O setor económico vive um clima de incerteza, mas, apesar de tudo, as empresas focam-se no futuro da saúde, no bem-estar financeiro e nas carreiras dos seus colaboradores.  Estas conclusões são do mais recente estudo da Mercer.

A forma como as empresas estão a trabalhar, a nível mundial, mudou radicalmente nas últimas semanas, fruto da declaração de pandemia na sequência do Covid-19. Os líderes enfrentam tempos desafiantes na gestão de negócios e de colaboradores. Perante esta mudança mundial, o estudo “Global Talent Trends 2020”, da Mercer, identificou quatro tendências para que as empresas prosperem focando-se nas pessoas, numa altura em que a forma como trabalhamos se encontra em rápida transformação. O estudo partilha ideias de mais de 7.3000 executivos de negócios, líderes de Recursos Humanos e colaboradores, fornecendo um conhecimento em nove setores-chave de 16 geografias.

Para o CEO da Mercer Portugal, Diogo Alarcão, “é importante que se encontre um equilíbrio entre os aspetos económicos e o foco nas pessoas em todas as decisões que devam ser tomadas, principalmente agora, que enfrentamos perguntas, preocupações e a incerteza de uma pandemia global. As empresas precisam de ter um modelo financeiro e uma cultura que lhes permita preparar-se e investir no futuro”. Diogo Alarcão refere ainda que esse “repensar de objetivos e prioridades é vital e transversal a qualquer empresa, mas especialmente para a área dos Recursos Humanos. As conclusões do estudo deste ano deixam claro que a transformação da função de RH é uma componente essencial para a criação de uma organização sustentável”.

Foco no futuro
Com uma nova forma de olhar para os negócios, 85% dos executivos concorda que o “propósito” de uma organização deve-se estender para além dos acionistas, mas apenas 35% das empresas o cumprem. Um em cada três colaboradores diz que prefere trabalhar para uma empresa que mostre responsabilidade para com todas as partes interessadas e não apenas para com os acionistas e investidores.

Por outro lado, grande parte do sucesso de uma empresa depende também da forma como consegue apoiar e desenvolver talento e ainda da sua capacidade de manter um negócio sustentável. Esta é uma prioridade para 68% dos executivos, e o estudo revela que o seu foco irá concentrar-se, sobretudo, em metas ambientais, sociais e de governance (ESG).

Por seu turno, 61% dos colaboradores confia que a sua organização irá prepará-los para o futuro do trabalho e 63% sentem-se à beira de entrar em “burnout”. Já 72% dos colaboradores mais experientes revela que planeia trabalhar após a idade de reforma e 55% dos colaboradores que integram a Geração X diz que as oportunidades de avançar na carreira dependem da longevidade no local de trabalho.

Na maioria das regiões abordadas pelo “Global Talent Trends 2020”, os requisitos mais valorizados a nível profissional pelos colaboradores são as oportunidades de crescimento pessoal e profissional (73%).

Na Ásia, ter conhecimento das capacidades que se tornarão importantes ou obsoletas no futuro é uma prioridade para 71% dos colaboradores, enquanto que no continente Africano, 72% dos colaboradores valorizam gestores com capacidade de ter conversas úteis para a carreira, independentemente da fase da vida. No Canadá, 82% refere que o conteúdo de aprendizagem das suas empresas se enquadra nas qualificações necessárias para o futuro.

No caso europeu, quando inquiridos sobre os requisitos mais valorizados na promoção da carreira, 67% dos colaboradores revela o facto da empresa lhes dar a oportunidade de crescer tanto a nível pessoal como profissional; 65% indica ser importante a sua empresa ter noção das suas capacidades, interesses e das suas áreas de melhoria a nível de competências; 65% refere o conhecimento de que competências são necessárias no futuro e/ou quais poderão estar em risco de ficar obsoletas; e 64% considera a possibilidade de fazer formação adequada às competências de futuro.

Transformação de competências
A requalificação dos colaboradores é o investimento mais propenso a gerar sucesso nos negócios, sendo que 99% de todas as organizações afirma estar a apostar nesta matéria. Contudo, a falta de habilitações é apontado pelo estudo como um dos principais motivos pelo qual as transformações falharam. Embora 78% dos colaboradores diga estar preparado para adquirir novas competências, 38% afirma que não tem tempo suficiente para aprender. Por outro lado, 34% dos líderes de recursos humanos estão a investir na requalificação dos colaboradores, como parte da estratégia de implementação do futuro do trabalho, mas 40% não sabe quais as habilitações que a sua equipa possui atualmente.

Em todas as regiões, os colaboradores dizem que a inovação será a competência mais requisitada no próximo ano. Em regiões como África, Europa, Médio Oriente, Pacífico, os líderes de RH valorizam mais o marketing digital e a análise de dados. Na Alemanha, os colaboradores e líderes de RH também concordam que o Marketing Digital é umas das principais prioridades.

A ciência e Intuição
Os avanços na inteligência computacional continuam a ser prementes em todos os setores e modos de vida: o uso da análise preditiva quase quadruplicou em cinco anos, passou de 10%, em 2016, para 39%, atualmente. Contudo, o “Global Talent Trends 2020” destaca que apenas 43% das empresas usam medidas para identificar colaboradores com probabilidade de sair; 41% sabe quando é que alguém importante para a empresa se irá reformar; 18% conhece o impacto das estratégias salariais no desempenho; 15% consegue determinar se é melhor contratar colaboradores, e 12% estão a recorrer a dados analíticos para corrigir desigualdades e impedir que estas ocorram.

Apesar de 67% dos líderes de recursos humanos afirmarem estar confiantes de que conseguem garantir que a Inteligência Artificial não irá criar enviesamentos, os códigos de ética sobre recolha e aplicação de dados de pessoais ainda continuam, em muitos casos, nos primórdios.

Potenciar a experiência
Garantir uma experiência positiva e que faça sentido aos colaboradores é a principal prioridade dos recursos humanos e 58% das empresas estão a reestruturar-se para se centrarem mais nas pessoas. Mas apesar desta aposta, apenas 27% dos executivos acreditam que a experiência dos colaboradores trará um retorno comercial.

Por outro lado, embora 61% dos colaboradores confie na empresa para cuidar do seu bem-estar, e 48% dos executivos classifiquem essa área como uma das principais preocupações da força de trabalho, apenas 29% dos líderes de RH têm uma verdadeira estratégia de saúde e bem-estar.

Segundo o estudo, esta área não deve ser desconsiderada porque as empresas que se focam na saúde e bem-estar de todos têm quatro vezes mais probabilidade de prosperar. Além disso, os colaboradores mais motivados são essenciais para a transformação das empresas: são mais propensos a não sair da empresa, são mais resilientes e mais propensos a adquirir novas qualificações.

Em suma, a transformação dos recursos humanos está no topo das prioridades das empresas e 40% dos responsáveis dizem ter uma estratégia integrada nesse domínio.

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