A Air Doctor anunciou a entrada no mercado nacional há poucos dias e garante que os portugueses que viajam para o estrangeiro já podem aceder à sua rede digital de médicos. Em entrevista ao Link To Leaders, Jenny Cohen Derfler, CEO e fundadora da start-up israelita, revelou ainda que já lançou um “piloto” em Israel para oferecer o produto Air Doctor a clientes com seguro de saúde privado.

Uma plataforma que através da tecnologia liga viajantes, companhias de seguros e médicos para resolver o problema de aceder e pagar por cuidados médicos no estrangeiro. Este é o core business da Air Doctor, uma start-up israelita que nasceu em 2016 inspirada pela experiência pessoal de um dos seus fundadores.

Atualmente, a aplicação liga turistas a uma rede global de mais de 20 mil médicos e está disponível em 75 países, um dos quais Portugal onde chegou recentemente. Ao Link To Leaders, Jenny Cohen Derfler, CEO e fundadora da Air Doctor, reafirmou que o seu objetivo é tornar os cuidados médicos acessíveis a todos, em todo o lado, numa questão de minutos, confidenciou que estão a planear a próxima ronda de investimento para 2023 e que a intenção da start-up é expandir dentro do mercado americano e adicionar produtos para melhor servir os médicos e parceiros OTAs (agência de viagens online).

Como teve a ideia de lançar a Air Doctor?
Durante uma viagem à América do Sul, em 2014, Yam Derfler, cofundador da Air Doctor, adoeceu e foi tratado num hospital local. As longas horas passadas no hospital, para além de resultarem num mau atendimento, levaram-no a perceber que tinha de haver uma solução para os viajantes não familiarizados com os serviços médicos locais.

Um inquérito rápido mostrou que a maioria dos seus amigos viajantes, que ficaram doentes ou feridos, preferiram esperar sair do país em questão do que ver um médico, porque não confiavam nos serviços de saúde locais. No seu regresso, Yam decidiu investigar esta experiência e concluiu que isto acontece com demasiada frequência.

Ninguém deve estar numa situação que coloque a sua saúde em risco, muito menos quando viaja para o estrangeiro. Lançámos assim a Air Doctor de modo a aliviar o duplo sofrimento das pessoas que adoecem enquanto estão fora do seu país. A Air Doctor foi criada para dar aos viajantes uma plataforma digital intuitiva e acessível para que encontrem o médico certo para as suas necessidades, onde quer que estejam.

“Nos primeiros tempos, as viagens empreendedoras podem ser extremamente difíceis e solitárias, por isso é tão importante ter uma equipa de cofundadores”.

Quem esteve consigo no arranque do projeto?
A Air Doctor foi criada por mim e pelo Yam Derfler e, mais tarde, juntaram-se ao projeto Efrat Sagi-Ofir e Yegor Kurbachev. Nos primeiros tempos, as viagens empreendedoras podem ser extremamente difíceis e solitárias, por isso é tão importante ter uma equipa de cofundadores. Embora o processo tenha sido acidentado – como em qualquer empresa em crescimento – o nosso equilíbrio de competências e ética de trabalho colaborativa tem-nos guiado.

E investidores?
Relativamente a investimentos, em 2018, angariámos um capital inicial da Kamet Ventures e, mais tarde, da The Phoenix, uma das maiores seguradoras de Israel. Além disso, o primeiro cliente da Air Doctor juntou-se à Kamet e investiu numa ronda subsequente. No início de 2022, recebemos um investimento adicional liderado pela Lightspeed Ventures e foram angariados 32 milhões de dólares, desde a sua criação até hoje, através da participação da Vintage Partners e da Munich Re.

Qual o modelo de negócio da Air Doctor?
O nosso modelo é B2B, B2C, B2B2C.

“A maioria dos investidores está interessada em start-ups impulsionadas pela tecnologia, mas pessoas são sempre a verdadeira força motriz por detrás do sucesso de qualquer empresa”.

Ao fim de seis anos de atividade, conseguem ter a plataforma disponível em 75 países, em 15 línguas e com uma rede de cerca 20 mil médicos? Qual o segredo para esta ascensão tão rápida?
Estes resultados deixam-nos muito orgulhosos e consideramos que são várias as razões que justificam este crescimento. Primeiramente, o nosso produto responde a uma necessidade que não era atendida, através da sua tecnologia inovadora e conceito único – uma aplicação que liga viajantes, companhias de seguros e médicos para resolver o problema de aceder e pagar por cuidados médicos no estrangeiro. Consequentemente, recorremos a uma estratégia global, utilizando os recursos de vários países para prestar o nosso serviço.

Outros dois fatores são agilidade e flexibilidade – especialmente dentro de uma arena intercontinental. Desde sermos capazes de largar tudo para nos deslocarmos a uma conferência, ou de fazermos girar um modelo de negócio durante tempos tão difíceis como os de uma pandemia global – adaptação é fundamental.

A maioria dos investidores está interessada em start-ups impulsionadas pela tecnologia, mas as pessoas são sempre a verdadeira força motriz por detrás do sucesso de qualquer empresa. A tecnologia e os mercados serão sempre dinâmicos, mas quando uma empresa global é sustentada por uma equipa sólida e apaixonada na sua única missão, o negócio é construído tanto para a resistência como para o palco global.

Além disso, consideramos que a forma como selecionamos os médicos nos destaca. Pode ser através de recomendações, companhias de seguros, médicos já existentes na rede Air Doctor, através de relações com grandes clínicas privadas, bem como uma rede de recrutadores no terreno em cada país.
Os médicos são depois entrevistados e avaliados, para que verifiquemos as suas qualificações e todas as outras informações necessárias que compõem o seu perfil na plataforma. O processo de monitorização dos médicos inclui ainda a avaliação das revisões dos clientes, análise das faturas, revisão anual das qualificações e visitas, não programadas, pela equipa da Air Doctor.

“(…) o que podemos garantir aos portugueses que viajam para o estrangeiro é que agora podem descarregar a aplicação Air Doctor (…)”

Acabam de alargar a vossa oferta no mercado português. Quais as expetativas de adesão à plataforma?
Para já, o que podemos garantir aos portugueses que viajam para o estrangeiro é que agora podem descarregar a aplicação Air Doctor, na app store ou a nossa versão desktop. Deste modo, acedem à nossa rede digital de médicos em todo o mundo e podem marcar uma consulta com um médico no prazo de 45 minutos.

Os viajantes devem verificar se a sua seguradora de viagens tem um acordo com a Air Doctor. Se assim for, não há necessidade de pagar pelo serviço ou pedir um reembolso.

Qual é neste momento o mercado internacional com maiores níveis de crescimento da plataforma?
Certamente a Europa, especialmente Espanha, Alemanha, Holanda e Reino Unido. Os dados da UNWTO (Organização Mundial de Turismo das Nações Unidas) mostram que metade dos viajantes globais anuais viajam dentro da Europa, por isso, face estes números, no início concentrámo-nos principalmente na Europa. Hoje, estamos a crescer e temos novos clientes na Austrália e nos Estados Unidos da América.

Numa altura em que o setor da saúde em Portugal está a atravessar um momento difícil, que tipo de acordos firmaram em Portugal para conseguir lançar este produto?
Estamos em negociações, em breve anunciaremos novidades!

Atualmente, o que pode esperar da Air Doctor um viajante que precise de assistência médica fora do seu país de origem?
Um viajante pode esperar visitas domiciliárias, clínicas e telemedicina programadas dentro de 45 minutos, com uma variedade de especialistas. A aplicação proporciona aos viajantes, no caso de adoecerem no estrangeiro, acesso aos cuidados médicos de que necessitam. Depois de descarregada, basta procurar os médicos locais adequados, com a capacidade de filtrar de acordo com as línguas faladas, especialidade médica, proximidade, disponibilidade de consultas e outros fatores relevantes.

Outra particularidade é que se alguém estiver no seu país de origem e tiver um amigo ou familiar doente e sozinho no estrangeiro, é possível enviar-lhe um médico, tantas vezes quantas forem necessárias, diretamente para onde se encontram.

Como já mencionei, é possível optar entre consultas online e presenciais. As consultas online (telemedicina) estão disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana. Já as consultas presenciais estão disponíveis de acordo com o horário de trabalho e práticas operacionais individuais do médico, incluindo visitas a hotéis ou domicílios e consultas fora do horário de trabalho quando o médico as fornece.

Neste momento, a Air Doctor tem médicos em 75 países, incluindo alguns dos destinos turísticos mais populares, como os EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Rússia, China, Japão, Canadá, Índia, Austrália, Nova Zelândia, Israel, Tailândia, Argentina, México ou Nepal. Para além disso, a rede de médicos está sempre a crescer, contando atualmente com mais de 20 mil médicos na sua plataforma, incluindo médicos de clínica geral, pediatras, dentistas ou ginecologistas.

“A pandemia forçou a indústria a reavaliar o tratamento médico local disponível para os viajantes (…)”.

A tecnologia e a saúde vão continuar de mãos dadas? Qual o impacto (positivo ou negativo), da health tech na vida dos cidadãos e na reorganização dos próprios sistemas nacionais de saúde?
À medida que o mundo emerge da Covid-19, as pessoas retomaram as viagens com uma maior procura de seguros adequados, que garantam soluções digitais. A pandemia forçou a indústria a reavaliar o tratamento médico local disponível para os viajantes, colocando-a de mão dada com a tecnologia.

A Air Doctor assumiu como propósito eliminar barreiras entre seguradoras, médicos e turistas… que desafios têm enfrentado neste processo? Tem sido fácil desenvolver uma start-up neste segmento?
O principal desafio foi a integração dos sistemas informáticos das seguradoras, que nos permitem reconhecer automaticamente o cliente e oferecer o pacote adequado à sua medida.

Alargar a atuação da Air Doctor a outros segmentos que não os turistas/viajantes é uma possibilidade?Lançámos um piloto em Israel com a seguradora The Phoenix para oferecer o produto Air Doctor a clientes com seguro de saúde privado. Temos criado uma forte comunidade de médicos e especialistas em todo o mundo, para lhes oferecer melhores soluções digitais como parte do nosso futuro roadmap.

O que ainda lhe falta fazer? O que ambiciona para este projeto?
O nosso objetivo é tornar os cuidados médicos acessíveis a todos, em todo o lado, numa questão de minutos. Mais indivíduos optam por viajar quando sabem que têm uma resposta médica adequada. Além disso, mais médicos querem expandir os seus serviços e alcançar um público mais vasto, e mais empresas de seguros compreendem que os viajantes de hoje em dia dão prioridade à sua saúde e segurança e querem modificar os seus serviços adequadamente.

A construção da nossa rede de parceiros e investidores será um esforço contínuo, bem como o aumento das nossas capacidades de pesquisa e de desenvolvimento e ativação do utilizador final. Estamos também atentos para encontrar novos membros de equipa que estejam interessados em juntar-se a um arranque excitante que se está a expandir globalmente.

Alguma ronda de investimento no horizonte?
Estamos a planear a nossa próxima ronda em 2023. A intenção é expandir dentro do mercado americano e adicionar produtos para melhor servir os nossos médicos e parceiros OTAs (agência de viagens online).

Respostas rápidas:
O maior risco: A pandemia de Covid-19.
O maior erro: Temos percorrido um longo caminho e já tivemos de tomar grandes decisões, contudo, acredito realmente que todos os erros que se cometem são oportunidades para aprender e crescer, depois, segue-se em frente. Só consigo mesmo lembrar-me das maiores oportunidades.
A maior lição: No contexto da guerra, oferecemos assistência médica à população da Ucrânia e aos refugiados. Decidimos lançar isto depois de um dos nossos funcionários – cuja família se encontra na Ucrânia – necessitar de assistência médica para o seu pai. Por isso, decidimos oferecer telemedicina na Ucrânia e cobrir os custos da consulta. Por fim, muitos médicos começaram a oferecer voluntariamente os seus esforços. Agora, juntámo-nos ao grupo de Zurique, que cobrirá os custos da medicação.
Aprendemos que quando se está a fazer a coisa certa, outros se juntam a nós e, eventualmente, aumentará a confiança e o empenho das pessoas.Tudo o que os ucranianos precisam de fazer é guardar o Whatsapp deste número: +972541465157 – e deixar o seu nome, a razão pela qual procura aconselhamento médico, detalhes de contacto e a língua que preferem. Depois, mapeamos um médico disponível, que fará uma chamada de vídeo.
A maior conquista: Obviamente, o nosso maior desafio era lançar um serviço orientado para os viajantes numa época em que as viagens eram essencialmente inexistentes. Mas rapidamente mudámos o nosso foco e começámos a expandir a nossa rede de médicos e parceiros comerciais. Aproveitámos o desafio e esta tornou-se a nossa realização mais importante.
Também compreendemos que já ninguém viaja sem ter uma solução médica conhecida, no caso de algo acontecer no estrangeiro. As pessoas querem sentir-se seguras, especialmente após a pandemia.
Também desenvolvemos o nosso serviço de telemedicina durante o período pandémico. Compreendemos que as pessoas têm medo de ir a instalações médicas e preferem, por questões menores, ter uma videochamada com um médico. Ativámos a nossa rede já existente com médicos de telemedicina formados e podemos agora fornecer este serviço em 21 línguas, 24 horas por dia, 7 dias por semana, e com a capacidade de prescrever localmente na maioria dos casos.

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