Opinião
O papel do protocolo nas cimeiras internacionais em tempos de guerra
Em tempos de paz, o protocolo em cimeiras internacionais assume um papel crucial na manutenção da ordem, na facilitação da comunicação e na promoção de um ambiente propício à negociação e à busca de soluções diplomáticas.
O protocolo ajuda a evitar mal-entendidos, promove a segurança dos participantes e garante que as reuniões decorrem de forma eficaz e respeitosa, mesmo em contextos de grande tensão. A formalidade e a civilidade podem ajudar a reduzir tensões e promover um diálogo mais construtivo entre os participantes
Em tempos de guerra, por outro lado, a diplomacia continua a ser fulcral e as cimeiras internacionais são as mais importantes plataformas diplomáticas zelando para que, mesmo ainda não se tendo atingido a paz, estas reuniões decorram de forma organizada e eficiente, transmitindo para o exterior a encenação do poder de quem nelas participa.
Mas o protocolo é, antes do mais e acima de tudo, a encenação do poder. Como ficou muito claramente demonstrada nas duas cimeiras internacionais de que foi protagonista o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump durante o mês de agosto de 2025 e que tiverem ambas lugar nos EUA.
A primeira cimeira, realizada no Alaska, reuniu o presidente norte-americano com o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, sob o lema “Pursuing Peace”. Putin foi recebido com as honras devidas a um chefe de Estado, mas também com manifestações de simpatia que contribuíram para reforçar a ideia de que a cimeira constituía um reencontro, uma reconciliação, um recomeço – e a reabilitação de um líder com quem o anterior presidente norte-americano, Jo Biden, apenas se encontrou uma vez, em Genebra, a 16 de junho de 2021. Recorde-se que Trump, no seu anterior mandato, teve, nos idos de 2017, duas cimeiras com Putin – em julho, na Alemanha, e em novembro, no Vietname.
No dia seguinte à cimeira do Alasca, Trump recebeu em Washington o presidente da Ucrânia, que se fazia acompanhar por uma ilustre comitiva de chefes de Estado e de Governo denominada Coligação de Vontades. Essa companhia, se pode ter reforçado a posição ucraniana, não terá engrandecido – em termos de imagem e de protocolo – a figura do Presidente Zelenski, que pareceu necessitar dela para ser tratado e ouvido como deve ser pelo presidente norte-americano. Ao contrário do presidente Putin, que, para ser bem recebido e tratado por Trump, não precisou de ser acompanhado por amigos e aliados.
As imagens da reunião de Trump com Zelenski e os outros chefes de Estado e do Governo enaltecem a figura do presidente dos Estados Unidos em prejuízo dos outros participantes na cimeira. Veja-se, por exemplar exemplo, a foto da reunião na East Room da Casa Branca. É difícil perceber a que critério obedeceu a atribuição dos nove lugares à mesa, sendo, porém, evidente que o essencial propósito era dar ao presidente dos Estados Unidos, que, de facto, presidia sozinho a essa reunião, o maior destaque possível – com prejuízo dos outros participantes e, nomeadamente, do presidente ucraniano.
E, a esta luz, mais impressionante é ainda a foto da reunião na Sala Oval, com o Presidente Trump a fazer uma prelecção aos dirigentes europeus, diante de um mapa da Ucrânia onde estão muito coloridamente assinalados os territórios ocupados pela Rússia, com a respetiva percentagem de ocupação.
As coisas são o que são. Mas, se houvesse dúvidas sobre o que as coisas são – ou como agora estão – a imagem e o protocolo das duas cimeiras que Trump organizou fizeram com que elas se dissipassem. O protocolo, como encenação do poder, também serve para mostrar que manda quem pode – e obedece quem deve.








