Ao longo da História a maioria das filiações religiosas estiveram associadas a diversas conceções e interpretações do mundo, a atitudes na vida e na sociedade por parte do ser humano.

A religiosidade, enquanto fenómeno social influi atitudes das pessoas, evidencia valores, simbolismos, crenças e ritos, ajustando o futuro individual e coletivo.

Cumulativa e complementarmente, a existência de um mercado global formado por marcas, regras e doutrinas económicas que atingem a matriz social, tem conduzido o Homem à assunção de comportamentos idênticos aos que os crentes assumem numa religião.

Se por um lado a religião é influenciada pela doutrina e pelas condições sócio-económicas, também a economia não é independente dos valores e das crenças que mobilizam as pessoas.

Reconhecemos a existência de uma relação entre religião e economia desde o momento em que o capitalismo dominou o mundo, com o comportamento individual a influenciar a racionalidade económica e este a ser condicionado pelas crenças e valores do Homem.

A globalização comanda as grandes opções de investimento governativas e empresariais, pela lógica de integração no mercado global, orientado pelas transações financeiras. Esta interdependência económica e financeira fragiliza-se ao concentrar-se na riqueza e na aquisição de poder económico e ao descurar a finitude dos recursos. Poderíamos enunciar (com preocupação) as inúmeras posições políticas de diversos países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento que evidenciam práticas duvidosas em processos que deviam estar revestidos de valores democráticos, ou os problemas resultantes das alterações climáticas, ou ainda a própria debilidade do sistema financeiro que há uma década colapsou com a crise do subprime.

A globalização tem alimentado a cultura do consumo e da satisfação do desejo imediato, enquanto fundamento da economia e da sociedade, descurando a ética da cultura do trabalho e do esforço individual que caraterizou o capitalismo industrial do século XIX e XX.

Com uma organização política padronizada e dependente da economia global, até que ponto é que as atuais restrições sociais impostas pela COVID19 conduzirão a uma nova crise económica e social?

Estarão as instituições públicas preparadas para uma eventual revolução social que condicione a própria legitimidade ideológica e democrática dos países?

Qual é a receita para mitigar as debilidades económicas e que a médio prazo se vão agravar pela atual crise sanitária?

Ocorrerá um apelo social e político para que as religiões exerçam a sua magistratura de influência na reconquista da confiança das pessoas nas instituições?

Será que o ser humano vai procurar o seu autodesenvolvimento através de práticas religiosas coletivas e/ou individualizadas?

Voltará a religião a tornar-se um refúgio de virtudes e um recurso necessário à própria eficiência económica, pela adaptação a novas realidades e à sobrevivência humana?

Estarão os líderes políticos, os seres humanos e os líderes religiosos preparados para se reequilibrarem neste surpreendente triângulo conceptual: economia, Homem, religião?

*Instituto Superior de Gestão


João Caldeira Heitor é licenciado em Português/Inglês pelo Instituto Jean Piaget, tem um doutoramento em Turismo pela Universidade de Lisboa, é mestre em Educação e Administração Escolar pela Universidade de Évora e pós-graduado em Gestão de Bibliotecas Escolares, pelo Instituto Superior de Línguas Aplicadas.

Paralelamente é investigador colaborador do Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo (CiTUR Leiria). Além das diversas publicações efetuadas também é orador em vários congressos nacionais e internacionais. Ao longo do seu percurso profissional desenvolveu atividades de docência em diversas instituições de ensino superior. Atualmente é o secretário-geral do Instituto Superior de Gestão (ISG).

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