Blockchain em Portugal: impacto maior do que o da Internet em 1994
Foi ontem apresentada a Aliança Portuguesa de Blockchain, uma coligação de empresas, academias e entidades governamentais que pretendem aumentar o conhecimento sobre esta tecnologia. Start-ups e estudantes vão ter um papel ativo para encontrar soluções destinadas ao tecido empresarial português.
Sendo a tecnologia blockchain um dos próximos grandes passos tecnológicos a inovar um grande número de setores – tendo já a conotação de que irá trazer tantas mudanças como a Internet trouxe em 1994 -, esta nova aliança vai trabalhar para aumentar o conhecimento e potenciar a utilização deste tipo de tecnologia nas empresas portuguesas.
“Não estamos a falar de modas, estamos a falar de tecnologia”, referiu o presidente do IAPMEI, Jorge Marques dos Santos, que acredita que “face aos desafios que atualmente são apresentados às empresas, como a sua digitalização, não é possível ignorar tecnologias disruptivas como a do blockchain”. Jorge Marques dos Santos acrescentou ainda que “esta iniciativa está alinhada com a estratégia de inovação do IAPMEI”, mas que é importante “não nos esquecermos que as tecnologias não substituem a capacidade de gestão e liderança, nem a necessidade de motivar e clarificar as equipas que criam valor e que fazem crescer as organizações”.
Start-ups e estudantes vão ter um papel fundamental na difusão da integração da tecnologia blockchain nas mais diversas áreas. Isto será feito através dos denominados challenges, desafios de cariz tecnológico e criativo orientados para os vários setores económicos e que serão disponibilizados no portal da Aliança.
Rui Serapicos, managing partner da entidade responsável por esta aglomeração de empresas, a CIONET Portugal, acredita que quando se fala deste tipo de tecnologia “estamos a falar de uma tendência global e de longo prazo”.
Para apoiar as soluções apresentadas por start-ups e estudantes, Rui Serapicos explicou aos jornalistas que, apesar de ainda estar em discussão, a Aliança está a “negociar com uma entidade a atribuição de linhas de crédito para a constituição de empresas com base em tecnologia blockchain. Além disso, estamos a desenvolver um conjunto de iniciativas que visam integrar tanto investigadores no quadro técnico, como business angels que suportem as melhores soluções de blockchain”.
Apesar de ainda não haver prémios definidos para as respostas bem-sucedidas a estes desafios, o representante da CIONET Portugal adiantou que as recompensas passarão por as “soluções serem adotadas pelas empresas que estão a lançar o challenge e, aí, poderão tornar uma ideia numa solução, num produto e numa empresa”. Na eventualidade dos projetos serem bem-sucedidos, Rui Serapicos acredita que “surgirão investidores interessados nessas empresas”.
“O impacto das soluções blockchain poderá ser maior do que o da Internet em 1994”, referiu Paulo Cardoso Amaral, professor da Universidade Católica Portuguesa, que afirma ainda que “esta tecnologia distribuída com base em blockchain vai ter um impacto fundamental por uma razão: a confiança”.
Esta confiança poderá ter impacto em modelos de negócio como os dos escritórios de advogados. A Abreu Advogados, que é um dos membros da Aliança Portuguesa, quer arranjar soluções para tornar os contratos e processos legais mais eficientes. Por outro lado, a Fidelidade, outra empresa membro, quer procurar melhorar a deteção de fraude em seguros.
Para partilhar o conhecimento sobre esta tecnologia com empresas presentes em território nacional, a Aliança Portuguesa de Blockchain vai promover um roadshow. As sessões desta iniciativa vão estar disponíveis em diversos locais do país.
O que é a tecnologia blockchain?
Esta nova maneira de armazenar e gravar transações é feita em blocos, que estão ligados entre si criptograficamente com o objetivo de assegurar que são à prova de piratas informáticos. Cada bloco desta rede é um código de computador que contém algum tipo de informação. Esta informação tanto pode ser um certificado de propriedade como um comprovativo de uma transferência bancária. Imagine a seguinte situação: quer enviar dinheiro a alguém do outro lado do mundo. A transferência tanto pode demorar dois dias, como pode demorar uma semana. Isto acontece porque os bancos têm de ter a certeza para onde é que foi o dinheiro. Este é um dos problemas que o Blockchain vem resolver. Com o software desenvolvido, as transferências podem ser feitas de uma forma rápida e barata, para além de não haver nenhum banco na equação, que ficaria com a informação de todas as transferências feitas.
Mas se não são os bancos a assegurar as transferências, que entidade é que as consegue assegurar? A resposta é simples: à medida que novas informações são adicionadas na rede, a complexidade da cadeia de blocos aumenta e o banco de dados torna-se maior. E se alguém quiser fazer uma alteração que não é autorizada, todas as pessoas da rede conseguem ver onde é que esta aconteceu e decidir se a mudança é válida ou não. Um exemplo prático: imagine que queria comprar uma casa a alguém por 250 mil euros. Em vez de pagar a um advogado para tratar do assunto, podia decidir registar o contrato na Blockchain onde diria que tinha concordado em pagar 250 mil euros pela casa. Este método cria um livro de registos públicos transparente e que qualquer pessoa podia ver. Desta maneira, o proprietário da casa não poderia voltar atrás com a palavra e pedir, em vez dos 250 mil, 300 mil euros.
Com este método, se algum pirata informático quiser fazer alguma alteração na rede não o conseguiria fazer ao piratear apenas um computador, teria de piratear, ao mesmo tempo, todos os que têm acesso à rede.








