O autor do Cisnes Negros refere noutro dos seus livros, o Antifrágil, que a incerteza é algo desejável e mesmo necessário para se evoluir. Ele defende a existência de três tipos de sistemas: robusto, frágil e antifrágeis. Os sistemas frágeis perdem com a volatilidade, os sistemas robustos resistem, e os sistemas antifrágeis, melhoram com a volatilidade e com a incerteza.

Ao longo da história, vemos que os seres humanos estão desenhados para lidar bem com a volatilidade. É em momentos de incerteza, de guerra, ou de grandes desafios que ganhamos maior foco e mais determinação, que somos chamados a dar o nosso melhor e nos superarmos, é neste momento que evoluímos verdadeiramente e ganhamos experiências transformadoras.

Empreendedores, bons líderes e investidores de capital de risco, pertencem por natureza ao sistema antifrágil, pois estão habituados a lidar com mais incerteza e a navegar com agilidade e rapidez para encontrar melhores soluções e os recursos necessários, e para adaptar a estratégia à medida que avançam na incerteza.

É nos tempos difíceis que se testa a qualidade das lideranças e das equipas, e atravessamos um dos momentos coletivos mais complexos a nível global, que pelo menos a minha geração conheceu.

Este é um momento para aceitar o caos e alterar as dinâmicas de trabalho com agilidade e criatividade, sendo crítico atuar com tranquilidade e bom senso. É crucial agir rápido, intensificar a comunicação com as equipas, estar próximo dos nossos clientes com maior empatia, e passar confiança aos nossos principais fornecedores e parceiros.

É também um momento para reforçar o esforço comercial, com novas estratégias e propostas de valor. É um momento para repensar o produto, adaptar a uma dinâmica mais online e digital, antecipar e (re)prioritizar os roadmaps de desenvolvimento e inovação, e otimizar os sistemas críticos da empresa.

É vital identificar os principais riscos e encontrar planos de contingência e mitigação para cada um deles. É muito importante estar atento às soluções e medidas de estímulo que estão a ser criadas, antecipar necessidades de tesouraria, renegociar linhas de financiamento e replanear pagamentos mais críticos, como ao Estado, banca e principais fornecedores.

É urgente rever orçamentos, reafetar rubricas de custos, reduzir custos e congelar contratações, cortar vínculos não críticos e se necessário negociar reduções de salários ou uma suspensão temporária. No entanto, é importante continuar a pagar aos fornecedores e colaboradores chave, para não contribuir para o pânico e para a bola de neve da recessão.

Com os sócios, é o momento de ter as conversas difíceis, repensar dividendos e antecipar solução para cenários mais dramáticos. É importante conseguir ganhar objetividade e pragmatismo e conseguir repensar profundamente a estratégia se necessário.

Num momento de crise é tempo para aumentar a transparência e a honestidade com todos, pois apenas assim se consegue um clima de confiança e de entreajuda.

Em momentos de crise, é determinante ter uma boa gestão, conseguir ganhar perspetiva, redefinir prioridades e focar no que é de facto mais importante e pode contribuir para a melhoria da empresa como um todo, com impacto nos colaboradores e clientes.

Para isso é importante reforçar a gestão com base em dados e informação atualizada e fidedigna, que possa ajudar a tomar decisões mais informadas e relevantes e a conseguir ter novos insights e perspetivas.

É também um momento para assumir as nossas limitações, reforçar parcerias e trabalhar de forma ainda mais colaborativa, envolvendo diferentes competências para uma estratégia comum e sinérgica.

Ninguém sabe o que vai acontecer. Apesar das medidas até agora anunciadas estarem aquém do necessário, quero acreditar que vão existir as medidas de estímulo necessárias para fazer face a este momento de grande incerteza e dificuldades económicas e financeiras.

É determinante manter a calma e mantermo-nos fiéis aos nossos valores e sabermos cumprir com as nossas obrigações enquanto empresários, líderes, parceiros e cidadãos, pois é na capacidade de resistir ao medo e ao pânico que está a base para uma capacidade coletiva para resolvermos este grande desafio comum. Precisamos de criar uma sociedade Antifrágil e de sair mais fortes para a recuperação económica que tanto vamos precisar.

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Sobre o autor

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Pedro Rocha Vieira é cofundador, presidente e CEO da Beta-i, uma organização de promoção de empreendedorismo e inovação, responsável por iniciativas como o Lisbon Challenge, Beta-Start, Beta-Innovation e Lisbon Investment Summit. É também codiretor e mentor do Seedcamp Lisboa, facilitador... Ler Mais