña

Filipe Bergaña

Filipe Bergaña é fundador da Audaz Capital, um veículo de investimento criado para adquirir a totalidade do capital de uma única empresa, rentável, em Portugal ou em Espanha, que enfrente um problema de sucessão e precise de continuidade. Depois de duas décadas de carreira nos mercados financeiros internacionais – em casas de referência como a BlackRock, a Fidelity, a Och-Ziff ou a Man Group – iniciou um novo caminho como empresário-operador. Filho de pai espanhol e mãe portuguesa, pertence a... Ler Mais..

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