Entrevista/ “O fracasso não é fatal e o sucesso não é para sempre”

Patrick Lor, Managing Partner da Panache Ventures

Sócio e diretor da venture capital canadiana Panache Ventures, Patrick Lor já esteve ligado ao fundo de investimento 500 Startups Canadá e a muitos outros projetos de dimensão internacional. No início deste mês esteve em Lisboa como mentor do programa de empreendedorismo European Innovation Academy e o Link To Leaders entrevistou-o.

Patrick Lor é sócio-gerente da Panache Ventures, no Canadá, cofundador da iStockphoto e ex-presidente da Fotolia North America. Tem um currículo invejável no campo do empreendedorismo e do venture capital tendo sido inclusive sócio da 500 Startups Canadá. Ainda tem tempo para ser mentor no programa internacional de empreendedorismo European Innovation Academy e foi nessa qualidade que esteve em  Portugal, no início de julho, para partilhar o seu conhecimento de estratégia com 500 estudantes vindos de todo o mundo, que tinham com desafio criar 100 start-ups em 15 dias.

No âmbito da sua experiência em estratégia falámos com Patrick sobre as necessidades das empresas e das start-ups numa altura em que é crítico sobreviver num mercado em rápida mudança.

Que expetativas tinha sobre a Academia Europeia de inovação?
Esperava ver centenas de estudantes empreendedores entusiasmados e conhecer coaches apaixonados por orientar esses alunos ao longo do processo de desenvolvimento da empresa. E foi ótimo ver que nossos jovens estão trabalhar com uma mentalidade de “mudar o mundo” – querem construir negócios sustentáveis que sejam ambiental e socialmente responsáveis, que tenham impacto numa escala global. Os mentores estão a ajudar os alunos a pensar ainda maior.

“(…) a maior lição que ser empreendedor me ensinou é que a resiliência e a persistência são traços que levarão ao sucesso.”

Que mensagens partilhou com eles?
Acho que é importante para os alunos ouvir que não faz mal falhar, mas nunca deixar que o fracasso esmague a sua alma. Ou seja, o fracasso não é fatal e o sucesso não é para sempre. O empreendedorismo é difícil, e a maior lição que ser empreendedor me ensinou é que a resiliência e a persistência são traços que levarão ao sucesso.

O que é “Pivoting”? Quando devem as empresas implementar esta estratégia no seu negócio de forma eficaz para não comprometerem o seu futuro?
O Pivoting consiste em ajustar a nossa estratégia à medida que se encontra bloqueios na construção do negócio. O programa EIA ensina os jovens empreendedores a desenvolver as fundações, para que eles não tenham de fazer isso muitas vezes. Todas as empresas têm de reajustar – às vezes pequenos reajustes, outras grandes. A chave está em desenvolver um processo de comunicação eficaz para que todas as partes interessadas sejam envolvidas – conselheiros, investidores, assim como os membros da equipa.

“Nunca sabemos que empresas serão bem-sucedidas. Muitas vezes, é a empresa com uma ideia louca que pensámos que nunca fosse funcionar.”

Atualmente, o Patrick é sócio-gerente da Panache Ventures- um fundo de investimento focado em start-ups SaaS, fintech e AI. Quais são as principais surpresas, em termos de inovações, que se adivinham  neste negócio?
Não tenho a certeza se seremos surpreendidos porque os dados dizem-nos que as hipóteses de sucesso em investimentos empresariais é muito baixa (os estudos mostram que 65% dos empreendimentos financiados por  VC não conseguem devolver o capital original aos investidores). Nunca sabemos que empresas serão bem-sucedidas. Muitas vezes, é a empresa com uma ideia louca que pensámos que nunca fosse funcionar. Então, aprendemos a abrir a nossa mente para a possibilidade de que tudo é possível.

Anteriormente, foi cofundador da iStockphoto, cofundador da Dissolve e diretor das operações norte-americanas da Fotolia… Enquanto empreendedor, o que trouxe dessas experiências?
As lições aprendidas como empreendedor foram: número um, é mais difícil do que parece. Visto de fora, parece que você tem toda a liberdade do mundo para contratar funcionários e decidir sobre os produtos que faz, mas na realidade é uma panela de pressão. É um mundo onde clientes, investidores e funcionários devem fazer parte do processo de tomada de decisão. Número dois, bons conselhos são difíceis de obter. A maioria das pessoas dar-lhe-á incentivo ou será crítico, mas muito poucos lhe dão conselhos honestos ou um feedback que o ajude a crescer como empreendedor. Eu aprendi como envolver os melhores mentores, fazendo perguntas melhores e dando um melhor feedback.

Como surgiu esta oportunidade de integrar as 500 Startups?
Levantamos um fundo 23 milhões dólares canadianos (cerca de 16 milhões de euros) com a 500 Startups Canadá, e investimos em 36 empresas. Atualmente, quatro delas têm avaliações de mais de 100 milhões USD ( 20 milhões de euros). Fizemos a nossa aprendizagem com a 500 Startups e criamos um novo fundo de 45 milhões de euros, a Panache Ventures, e refinamos nossa estratégia de investimento. Até agora, fizemos 47 investimentos no fundo atual.

Que tendências mundiais perspetiva para os próximos anos?
Penso que continuaremos a ver a automatização em todos os setores, temas geralmente denominados de “a automatização de tudo” ou “o futuro do trabalho”.

Como analisa a realidade dos fundos do Canadá, comparativamente com o ambiente europeu?
O ecossistema canadiano de start-ups tem uma enorme vantagem sobre a Europa por causa da semelhança de cultura e da proximidade a um dos maiores mercados do mundo  – os EUA. Temos os mesmos fusos horários, a mesma língua, partilhamos os mesmos sistemas de comunicação, por isso é fácil para nós fazer protótipos, lançá-los no Canadá e escalar nos Estados Unidos.

Qual pode ser o papel da Panache Ventures nos ecossistemas globais de empreendedorismo?
O nosso papel é ajudar as empresas a escalar para série A, ajudá-las a estabelecer os produtos e adaptá-los ao mercado na América do Norte, não importa de onde eles sejam. Na maioria das empresas que têm escalado com sucesso globalmente, 60% das suas receitas derivam dos EUA, 5% do Canadá e 35% do resto do mundo.

Os investimentos em Portugal são possíveis?
Os investimentos são possíveis em qualquer lugar, desde que haja um plano viável para escalar a empresa globalmente.

O que é preciso para se ser um empreendedor global?
Há muitos traços para se ser um grande empreendedor, mas há três características que eu procuro: empatia – um grande empreendedor sabe o que seus funcionários e clientes estão a sentir; resiliência – grandes empreendedores podem lidar com os altos e baixos emocionais da construção de um negócio; desenvoltura – pessoas que conseguem fazer coisas onde outros falharam ou que encontraram maneiras de ganhar mais insights sobre uma indústria do que qualquer outra pessoa.

“O objetivo não é sobre como ser bem sucedido no mundo de hoje, é como ter sucesso no mundo daqui a cinco anos.”

O que devem as empresas e as start-ups fazer para sobreviver numa altura em que o mercado está a mudar tão rapidamente?
Têm de olhar para além do que já foi feito e fazer uma avaliação bem formado sobre o futuro. O objetivo não é sobre como ser bem sucedido no mundo de hoje, é como ter sucesso no mundo daqui a cinco anos. Aconselho os empreendedores a tornarem-se futuristas em part-time e a olharem para pessoas como Ray Kurzweil e Elon Musk.

O Patrick é um investidor ativo. Quais são os principais problemas que encontra na relação com as start-ups?
Acho que a maioria das pessoas não entendem o quanto demora para construir um negócio. Mesmo muitos de nós, por vezes, esquecemo-nos disso. Então, acho que todos nós poderíamos ser um pouco mais pacientes com o processo e concentrarmo-nos em construir empresas que duram, ao invés de pensar apenas em métricas de desempenho de curto prazo.

Como sócio da Panache Ventures, quais são, neste momento, as suas principais preocupações sobre o futuro da inovação? O procura em termos de investimento?
Em geral, acho que o mundo está cheio de grandes ideias e que criou informação e produtos em excesso. Tornou-se realmente duro e caro estar na frente dos clientes. Como resultado, olhamos para as empresas que  têm grandes pessoas e produtos, mas eles também têm que ter um grande plano de GTM (Go to Market).

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