Esta é uma pergunta difícil de responder. Uma pergunta com muitas respostas que se podem complementar entre si, outras possivelmente contraditórias. Tudo isto é, no entanto, um sinal de que este diálogo é extremamente importante no mundo atual.

O futuro do trabalho pode ser visto de várias perspetivas. Quando pensamos nele, estamos a referir-nos ao futuro das funções? Que funções continuarão a existir? Que funções se extinguirão? Como podemos preparar-nos para essa nova realidade?

Podemos também pensar nele sob o prisma da relação entre colaborador e empresas ou organizações. Continuaremos a ter uma predominância de colaboradores que se deslocam diariamente às empresas? Ou passará a ser dominado pelo hibrido ou mesmo o work any time, from anywhere? Será esse o novo normal generalizado? Ou ainda, teremos um mercado de trabalho, onde a palavra colaborador estará em vias de extinção dando lugar a free lancers ou trabalhadores gig?

Ambas perspetivas são fascinantes, ricas e complexas. Para este artigo optei por me centrar sobretudo na primeira, já que os diálogos nos últimos tempos se têm centrado sobretudo na última. Talvez esse tema fique para um próximo artigo.

Entrei no mercado de trabalho em 1999 e não me lembro, a este nível, de viver uma altura tão interessante como esta. Existe um confluir tão grande de eventos, desde a quarta revolução industrial à pandemia, que induzem e provocam mudanças aceleradas. Passado, presente e futuro vivem e convivem hoje nas formas e natureza do trabalho. E é deste encontro e muitas vezes luta de forças, visões e interesses entre os vários players que emergirá o futuro do trabalho.

A quarta revolução industrial, ou indústria 4.0, das tecnologias como automação, robótica, realidade virtual, biotecnologia, impressão 3D e inteligência artificial elevou as máquinas a uma potência inédita de trabalho. Segundo o Fórum Económico Mundial, 65% das crianças hoje no ensino primário, terão empregos completamente novos quando entrarem no mercado de trabalho. A mesma instituição diz ainda que analisando as expetativas para 20 economias e 12 setores até 2022, “75 milhões de postos de trabalho atuais podem ser deslocados na divisão entre humanos, máquinas e tecnologia, enquanto 133 milhões de novos papeis podem surgir ao mesmo tempo”.

Máquinas e pessoas a conviver no mercado do trabalho como nunca antes, com a emergência e extinção de funções.

Sem dúvida que o futuro do trabalho é tecnológico, mas o trabalhador do futuro para ser relevante precisa de ser mais humano do que nunca! Ser criativo, inovador, flexível, colaborador, ter pensamento crítico, ser um excelente negociador, comunicador e claro ter um elevado nível de inteligência emocional. As competências socio-emocionais sobre as quais as máquinas têm pouquíssimo domínio assumem uma nova relevância num mundo dominado pela tecnologia.

Há, perante isto, algumas perguntas que me ocorrem de imediato. As nossas escolas e universidades estão a preparar os trabalhadores do futuro? E as organizações? Como asseguram que a sua força de trabalho continua relevante, ao serviço da necessária constante renovação estratégica? E, por último, nós no mercado de trabalho, o que fazemos para permanecer relevantes?

As escolas têm ainda, na sua grande maioria, o mesmo método de ensino que tinham há 100 anos. Sobretudo expositivo, com carga horária pesada, em que a avaliação privilegia a acumulação de conhecimento em vez da sua construção. E com uma grande disparidade entre escolas públicas e privadas. Sem dúvida há aqui um longo e urgente caminho a fazer!

Ao nível das empresas, as multinacionais, sobretudo as tecnológicas, lideram o diálogo e também as práticas nestas matérias. Com programas de formação contínuos, presenciais e/ou online numa lógica individual de desenvolvimento, assente sobretudo em competências, que, segundo alguns estudiosos, são a nova moeda do mercado de trabalho.

E nós, enquanto indivíduos, o que podemos ou devemos fazer? Provavelmente e para começar, mudar a nossa atitude. A nossa aprendizagem, embora possa ser facilitada pelos contextos onde nos inserimos, é da nossa responsabilidade. A visão de que algumas pessoas ainda têm de que só aprendemos quando estamos em formação em sala está completamente desatualizada. A aprendizagem deve ser um estado mental diário. Aprendemos através da ação e da observação. Por exemplo, com colegas, com os nossos filhos, com chefes, etc. Aprendemos também quando fazemos. Ao acertar e errar. Então procuremos fazer coisas novas ou de forma diferente. Dentro ou fora do trabalho. E aprendemos também através de leituras ou formações. Nunca tivemos tanto conhecimento gratuito à nossa disposição.

A visão do século XX que assentava em – aprender (sobretudo no primeiro quarto da vida), fazer e reformar-se – está hoje completamente ultrapassada, dando lugar a – aprender, fazer, voltar a aprender, fazer… em movimento contínuo.

Preparar-nos para o futuro do mercado de trabalho impõe que escolas, organizações e pessoas aceitem esta nova realidade e a necessidade que com ela vem de aprender a aprender, desaprender para voltar a aprender, e aprender para sempre (lifelong learning).

Para terminar, gostava de deixar a ideia chave de que a preparação para o futuro do trabalho, mais do que pensar em funções, implica pensar em competências, conscientes de que o profissional do futuro é aquele que desenvolve as suas características humanas.

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Sobre o autor

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Sandra Silva é a diretora-geral da Mary Kay Portugal desde 2009, ano em que entrou para a companhia. Desempenhou um papel importante e fundamental tendo sido responsável pelo turnaround da empresa em Portugal. Liderou a importante renovação da estratégia de... Ler Mais