Opinião
Decidir com 70% de informação é suficiente
Um dos maiores bloqueios nas organizações modernas não é a falta de dados. É o excesso. Nunca houve tanta informação disponível, tantas métricas, tantos relatórios e dashboards. Ainda assim, as decisões continuam a atrasar-se. O problema não é desconhecimento, mas a paralisia.
A ideia de que é preciso ter 100% da informação antes de decidir é uma ilusão perigosa. Num ambiente de mercado dinâmico, esperar pela certeza absoluta significa, muitas vezes, perder o momento certo. Quando a informação está completa, a oportunidade já passou.
A regra dos 70% — frequentemente associada a contextos militares e empresariais de alta pressão — parte de um princípio simples: se já temos cerca de 70% da informação relevante, é suficiente para decidir. O restante será ajustado em execução. A decisão não é o fim do processo; é o início da aprendizagem.
Organizações que exigem certeza total criam culturas de medo. Ninguém quer assumir risco, ninguém quer ser responsável por um erro potencial. Multiplicam-se análises adicionais, pedidos de validação e reuniões para “alinhar”. O custo dessa cultura é invisível, mas enorme: oportunidades perdidas, equipas frustradas e concorrentes mais rápidos.
Decidir com 70% de informação não é agir de forma irresponsável. É aceitar que a incerteza faz parte da realidade empresarial. Significa trabalhar com probabilidade e não com garantia. Significa confiar na capacidade da organização de corrigir rota rapidamente, se necessário.
Empresas ágeis entendem que o mercado recompensa velocidade acompanhada de aprendizagem. Decidem, testam, medem, ajustam. Erram pequeno e corrigem cedo. Em vez de tentarem prever tudo, constroem capacidade de adaptação.
Existe também um impacto cultural importante. Quando líderes mostram que decisões podem ser tomadas com informação suficiente — e não perfeita — libertam as equipas para agir. A responsabilidade deixa de ser vista como risco pessoal e passa a ser vista como parte do crescimento organizacional.
Naturalmente, nem todas as decisões são iguais. Decisões irreversíveis exigem maior prudência. Mas a maioria das decisões empresariais é ajustável. E tratar decisões reversíveis como se fossem definitivas é desperdiçar tempo estratégico.
Num mundo onde a mudança é constante, a vantagem não pertence a quem sabe mais. Pertence a quem consegue agir com o que sabe — e aprender mais depressa.
Esperar pelos 100% pode parecer prudente. Mas, muitas vezes, é apenas uma forma elegante de adiar.








