Entrevista/ “O futuro da engenharia está na capacidade de fundir conhecimento técnico com tecnologia de ponta”

João Costa, sócio fundador e Head of Digital Business Unit da Quadrante

A Quadrante está a transformar a engenharia em Portugal e no mundo, integrando tecnologia, dados e inteligência artificial em projetos de grande escala. Em entrevista, João Costa, sócio fundador e responsável pela Digital Business Unit, explica como a digitalização e os gémeos digitais estão a criar infraestruturas mais inteligentes, eficientes e sustentáveis.

Com presença em mais de 25 países e quatro continentes, a Quadrante aposta na fusão entre conhecimento técnico e tecnologia de ponta para gerar valor ao longo de todo o ciclo de vida dos ativos. A recente integração das empresas espanholas Meta Engineering e Izharia reforça a sua dimensão internacional e capacidade de inovação. Até 2028, a empresa estima ultrapassar os 250 milhões de euros de faturação e aumentar a sua equipa, consolidando o crescimento no mercado global.

A Digital Business Unit da Quadrante lidera esta transformação, aplicando soluções como o BIM (Building Information Modeling), IoT, GIS e inteligência artificial em projetos estratégicos de Energia, Mobilidade e Cidades Sustentáveis, e posicionando Portugal como um hub de excelência tecnológica no setor da engenharia. Entre os seus projetos de referência no país, destacam-se a nova linha de Metro no Porto, a Gigafactory de baterias de lítio em Sines, o novo Pier Sul do Aeroporto Humberto Delgado, o Novo Hospital Lisboa Oriental / Hospital de Todos-os-Santos e o Novo Centro de Arte Moderna Gulbenkian.

É Founding Partner da Quadrante e lidera atualmente a Digital Business Unit. Pode contar-nos um pouco sobre o seu percurso e o que o motivou a apostar na vertente digital da engenharia?

Com a fundação da Quadrante, assumi um compromisso claro com a integração estratégica da tecnologia na engenharia. Desde cedo percebi que a nossa capacidade de gerar valor enquanto empresa não podia esgotar-se na fase de conceção — teria de se estender a todo o ciclo de vida dos ativos. A criação da Digital Business Unit surgiu como evolução natural dessa visão. Num momento em que o setor ainda despertava para o potencial dos dados, dos modelos digitais e da inteligência artificial, decidimos posicionar-nos na linha da frente, enquanto parceiros estratégicos na transformação dos nossos clientes.

O foco sempre foi claro: traduzir complexidade com clareza, transformar dados em inteligência e apoiar decisões mais informadas, eficientes e sustentáveis. Hoje, mais do que nunca, acredito que o futuro da engenharia está na capacidade de fundir conhecimento técnico com tecnologia de ponta — e de o fazer com visão, método e impacto.

“A transição digital está a transformar setores estratégicos da economia, mas no caso da engenharia e construção ainda estamos numa fase bastante inicial”.

A tecnologia está a transformar setores estratégicos da economia – no caso da construção e da engenharia, em que medida esta transição digital já é visível no terreno?

A transição digital está a transformar setores estratégicos da economia, mas no caso da engenharia e construção ainda estamos numa fase bastante inicial desse percurso. Há uma tendência recorrente de confundir digitalização com a mera adoção de ferramentas tecnológicas. No entanto, o que verdadeiramente importa — e onde reside o potencial transformador — é a adoção de novos modelos operacionais baseados em dados, interoperabilidade e inteligência analítica.

Quando comparamos o setor em que atuamos, da engenharia, com setores como os media, a banca ou a indústria musical, onde a disrução digital alterou radicalmente modelos de negócio, é evidente que a construção ainda opera segundo lógicas muito semelhantes às de há 20 ou 30 anos. Esta constatação é, ao mesmo tempo, um sinal de atraso e uma oportunidade extraordinária. Existe um espaço claro para gerar valor — através da aplicação inteligente de tecnologia, da ativação de dados operacionais e da criação de ecossistemas digitais que conectem, em tempo real, todos os intervenientes num projeto.

O setor tem agora a oportunidade de dar um salto qualitativo, desde que haja visão estratégica, capacidade de execução e um compromisso claro com a mudança.

Quais são as tecnologias mais disruptivas a impactar hoje o setor da construção e da engenharia? (IA, gémeos digitais, BIM, análise de dados, IoT, etc.)

Na minha perspetiva, o BIM (Building Information Modeling) ainda é uma das tecnologias mais disruptivas. Não tanto pelo seu aspeto 3D, mas pela capacidade de organizar dados de forma integrada e consistente ao longo de toda a cadeia de valor. O verdadeiro potencial do BIM está na criação de uma infraestrutura de dados robusta, que serve de base para múltiplos usos – do projeto à operação e manutenção.

Mais do que uma ferramenta, o BIM é o ponto de partida para uma transformação profunda na forma como concebemos, construímos e gerimos infraestruturas. Quando combinado com tecnologias geoespaciais (GIS), sensores IoT (Internet of Things) e plataformas de análise de dados e inteligência artificial, o BIM deixa de ser apenas um modelo técnico e torna-se o centro de um ecossistema digital interligado. Um ecossistema que permite simular cenários complexos, antecipar riscos, otimizar recursos em tempo real e, acima de tudo, gerar valor de forma contínua e mensurável.

“Temos como exemplo recente o MEO Arena, que, em colaboração com a Quadrante, se prepara para uma nova era digital”.

Fala-se cada vez mais de “infraestruturas inteligentes” e de “edifícios conectados”. O que significa, na prática, tornar um projeto “mais inteligente” e “mais orientado para o utilizador final”?

Na Quadrante, entendemos uma infraestrutura inteligente como um ativo que prolonga a sua ‘vida digital’, para além da fase de projeto, mantendo uma relação contínua com a sua realidade física ao longo do tempo. É esse o princípio que orienta a nossa abordagem aos gémeos digitais. Imagine uma réplica virtual exata de um edifício, uma ponte, uma cidade inteira ou até mesmo de um sistema complexo.

Esta réplica não é estática; ela está viva. Está ligada em tempo real ao seu ‘irmão’ físico através de sensores, sistemas de informação e outras fontes de dados. Tudo o que acontece no mundo real – a temperatura de uma sala, o tráfego numa estrada, o consumo de energia de um equipamento – é refletido e atualizado instantaneamente no seu gémeo digital.

Temos como exemplo recente o MEO Arena, que, em colaboração com a Quadrante, se prepara para uma nova era digital. Todos os detalhes técnicos e arquitetónicos do MEO Arena foram reunidos num modelo navegável e permanentemente atualizado, pronto para receber, num futuro próximo, dados em tempo real que irão revolucionar a forma como o edifício é gerido.

Como é que a Quadrante tem integrado estas soluções nos seus projetos? Pode dar-nos exemplos concretos de aplicação de tecnologia em áreas como Energia, Mobilidade ou Cidades Sustentáveis?

Na Quadrante, temos vindo a integrar estas soluções digitais em diferentes setores, sempre com uma lógica de continuidade e geração de valor ao longo de todo o ciclo de vida do ativo. Na área da Energia, recorremos à nossa plataforma geoespacial para apoiar a fase de viabilidade e licenciamento de projetos, através de análises multicritério que conjugam condicionantes territoriais, impacto ambiental, critérios ESG e perspetivas de ciclo de vida.

Durante a fase de construção, utilizamos imagens de satélite, drones e recolha de dados em campo para assegurar uma monitorização remota eficiente, aumentando o controlo sobre o avanço da obra. Já na operação, é o gémeo digital que assume um papel central, o que contribuir para otimizar o desempenho, suportar decisões críticas e prolongar a vida útil dos ativos.

Em Mobilidade, aplicamos uma lógica semelhante: conectamos dados desde a fase de planeamento até à exploração dos sistemas de transporte, garantindo coerência da informação, capacidade preditiva e suporte à decisão em tempo real. No domínio das Cidades Sustentáveis, os gémeos digitais tornam-se verdadeiras plataformas de gestão integrada. Seja em edifícios residenciais ou escritórios, centros comerciais, hotéis, aeroportos ou estádios, estas réplicas digitais funcionam como repositórios vivos de informação, integrando sistemas como SCADA, BMS e IoT, e agregando toda a documentação técnica e operacional num ecossistema centralizado e interativo.

Temos também planos para expandir esse ecossistema com a incorporação de inteligência artificial e machine learning. Estas tecnologias permitirão análises preditivas, simulação de cenários e automatização de processos de decisão, reforçando a resiliência, eficiência operacional e capacidade de adaptação dos ativos aos desafios do futuro.

“O nosso foco está em garantir que a tecnologia se torna verdadeiramente útil e relevante para quem gere e explora os ativos. Essa é a ambição da unidade digital (…)”.

A criação de uma Digital Business Unit é uma aposta estratégica. Que papel desempenha esta unidade dentro da Quadrante e que competências conjuga?

Esta unidade tem como missão prolongar o valor gerado na fase de projeto para a vida útil do ativo, transformando o conhecimento que temos sobre as infraestruturas que desenhamos em soluções digitais que ajudam os nossos clientes a operar melhor, com mais eficiência, inteligência e resiliência. É aqui que materializamos a nossa visão de engenharia orientada a dados.

A unidade agrega competências altamente especializadas em áreas como desenvolvimento de software, ciência de dados, integração de sistemas, BIM, GIS e machine learning, permitindo-nos criar plataformas personalizadas que respondem aos desafios operacionais de cada cliente, setor e território. O nosso foco está em garantir que a tecnologia se torna verdadeiramente útil e relevante para quem gere e explora os ativos. Essa é a ambição da unidade digital: ligar o conhecimento técnico à performance real, com impacto tangível na gestão e operação das infraestruturas.

Esta transformação tecnológica exige uma nova forma de trabalhar e colaborar. Como é que a Quadrante está a preparar as suas equipas para este novo paradigma?

A transformação digital não se concretiza apenas com tecnologia. Esta exige uma alteração estrutural na forma como trabalhamos, colaboramos e articulamos competências. Na Quadrante, essa mudança tem vindo a ser preparada de forma consistente, com equipas especializadas em infraestruturas IT, desenvolvimento aplicacional, data science e BIM, que colaboram de forma integrada há vários anos.

Mais recentemente, demos um passo estratégico com a criação desta unidade dedicada ao desenvolvimento de soluções digitais e à geração de novo negócio. Estruturámos um modelo operativo que combina talento interno com parcerias especializadas, permitindo-nos escalar com agilidade e responder com profundidade técnica aos desafios que enfrentamos.

Adicionalmente, promovemos uma cultura de formação contínua, colaboração multidisciplinar e partilha de conhecimento, conscientes de que a capacidade de inovar depende diretamente da maturidade com que as equipas integram a tecnologia nos processos do quotidiano.

“Nas fases iniciais, os gémeos digitais permitem incorporar análises de ciclo de vida, estudos de impacto ambiental e simulações adaptadas a cenários extremos (…)”.

De que forma a tecnologia está a contribuir para melhorar a sustentabilidade dos projetos, tanto na fase de conceção como na operação e manutenção?

Nas fases iniciais, os gémeos digitais permitem incorporar análises de ciclo de vida, estudos de impacto ambiental e simulações adaptadas a cenários extremos, como alterações climáticas ou riscos naturais. Este tipo de abordagem favorece decisões de projeto mais informadas, resilientes e alinhadas com os objetivos de sustentabilidade. Já durante a construção e, sobretudo, na fase de operação, é possível monitorizar em permanência indicadores críticos como emissões de CO₂, consumo energético, ruído, qualidade da água e do ar. A par disso, a aplicação de modelos preditivos e regimes de manutenção preventiva poderá reduzir falhas, prolongar a vida útil dos ativos e otimizar a gestão de recursos.

O que é que os clientes da Quadrante mais valorizam quando se integram soluções digitais? A eficiência? A previsibilidade? O retorno económico?

Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares. O nosso pitch assenta basicamente num conjunto dessas características. Se tivesse de dar uma resposta única, eu diria o retorno económico, mas muitas vezes, em infraestruturas críticas como as que nós projetamos a lógica é mais manter a fiabilidade, ou estender vida útil das infraestruturas.

O nosso ponto de partida é sempre o mesmo: compreender, com profundidade, o que está verdadeiramente em causa para o cliente. A partir daí, desenhamos soluções digitais ajustadas ao contexto real, orientadas para os resultados que verdadeiramente importam — seja eficiência, fiabilidade, longevidade dos ativos ou retorno económico sustentado.

Quais são, na sua opinião, as tendências tecnológicas que vão marcar o futuro do setor nos próximos 5 a 10 anos?

Nos próximos anos, acredito que veremos a consolidação do BIM e do GIS como arquiteturas de dados estruturantes para a integração da informação em projetos complexos. Estes sistemas vão afirmar-se como a base de uma abordagem cada vez mais colaborativa, interoperável e orientada para o ciclo de vida dos ativos.

Paralelamente, a generalização de sistemas de apoio à operação e manutenção irá transformar profundamente a forma como gerimos infraestruturas. A adoção de tecnologias como inteligência artificial, machine learning e análises preditivas permitirá antecipar falhas, otimizar recursos e elevar os níveis de fiabilidade e eficiência operacional.

“Portugal tem vindo a afirmar-se como um centro de excelência técnica e de inovação, com engenheiros e arquitetos altamente qualificados (…)”.

A Quadrante tem uma forte presença internacional. Que papel pode Portugal (e as empresas portuguesas) assumir nesta transformação global do setor?

Portugal tem vindo a afirmar-se como um centro de excelência técnica e de inovação, com engenheiros e arquitetos altamente qualificados e uma crescente maturidade digital. Apesar da dimensão do mercado interno, as empresas portuguesas têm demonstrado uma notável capacidade de adaptação.

A Quadrante é um reflexo claro desta realidade. A nossa presença em mercados internacionais exigentes resulta da combinação entre rigor técnico, agilidade operacional e uma abordagem pragmática na aplicação de tecnologia ao serviço da engenharia. Portugal pode, efetivamente, assumir um papel de referência na transformação digital do setor.

Que conselhos daria a jovens engenheiros ou arquitetos, ou para líderes de projeto que ainda estão a dar os primeiros passos na digitalização?

O melhor conselho que posso dar é para garantirem que os dados com que trabalham estão corretos, organizados e atualizados, uma vez que a qualidade da informação é a base para qualquer sistema digital eficaz. Investir numa boa arquitetura de dados e num processo rigoroso de curadoria é fundamental para retirar valor real das ferramentas digitais.

Além disso, é importante manter uma mente aberta face à inovação, estar continuamente a aprender e colaborar com equipas multidisciplinares, uma vez que a digitalização exige competências variadas e uma visão integrada do projeto e do seu ciclo de vida.

Comentários

Artigos Relacionados