Entrevista/ “Empresas eficientes são aquelas onde as pessoas sabem até onde podem ir e sentem confiança para agir dentro desse espaço”

Inês Barros, Head of Finance and Operations da Adyta

“O nosso foco está em estruturar sem perder agilidade, mantendo sempre presente que, no centro de qualquer organização, estão as pessoas e a forma como trabalham juntas”, defende Inês Barros, Head of Finance and Operations da Adyta.

Os desafios das organizações em crescimento e a evolução das funções e responsabilidades internas são temas na ordem do dia, numa altura em que se discute cada vez mais sobre “responsabilidade” e “capacidade de decisão”. Em entrevista ao Link to Leaders, Inês Barros, Head of Finance and Operations da Adyta, faz uma reflexão sobre estas e outras questões que impactam o dia a dia das empresas.

Quais os principais desafios que as organizações em crescimento enfrentam no atual contexto empresarial?

As organizações em crescimento vivem num equilíbrio delicado entre crescer rápido e crescer com consistência. Os principais desafios passam pela escassez de talento qualificado, pela pressão constante para entregar resultados e pela necessidade de adaptação contínua a mercados cada vez mais voláteis. A isto junta-se um desafio estrutural importante: muitos processos, funções e decisões nascem de forma orgânica, respondendo à urgência do momento, mas nem sempre acompanham a velocidade do crescimento. O risco não está no improviso inicial, mas em mantê-lo como regra quando a organização já exige outro nível de maturidade.

“Quando essa evolução é acompanhada de clareza, confiança e autonomia progressiva, cria-se um ambiente onde as pessoas sabem o que se espera delas (…)”

De que forma, a evolução das funções, das responsabilidades internas e da capacidade de decisão contribuem para o sucesso das próprias empresas?

A evolução das funções, das responsabilidades internas e da capacidade de decisão contribuem de forma decisiva para o sucesso das próprias empresas. À medida que uma empresa cresce é natural que as funções evoluam, que as responsabilidades cresçam e que a capacidade de decisão deixe de estar concentrada em poucas pessoas. Quando essa evolução é acompanhada de clareza, confiança e autonomia progressiva, cria-se um ambiente onde as pessoas sabem o que se espera delas, sentem-se responsáveis pelo impacto do seu trabalho e conseguem decidir com maior rapidez e alinhamento. Empresas que crescem de forma sustentável são, quase sempre, aquelas que conseguem fazer esta transição sem perder identidade nem foco.

E no contexto empresarial nacional, as empresas estão a “gerir” corretamente as equipas e a multiplicidade de funções que muitas vezes lhes são atribuídas?

No contexto nacional observa-se muita resiliência, criatividade e capacidade de adaptação – especialmente em PMEs e start-ups. No entanto, nem sempre a multiplicidade de funções é gerida de forma consciente. Em muitos casos, assume-se como algo “normal” ou inevitável, sem uma reflexão estruturada sobre o impacto organizacional. O desafio não está em acumular funções, mas em fazê-lo sem critérios claros, sem horizonte temporal definido e sem um plano de evolução. Uma boa gestão começa quando se reconhece que esta realidade existe e se decide olhar para ela de forma estratégica.

Quando é que a multiplicidade de funções de um colaborador deixa de ser apenas uma solução temporária para a falta de recursos e passa a requerer uma reestruturação deliberada?

A multiplicidade de funções de um colaborador deixa de ser uma solução temporária quando se torna recorrente, quando as prioridades se sobrepõem constantemente ou quando as decisões passam a depender mais da pessoa do que do cargo que ocupa. A situação torna-se especialmente evidente quando a organização cresce sem que a estrutura seja ajustada, ou quando novas pessoas entram e não fica claro quem faz o quê, quem decide e quem valida. Nesse momento, já não estamos a falar de flexibilidade, mas da necessidade de repensar conscientemente a estrutura.

“(…) uma boa estrutura liberta tempo, reduz ruído e melhora a tomada de decisão”.

E como podem as empresas evoluir de um modelo informal e multifuncional para uma estrutura mais definida, sem comprometer a sua agilidade?

A chave está em perceber que estrutura não significa rigidez. Pelo contrário, uma boa estrutura liberta tempo, reduz ruído e melhora a tomada de decisão. A evolução pode ser feita de forma incremental: clarificando responsabilidades antes de criar cargos, definindo papéis mínimos em vez de descrições extensas e ajustando continuamente o necessário com base na realidade do negócio. Manter canais de comunicação abertos e envolver as equipas nesse processo é essencial para preservar a agilidade.

Quais os sinais de que é o momento de estruturar funções e responsabilidades no seio de uma organização?

Alguns sinais de que é o momento de estruturar funções e responsabilidades no seio de uma organização são bastante claros: decisões que demoram mais do que deviam, tarefas duplicadas, dependência excessiva de determinadas pessoas, ou dificuldades recorrentes em priorizar. Outro indicador importante é quando o crescimento deixa de ser acompanhado por maior fluidez e começa a gerar fricção interna. Quando isso acontece, estruturar deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade.

Que riscos existem ao se adiar esse processo?

Adiar a estruturação pode levar à perda de foco, a ineficiências operacionais e a dificuldades em escalar de forma sustentada. Além disso, cria-se um risco silencioso de decisões pouco claras, de expectativas desalinhadas e de uma organização demasiado dependente de indivíduos específicos. Com o tempo, isso fragiliza a empresa e torna qualquer mudança mais difícil de implementar.

“Empresas eficientes são aquelas onde as pessoas sabem até onde podem ir e sentem confiança para agir dentro desse espaço”.

Como podem as empresas equilibrar eficiência, clareza de papéis com flexibilidade organizacional?

O equilíbrio entre eficiência, clareza de papéis e flexibilidade organizacional constrói-se com intencionalidade. Definindo o essencial – quem decide, quem executa e quem é responsável – e deixando espaço para a adaptação dentro desses limites estabelecidos. Flexibilidade não significa ausência de regras, mas sim regras claras o suficiente para permitir autonomia. Empresas eficientes são aquelas onde as pessoas sabem até onde podem ir e sentem confiança para agir dentro desse espaço.

Enquanto Head of Finance and Operations da Adyta qual a abordagem que defende para a empresa nestas matérias?

Na Adyta, defendemos uma abordagem progressiva e muito alinhada com a realidade do negócio. Acreditamos que a estrutura deve servir as pessoas e não o contrário. Trabalhamos com funções bem definidas, mas com espaço para evolução, aprendizagem e contributos transversais. Privilegiamos a clareza, a autonomia responsável e a proximidade na tomada de decisão. Num contexto de crescimento, o nosso foco está em estruturar sem perder agilidade, mantendo sempre presente que, no centro de qualquer organização, estão as pessoas e a forma como trabalham juntas.

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