Entrevista/ “Cada pessoa tem uma experiência de vida diferente que merece ser contada”
Mais de mil pessoas já visitaram o Bairro do Zambujal para conhecer, no terreno, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O Zambujal 360 tornou-se num projeto pioneiro ao ligar sustentabilidade, arte urbana, turismo e capacitação comunitária, com impacto direto na vida dos moradores.
Criado para valorizar o Bairro do Zambujal e combater estigmas associados aos bairros sociais, o Zambujal 360 atua nos eixos da educação pela arte, pela saúde e pela valorização das histórias de vida dos moradores. Reconhecido como bairro embaixador dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, o projeto apoiado pelo Turismo de Portugal apresenta impactos já visíveis no território.
Nesta entrevista, Vítor Monteiro, presidente da CAZAmbujal, faz um primeiro balanço e revela a ambição de criar um estúdio musical para potenciar o talento criativo dos jovens do bairro. As receitas de bilheteira do BOOST 2026, a 16 de janeiro, revertem integralmente para esta iniciativa.
O projeto é muito recente, mas já são visíveis mudanças concretas no dia a dia dos moradores e à perceção externa do bairro?
O Zambujal 360 pretende, acima de tudo, transformar positivamente o Bairro do Zambujal e combater estigmas e preconceitos muitas vezes associados aos bairros com estas características. Contar as histórias de vida das nossas gentes e criar um sentido de orgulho e pertença dos moradores contribui para a sensibilização e mudança de atitudes do que é nosso e construímos juntos ao mesmo tempo que cria uma certa “curiosidade” externa levando as pessoas a querer visitar o bairro. Estas duas sinergias alimentam-se uma à outra, ou seja, uma crescente preocupação dos moradores em manter as ruas limpas e acolher bem, faz com que cada visitante tenha uma boa experiência trazendo assim mais visitantes o que, por sua vez, faz com que se efetive e aumente a preocupação dos moradores.
Que resultados se destacam nos três eixos do projeto: comércio local, educação pela saúde e educação pela arte?
O Zambujal 360 teve a sua origem na ideia de promover o comércio local e desenvolveu-se para a educação pela saúde e educação pela arte. Sem dúvida que a educação pela arte acaba por ter uma visibilidade maior, não só pela arte urbana em si, mas também por ser uma galeria a céu aberto que promove os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas originando assim uma procura cada vez maior de escolas e empresas. No entanto, internamente, a educação pela saúde tem tido uma participação cada vez maior de moradores nas caminhadas (CAZA100Caminha) e as nossas sugestões para que os visitantes almocem ou passem pelo comércio local tem contribuído também para este eixo.
“O selo das Nações Unidas garante a qualidade do que estamos a fazer e é mesmo um grande prazer poder partilhar isso com quem nos visita”.
O reconhecimento como bairro embaixador dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável tem atraído novos públicos e entidades ao Zambujal?
Foi, para nós, um grande motivo de orgulho e satisfação quando nos apercebemos que somos o primeiro bairro no mundo onde é possível visitar e conhecer melhor os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, através de histórias reais de pessoas e famílias do bairro. Este reconhecimento por parte das Nações Unidas aliado à comunicação gerada junto dos media sobre este projeto, cria uma atração e curiosidade autêntica, atraindo assim novos públicos, particulares, escolas e entidades a visitar o bairro. O selo das Nações Unidas garante a qualidade do que estamos a fazer e é mesmo um grande prazer poder partilhar isso com quem nos visita.
Como tem evoluído a parceria com o Turismo de Portugal e qual o seu contributo para a sustentabilidade e visibilidade do projeto?
Cada um dos 17 parceiros traz características únicas a este projeto e, termos conseguido que todos juntos contribuíssem para um mesmo fim, tem sido muito gratificante. O Turismo de Portugal fez (e faz) aumentar exponencialmente a visibilidade não só do Zambujal 360 como do próprio bairro, pois consegue divulgá-lo a públicos que só ele alcança. Este facto cria um certo “conforto” para quem ouve falar do Zambujal, já que vem de uma fonte credível, contribuindo assim para que venham mais visitantes, o que garante a sustentabilidade deste projeto.
“Estamos a dar formação aos nossos jovens do bairro para que sejam eles os guias e possam também contar as suas próprias histórias”.
Quais têm sido os principais desafios na implementação do Zambujal 360 e como estão a ser superados?
O Zambujal 360 tem como principal objetivo a valorização e mudanças positivas do Bairro do Zambujal. Neste sentido existem duas vertentes distintas, mas que se interligam: de fora para dentro e de dentro para fora, como costumamos dizer “Abrir o bairro ao Mundo e trazer o Mundo ao bairro”. Externamente, queremos garantir uma comunicação assertiva e eficaz de modo a ampliar o que se dá a conhecer sobre o Zambujal.
Deste modo, é possível aumentar o número de visitantes e proporcionar boas visitas ao bairro para que possam também ser um meio de comunicação a outros possíveis visitantes. Nesse sentido estamos a dar formação aos nossos jovens do bairro para que sejam eles os guias e possam também contar as suas próprias histórias. Internamente, temos observado uma preocupação maior dos moradores, por exemplo relativamente ao espaço público: as ruas estão mais limpas e tem-se notado algumas mudanças de hábitos. No entanto estamos perante uma comunidade bastante diversificada em termos culturais e as mudanças requerem nestes casos, algum tempo de adaptação e sensibilização, mas tudo é possível e nós acreditamos nisso.
“Temos uma investigação de mestrado em curso a estudar o impacto do Zambujal 360. Está também em planeamento um estudo de impacto do projeto por iniciativa de investigadores doutorados da área de Sociologia e Antropologia, da FCSH – Universidade Nova”.
Que indicadores estão a ser utilizados para medir o impacto real do projeto no cumprimento dos ODS?
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável têm três grandes pilares: as pessoas (ODS 1 a 5), as cidades (ODS 6 a 12), e o planeta (ODS 13 a 17), mas não são estanques e interligam-se, pois as nossas ações concretas do dia a dia contribuem para melhorar as cidades e, consequentemente, o planeta onde vivemos. O cumprimento dos ODS é muito difícil de medir e são várias as agências que trabalham nesse sentido. No nosso caso, sabemos que mais de mil pessoas já visitaram o bairro do Zambujal e a esmagadora maioria delas desconhecia a existência dos ODS. As visitas pagas contribuem para os ODS 1 e 3, mas também para o comércio local (ODS 8), para a redução das desigualdades (ODS 10), para criar cidades mais sustentáveis (ODS 11). Ao ser um projeto com forte componente educativa, contribui também para o ODS 4. O facto de o Aqueduto das Francesas estar inserido no Zambujal e este projeto ter contribuído de modo fundamental para que seja recuperado e visitável, alinha-se com o ODS 6.
Tendo a EDP como parceira, exista a visão de instalação de painéis solares (ODS 7). A forte presença de hortas urbanas no bairro e a visão de organizá-las e promovê-las alinha-se com o ODS 12. Está também a decorrer o projeto Biozambujal, por iniciativa de vários moradores, o que promove o ODS 15. Ao promovermos um bairro social como local de formação para os ODS ajuda também a alcançar o ODS 16. Por último, a rede criada com 17 parceiros oficiais para cada ODS, assim como muitas outras entidades que colaboram connosco, ajuda-nos a alcançar o ODS 17. Neste momento temos uma investigação de mestrado em curso a estudar o impacto do Zambujal 360. Está também em planeamento um estudo de impacto do projeto por iniciativa de investigadores doutorados da área de Sociologia e Antropologia, da FCSH – Universidade Nova.
De que forma os jovens do bairro estão a ser envolvidos e capacitados como agentes ativos do Zambujal 360?
Este projeto tem na sua essência a valorização positiva do bairro e dos moradores que aqui vivem. Cada pessoa tem uma experiência de vida diferente que merece ser contada através das visitas guiadas, pela experiência de cada guia, além das que já estão espelhadas nos murais. Queremos que os jovens sejam os embaixadores ODS no seu próprio bairro e sejam eles a receber os visitantes, que façam as visitas guiadas e que contem também as suas histórias. Temos neste momento um grupo em formação que irá gerar os nossos primeiros guias e, além disto, fruto da iniciativa de vários parceiros do Zambujal 360, estão a iniciar-se novos projetos no bairro onde os jovens também estão envolvidos.
“Acreditamos muito no potencial criativo dos jovens músicos do bairro do Zambujal e gostaríamos que o BOOST fosse o nosso principal parceiro na criação de condições para termos um estúdio musical no bairro”.
Como vê o projeto daqui a cinco anos e que papel pode ter o BOOST nesse percurso?
Percebemos o potencial deste projeto, quer interna quer externamente e, a médio prazo gostaria que o Bairro do Zambujal fosse uma referência para escolas, entidades, empresas e particulares que queiram conhecer/estudar melhor os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e em simultâneo, que o Zambujal 360 seja mais uma opção de visita para os nossos turistas. Poder participar no BOOST é uma excelente oportunidade de divulgação do Zambujal 360, sobretudo naquilo que ainda está por fazer. Acreditamos muito no potencial criativo dos jovens músicos do bairro do Zambujal e gostaríamos que o BOOST fosse o nosso principal parceiro na criação de condições para termos um estúdio musical no bairro.
*Vítor Monteiro é presidente da CAZAmbujal, associação que dinamiza o projeto Zambujal 360, em conjunto com a Ad Gentes – Associação Leigos Missionários da Consolata, e vai participar como orador no BOOST 2026, no dia 16 de janeiro.








