Opinião

A Cultura da Empresa

Nuno Madeira Rodrigues, administrador do Grupo HBD

Recordo bem as palavras de um professor que tive que, ao explicar a importância da cultura da empresa para o sucesso da mesma, usava o célebre caso da Southwestern Airlines, onde a figura carismática do seu presidente, a sua atitude desafiadora e inovadora, a sua participação pessoal em todo o processo de trabalho, foram fatores determinantes para a criação de um espírito ímpar que, em última análise, conduziu ao crescimento assinalável deste case study mundial, a nível de gestão.

Por várias vezes, a temática da cultura de empresa é foco das mais diversas intervenções dos iluminados da gestão, objeto frequente de formações e reciclagens, em que se sentam dezenas e centenas de pessoas em salas, dedicando horas sem fim a que alguém, muitas vezes externo ao processo e à empresa, venha explicar a todos, como se tivessem três anos, o que significa trabalhar num determinado local, o que deve motivar as pessoas, quais os valores e compromissos éticos de uma estrutura, entre outros.

Confesso que sempre olhei para estes exercícios com algum grau de estranheza ou até de desconfiança.

É evidente que, quer se queira quer não, existe sempre uma cultura de empresa imbuída nas pessoas que a compõem. Se essa cultura é boa ou má, é assunto diferente e que, naturalmente, cumpre resolver quando oportuno, mas que existe, isso existe. E é criada, desde logo, pelas primeiras opções que são tomadas no início da empresa. Sem dúvida que esta pode vir a ser alterada ao longo dos anos de operação no mercado, em função das exigências da concorrência, do pessoal que integra a equipa, entre outros fatores.

Ora, ter de explicar recorrentemente a cultura aos colaboradores de uma empresa é, para mim, e salvo melhor opinião, um sinal de que algo não está bem.

A cultura é intrínseca ao trabalho desenvolvido em primeira linha pelas administrações, deve ser incutida às direções de forma generalizada e espera-se que, finalmente, seja transmitida a todos os quadros de uma organização.

Se, por algum motivo, nos temos de sentar numa sala para fazer isto, é porque a cadeia de comunicação não está a funcionar como deve e, em vez de tentar “saltar” alguns dos membros para chegar a todos, devemos sim procurar esses elos perdidos e agir sobre eles, seja porquanto não se identificam, seja simplesmente porquanto não querem saber.

Não ponho de todo em causa a formação, as reciclagens, as comunicações de novas orientações, o reforço positivo do que faz o espírito de equipa e contribui para a difusão da cultura de uma empresa. Mas, quando a inexistência de uma cultura uniforme em todas as hierarquias é patente, mais do que sacudir para debaixo do tapete e colocar pensos, é preciso procurar onde estão as “feridas” na estrutura.

Muitas vezes, é a própria administração que falha em entender a cultura da organização, um pouco como quem segue em sentido contrário na estrada e pensa que todos os demais é que estão errados. Nesse caso, que a mudança seja feita no topo, claro está.

Poucas coisas contribuem mais para o crescimento e sucesso do que um entendimento claro da visão, valores e estratégia da empresa, da sua cultura, por parte de todos que a integram. É esta uniformização que leva a uma ação mais direcionada, mais concertada. É tendo sempre presente tudo isso que, quando nos deparamos com dilemas, podemos responder-lhes pelo mero recurso ao que são os compromissos maiores que foram unitariamente assumidos, servindo estes sempre como um guião de resposta. Digo isso por experiência própria, quer seja relativamente a quem é liderado, quer seja relativamente a quem lidera. E, se quem lidera não se revê na cultura, também já não lidera, apenas perde o seu tempo.

Algo para refletir.

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Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Senior Associate da Fieldfisher Portugal e Coordenador do Departamento de Direito Imobiliário. Anteriormente foi coordenador do Departamento de Direito Imobiliário na Pinto Ribeiro Advogados, Country Manager PT Arnold Investments, Chairman da BDJ S.A, Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É ainda Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários,... Ler Mais..

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