Entrevista/ “Fazer coisas contra a nossa vontade é muito perigoso”
“Somos seres que se relacionam, mas necessitamos de tempo de qualidade connosco próprios” ou “O divórcio é uma ferida na alma que precisa de ser curada” são duas das muitas visões partilhadas por Joana Carvalho, coach e autora do livro “Estado Civil: Divorciada”.
Natural do Porto, Joana Carvalho, 45 anos, é licenciada em Economia e trabalhou em contabilidade e auditoria em várias empresas. Atualmente, é líder de equipa num centro de serviços financeiros partilhados de uma multinacional, no Porto. Interessa-se pelo desenvolvimento contínuo de pessoas e de equipas e, talvez por isso, hoje também é coach pessoal e ajuda mulheres em processo pós-divórcio.
A partir da sua experiência pessoal de divórcio escreveu um livro sobre o tema onde fala de relacionamentos, pessoais e profissionais, e onde também aborda o eterno problema do equilíbrio entre vida pessoal/familiar, e o facto de hoje as pessoas já não se moverem apenas pelo rendimento – “e as empresas estão cada vez mais cientes disso”, explica.
O que a levou a escrever o livro “Estado Civil: Divorciada”?
Quando terminou a minha última relação em 2019 escrevi uma carta a mim mesma. Sempre que a lia sentia um aperto e uma dor enorme. Estava ali um testemunho vivo de uma mulher triste que, se nada fizesse, passaria por um sofrimento crescente. A pergunta era sempre a mesma: “O que vou fazer com isto?”. Quando me dei conta, já estava a escrever.
Inicialmente, a minha intenção foi de usar a escrita como terapia. Depois passou a um dever. Usar a minha experiência como um ponto de encontro com outras mulheres que, como eu, viram as suas relações terminadas.
Quais as principais mensagens que quer passar?
A principal mensagem é que ninguém está sozinho neste universo dos relacionamentos. Podemos ter percursos diferentes, nuances diferentes, mas todos sentimos as mesmas frustrações, os mesmos desafios, os mesmos medos e inseguranças, como também os impulsos, as paixões e o prazer. Quero passar uma mensagem de que a partir dos relacionamentos podemos retirar informação valiosa de nós mesmos e que, com isso, podemos avançar e crescer como seres humanos. Quero dar voz às mulheres que sentem que podem sair de uma relação e avançar. Quero também dar voz às mulheres que querem ficar nessas relações porque pretendem desenvolver-se dentro delas.
O livro está cheio de mensagens que tocarão mais ou menos no coração de quem o lê, dependo da experiência vivida. Mas o denominador comum é a motivação para se fazer diferente de um “status quo”, usando cada experiência como única, imbuindo-nos de amor e gratidão.
É possível ser-se bem-sucedida na carreira e no casamento nos dias de hoje?
Na minha opinião, claro que sim! Mas é importante perceber o que é “ser bem-sucedida”. Para mim o sucesso está nos pequenos detalhes, nas pequenas conquistas, no dia a dia que se vai gerindo e na enorme vontade em encontrar soluções. Para mim tem tudo a ver com propósito e de ser capaz de olhar e ver que tudo está a fazer sentido. Na carreira e no casamento falamos de relações interpessoais. Eu aprendi que vivo os mesmos desafios num ambiente ou noutro, e se tiver consciência disso consigo avançar nos dois.
“Somos seres que se relacionam, mas necessitamos de tempo de qualidade connosco próprios”.
Quais os desafios que se colocam hoje em dia aos casais para conseguirem equilibrar a vida pessoal e profissional?
Vivemos num sistema de exigências e quando damos conta já estamos sufocados. O tempo passou a ser um tick-tack constante e frenético. A energia que é consumida num ambiente ou noutro não é renovada. Quase que temos de pedir permissão para termos tempo a sós e muitas vezes esse pedido nem sempre é atendido/compreendido.
Somos seres que se relacionam, mas necessitamos de tempo de qualidade connosco próprios. As pessoas que entendem isto nem sempre são compreendidas e as pessoas que ainda não entenderam atropelam-se, não conseguem estar sozinhas e criam ainda mais ansiedade e velocidade. Paralelamente, há toda uma logística familiar que funciona com rotinas. Quebrar essas rotinas é desafiante, mas muitas vezes benéfica para trazer novidade. No meio disto tudo, os adultos ainda se estão a desenvolver. Acredito que é aqui que está um grande equívoco.
As relações não se fazem porque um dia nos sentimos atraídos por alguém e decidimos juntar-nos. As relações fazem-se para nos ajudarmos mutuamente. O equilíbrio é utópico, claro, mas vamo-nos equilibrando quando olhamos o outro que nos acompanha como alguém que está a fazer o seu melhor. A partir daí, acredito que as decisões a tomar são muito mais fáceis.
São as mulheres as mais penalizadas?
Sinceramente, não sei. Se falarmos da operacionalidade do dia a dia talvez possam ser. De acordo com a minha experiência eu vi-me penalizada porque me penalizei em primeiro lugar, e só o continuei a fazer porque deixei estar. Quando deixamos estar já não é o sistema ou o outro que nos penaliza, mas sim nós próprias. Continuamos aí nesse lugar por livre vontade, mesmo quando achamos que não temos opção. Encontramos mulheres com medo de estabelecer limites ou mesmo de os encontrar. A corda estica até ao infinito e não nos responsabilizamos por isso. Vejo muitas mulheres a fazerem diferente. Se querem alterar “o estado das coisas”, encontram soluções e passam a ser líderes da sua própria vida. Quero mais seguir este caminho. Não é um caminho fácil, mas nenhum caminho é fácil. Importa perceber que caminho se quer fazer.
O que mais pesa para desequilibrar a vida pessoal e a profissional?
Quando estamos contrariados. Fazer coisas contra a nossa vontade é muito perigoso.
“As pessoas já não se movem apenas pelo rendimento e as empresas estão cada vez mais cientes disso”.
Qual deve ser o papel das empresas neste equilíbrio ou na promoção deste equilíbrio?
Já são algumas empresas que olham para essa componente mais humana das organizações, criando ambientes onde as pessoas se podem manifestar mais, expressando o que mais as motiva e o que as move. Também já se assiste a uma maior flexibilidade para que os horários de trabalho se ajustem à logística familiar exigente.
Saber que a organização está interessada no bem-estar dos seus colaboradores já é um excelente indício. As pessoas já não se movem apenas pelo rendimento e as empresas estão cada vez mais cientes disso. Mas as empresas não podem fazer tudo. A promoção desse equilíbrio entre a vida profissional e pessoal tem de partir desse núcleo pessoal e familiar. É, sem dúvida, onde está a informação e onde se encontram as melhores soluções.
Não basta, por exemplo, a empresa disponibilizar um horário de trabalho flexível se em casa a família não se entende com a gestão das tarefas. Não basta a empresa disponibilizar um espaço onde o colaborador pode manifestar o que o move se esse colaborador não sabe o que realmente o move. A frustração e a contrariedade vão continuar.
Considera que o trabalho remoto pode ajudar a equilibrar estes dois lados ou pode piorar ainda mais as situações?
Já vivenciei vantagens e desvantagens do trabalho remoto, quer na vida pessoal, quer na vida profissional. Também já conheci pessoas que não gostam de trabalhar remotamente, mesmo quando é possível. Se por um lado o trabalho remoto permite diminuir o tempo de deslocações e facilitar na gestão das tarefas familiares, por outro, também facilita a confusão entre espaço pessoal e espaço profissional.
Não sou defensora de um sentido único. Sou mais defensora da pessoa poder perceber o que mais facilita esse equilíbrio e utilizar os recursos que a empresa disponibiliza. Acredito mais em as pessoas perceberem o que se passa na sua dinâmica familiar para assim tomarem melhores decisões. Uma solução para uma família pode não ser uma solução para outra. Acredito ainda mais em as pessoas terem clareza suficiente para saberem para onde querem ir na sua vida profissional, tomando melhores decisões. Para isto é necessária uma melhor comunicação, quer no ambiente familiar quer no ambiente profissional. É aqui que eu encontro mais desafios.
“Sugiro que a mulher trabalhe no sentido de aumentar a sua confiança para poder ser mais coerente, expressar melhor a sua opinião e estabelecer melhor os seus próprios limites”.
O que sugere para que as mulheres consigam melhorar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional?
Sugiro que a mulher trabalhe no sentido de aumentar a sua confiança para poder ser mais coerente, expressar melhor a sua opinião e estabelecer melhor os seus próprios limites. Sugiro que a mulher crie condições para ter tempo para cuidar dela própria e estar a sós consigo mesma. Sugiro que a mulher se dê aos prazeres do que a faz sorrir mais. Sugiro que a mulher procure ambientes positivos e que a ajudem a ter mais clareza de como quer viver a sua vida. Sugiro que a mulher tenha referências de outras mulheres que já percorreram esse caminho e que possam servir como modelo. Sugiro que a mulher se trabalhe a si mesma, porque uma mulher instalada na sua feminilidade saudável, influencia positivamente as pessoas que estão à sua volta e a vida fica mais suave.
A maioria dos casamentos dão origem a divórcio. O divórcio é a solução mais fácil para os problemas dos casais?
Sim, é verdade. A taxa de divórcio em 2021, de acordo com os últimos Censos, atingiu 59,5%. É um facto que faz pensar muito. Para responder à pergunta se o divórcio é a solução mais fácil, eu diria que o divórcio é a solução para alguns casamentos, mas o divórcio não é a única solução para outros. Não acredito em divórcios fáceis nem difíceis. Qualquer situação, ou de ficar ou de ir embora, pode originar algo fácil ou difícil. Para mim, por exemplo, o divórcio ou a separação, nunca foi a solução mais fácil, mesmo quando fui eu que decidi ir embora. E pela minha análise, quando alguém opta pelo divórcio por ser a solução mais fácil, vai encontrar no seu caminho circunstâncias muito parecidas que a levarão aos mesmos desafios, caso não faça por quebrar o ciclo.
Nesta questão de divórcio como solução eu pergunto “Solução para quê?”: para se sair de uma relação tóxica e/ou abusiva?, para se resolver incompatibilidades?, para se encontrar felicidade?, para se conseguir manifestar mais opinião e se ser mais autêntico? Porque cada situação é única, e continuo a dizer que não sou defensora de sentidos únicos. Depois de uma rutura há muito trabalho a fazer-se e uma reconstrução de vida a acontecer. Se é fácil para alguns pode ser difícil para outros. Generalizar, na minha opinião, é perigoso.
No entanto, podemos falar do consumo rápido dos casamentos. Os casais preferem sair a ficar em muitos dos casos porque querem conhecer uma outra realidade que esperam que seja diferente. Mas isso não significa que a solução de ir embora da relação seja mais fácil. Pode parecer, mas há um conjunto de circunstâncias que acontecem a partir daí que se podem revelar ainda mais difíceis do que se se tivesse optado por ficar.
Porque é que o divórcio ainda é visto como um fracasso pessoal?
Na minha opinião isso acontece porque se instalou um sistema onde se considera normal a pessoa casar-se, ter filhos e viver nessa relação para toda a vida. Se o divórcio acontece nessa equação é porque ou não se escolheu bem o companheiro ou companheira (fracasso) ou não se lutou o suficiente nessa relação (fracasso) ou nem se deveria ter casado porque estava tudo às claras e não se viu (fracasso). Enfim, isto apenas a título de exemplo. Mas esta norma está totalmente desajustada da realidade atual. Trata-se de um olhar romântico dos relacionamentos íntimos, completamente desajustado da realidade.
Os últimos registos (Censos 2021) demonstram que 8% da população está divorciada. É a primeira vez que a taxa é superior à taxa da população viúva. 59,5% dos casamentos dão origem a divórcio, como disse em cima. A sociedade ao olhar para este facto como fracasso não está focada em soluções. No meu entender, um enorme erro. Acredito que se nos focássemos em soluções, optando pelo lado mais prático e menos romântico dos relacionamentos, as pessoas teriam muito mais acesso a conhecimento para viverem melhor as relações e, principalmente, entenderem o que querem delas. Assistiríamos a pessoas mais maduras dentro das relações, permitindo que elas pudessem servir melhor os interesses das pessoas que delas fazem parte.
“(…) o conceito de burnout não está apenas relacionado com atividade profissional, mas também se aplica à esfera familiar”.
Qual o real impacto de um divórcio na vida das pessoas?
O divórcio é uma ferida na alma que precisa de ser curada. Trata-se de um processo doloroso, demora tempo e tem impacto na relação connosco próprios, nas relações pessoais, nos relacionamentos íntimos futuros e na própria carreira profissional. A pessoa, depois desse acontecimento, é empurrada para uma reconstrução da sua vida. Muitas decisões precisam de ser tomadas, é preciso participar em conversas difíceis, rotinas e hábitos precisam de ser reajustados, emoções e sentimentos precisam de ser geridos. Há muita confusão, incerteza e falta de sentido de direção. Uma investigação da revista “Stress Health” de 2020 sugere que o conceito de burnout não está apenas relacionado com atividade profissional, mas também se aplica à esfera familiar.
Para as mulheres a diminuição de rendimento disponível, a intenção do outro para iniciar o divórcio, não ter um novo companheiro e o alto nível de conflito predispõe a altos níveis de burnout por divórcio. Segundo outra investigação, agora da revista “Journal of Mental Health”, de 2022, a saúde física e mental de pessoas divorciadas, especialmente nos primeiros anos depois do final da relação, é pior do que da população em geral, relevando maiores sintomas de ansiedade e depressão. O impacto é real, a todos os níveis. É urgente cuidar.
A Joana é hoje coach pessoal e ajuda mulheres em processo pós-divórcio. Quem mais a procura e como as tenta ajudar?
Sim. Ajudo mulheres em processo pós-divórcio ou separação através de uma metodologia que criei. As mulheres que me procuram são mulheres que querem perder menos tempo na sua reconstrução, querem diminuir o impacto desse acontecimento nas várias áreas da sua vida, querem poder sentir harmonia e bem-estar através de um processo testado e adaptável à realidade individual. Querem, sobretudo, sentirem-se mais confiantes, mais seguras, com mais conforto e com mais sentido de direção.
Eu ofereço um espaço confortável e seguro, onde o mais importante é a história de cada mulher. Ofereço tempo para a mulher sentir e digerir a informação que vai chegando a partir das perguntas que vou fazendo e das propostas de reflexão que sugiro. Trata-se de um trabalho de olhar para dentro apoiado e delineado de acordo com os desafios de cada mulher.
“O importante não é o divórcio, mas sim o que se faz a seguir”.
Qual a melhor forma de uma mulher voltar a ganhar confiança depois de um processo de divórcio?
Cada mulher é única, mas de uma forma ou de outra passam pelas mesmas fases. Considero essencial a fase logo a seguir ao relacionamento ter terminado. Há, nesse momento, muita fragilidade e muita tristeza que podem dar lugar a más decisões e comportamentos desajustados e arriscados. Ser acompanhada logo desde o início, ou mesmo antes de se sair desse relacionamento, é cuidar dessa fragilidade e das emoções negativas que surgem após o acontecimento. É preparar o terreno ou mesmo dar espaço seguro e confortável para deixar que essas emoções e sentimentos venham à tona para as podermos gerir.
Por exemplo, considero fundamental analisar o ambiente onde a mulher está inserida. Esse ambiente pode ajudar na reconstrução, mas pode também travar o processo, afetando a confiança. É exactamente por essa razão que criei o programa “Terminei um relacionamento. E Agora?”. O importante não é o divórcio, mas sim o que se faz a seguir.
Como vê os casamentos no futuro?
Eu vejo os casamentos mais verdadeiros e mais autênticos. Podem chamar-me otimista. Mas é para isso que estou a trabalhar.
Respostas rápidas:
O maior risco: Ter-me escolhido em primeiro lugar.
O maior erro: Esquecer-me de mim.
A maior lição: Há solução para tudo, até mesmo para a morte.
A maior conquista: A conquista de mim mesma.








