Entrevista/ “As empresas devem assumir um papel ativo na construção de sociedades mais equilibradas e de territórios mais saudáveis”
Depois dos incêndios de agosto de 2025 voltarem a expor a fragilidade do território, a UPPartner decidiu lançar o One Health Regenera. Em entrevista ao Link to Leaders, Hélio Soares, CEO da empresa, explica a origem do projeto, o papel das empresas na regeneração dos territórios e porque a sustentabilidade só é real quando se traduz em ações concretas.
Os incêndios que marcaram o verão de 2025 deixaram mais do que hectares de floresta destruída. Comprometeram ecossistemas inteiros, fragilizaram comunidades e interromperam ciclos vitais que sustentam pessoas, animais e economia local. Foi perante este cenário que a UPPartner decidiu agir e lançar o One Health Regenera, um projeto que parte da convicção de que regenerar a terra é também regenerar a vida.
Inspirada na visão One Health — que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental —, a iniciativa assume a regeneração do território como um movimento de longo prazo, que começa em Arganil com a reposição da polinização e o apoio à atividade apícola.
O que motivou a UPPartner a lançar o Projeto Regenera? Foi uma resposta direta aos incêndios deste verão ou já era uma ideia em desenvolvimento?
O Regenera nasce de um percurso que a UPPartner vem a construir há vários anos. Sempre acreditámos que as empresas têm também a responsabilidade de contribuir para a saúde dos ecossistemas — humanos, ambientais e sociais — em que se inserem. Essa visão ganhou expressão pública com os One Health Pet Awards, um projeto que nos permitiu reconhecer agentes que, diariamente, trabalham de forma integrada pela saúde das pessoas, dos animais e do ambiente. Os incêndios do verão de 2025 não criaram essa vontade, mas aceleraram-na. Tornaram impossível adiar a ação e mostraram, de forma dura, que o território precisa de empresas que se levantem, que tragam recursos, que mobilizem redes e que ajam com responsabilidade e continuidade.
Foi nesse momento que sentimos que fazia sentido dar um passo adicional: passar do reconhecimento à regeneração. O Regenera é, por isso, uma evolução natural da visão One Health dentro da UPPartner. Não é uma reação impulsiva, nem a tentativa de inaugurar algo novo. Sabemos que existem entidades que trabalham há décadas neste campo e que nos inspiram. O nosso compromisso é somar a esse esforço, mobilizar recursos, criar cooperação e contribuir com responsabilidade, consistência e visão de longo prazo.
“(…) as empresas devem assumir um papel ativo na construção de sociedades mais equilibradas e de territórios mais saudáveis”.
Como é que este conceito traduz a visão e os valores da UPPartner?
O Regenera traduz aquilo que está no centro da nossa identidade: a convicção de que as empresas devem assumir um papel ativo na construção de sociedades mais equilibradas e de territórios mais saudáveis. A visão One Health acompanha-nos há vários anos e tem sido a base da forma como pensamos impacto, responsabilidade e liderança. Com os One Health Pet Awards percebemos que o reconhecimento era importante, mas insuficiente. Havia espaço — e responsabilidade — para avançar para uma intervenção mais direta no território.
O Regenera surge precisamente dessa maturidade: a passagem de um papel de valorização para um papel de ação concreta. Este projeto reflete a forma como encaramos o nosso papel enquanto empresa: agir com propósito, colaborar com quem conhece o terreno e assumir que nenhuma organização transforma um território sozinha. A sustentabilidade, para nós, não é uma área isolada nem um exercício de reputação; é um princípio transversal que orienta decisões, parcerias e a forma como queremos contribuir para o futuro.
Que tipo de impacto pretendem alcançar com a iniciativa e como será medido?
O impacto do Regenera foi pensado desde o início em três dimensões interligadas: ambiental, social e empresarial. No plano ambiental, o objetivo é contribuir para a recuperação de ecossistemas fragilizados, começando pela reposição da polinização e pela criação de condições para o reequilíbrio da biodiversidade. Este trabalho exige rigor técnico e acompanhamento no terreno, razão pela qual contamos com contributos especializados, como o do apicultor Telmo Cabral, cuja experiência permite garantir que cada decisão tem fundamento e coerência ecológica.
No plano social, o impacto mede-se na capacidade de devolver às comunidades condições para recomeçar — recuperar rendimentos, reforçar a ligação ao território e criar resiliência. Regenerar ecossistemas é, inevitavelmente, regenerar pessoas. Existe ainda uma dimensão empresarial que é central para nós. Queremos demonstrar que as empresas podem assumir responsabilidades fora do seu perímetro tradicional e ser parte ativa das soluções. Esse impacto mede-se também pela capacidade de inspirar outras organizações a cooperar, a participar e a integrar a regeneração na sua forma de atuar.
“O papel das empresas não é criar tudo de raiz, mas somar ao que já existe, aportar recursos, capacidade de mobilização e visão estratégica”.
Em Portugal, muitas empresas falam em sustentabilidade, mas poucas a colocam no centro da estratégia. Que mudança é necessária?
A sustentabilidade tem de passar da periferia para o centro das decisões. Durante demasiado tempo foi tratada como um complemento, associada à comunicação ou à reputação, quando na realidade deve ser um pilar de gestão e de visão de longo prazo. Essa mudança exige compromisso com métricas claras, continuidade no tempo e, sobretudo, humildade para reconhecer que ninguém faz isto sozinho. Portugal tem entidades com trabalho extraordinário nesta área, que são verdadeiras referências.
O papel das empresas não é criar tudo de raiz, mas somar ao que já existe, aportar recursos, capacidade de mobilização e visão estratégica. A sustentabilidade não se afirma com palavras, afirma-se com coerência e ação prolongada. É essa lógica que procuramos seguir com o Regenera.
Como é que o conceito One Health se materializa nas ações do projeto?
O One Health materializa-se quando deixamos de olhar para as questões ambientais, sociais e económicas como temas separados. O Regenera atua precisamente nessa interdependência. Ao regenerar ecossistemas, criamos condições para que as comunidades recuperem. Ao apoiar atividades como a apicultura, reforçamos a economia local. Ao devolver a polinização, devolvemos vida ao território. Cada intervenção num ponto do ecossistema gera impacto nos restantes. É esta visão sistémica que define o One Health e que orienta não apenas a ação atual do Regenera, mas também as próximas fases do projeto.
Porque escolheram Arganil e o que simbolizam as 100 colmeias?
Arganil simboliza, simultaneamente, a dimensão do problema e o potencial da regeneração. Foi uma das regiões mais severamente afetadas pelos incêndios e representa, de forma clara, a urgência de devolver equilíbrio e estrutura ao território. As 100 colmeias que serão instaladas não são apenas equipamento. Representam polinização, biodiversidade, produtividade agrícola e recomeço. São um ponto de partida para restaurar a vitalidade ambiental, social e económica da região. Começámos por Arganil porque acreditamos que a regeneração deve começar onde a necessidade é maior.
Como é que a regeneração do território se traduz em desenvolvimento económico e social?
Regenerar território é regenerar economia e sociedade. Um ecossistema funcional cria condições para a produção agrícola, para o turismo, para o comércio local e para a fixação de população. A apicultura é um exemplo claro dessa ligação: colmeias significam produção, rendimento, produtos endógenos e cadeias curtas de valor. Mas significam também algo mais profundo — devolvem às comunidades a confiança de que o território tem futuro. O desenvolvimento económico nasce dessa confiança coletiva. A regeneração cria as bases para que ela exista de forma sustentável.
Há planos para expandir o Regenera a outras regiões?
Sim. O Regenera foi concebido desde o início como um projeto vivo, evolutivo e adaptável. Arganil é apenas o ponto de partida. Outras regiões e outras problemáticas, sempre alinhadas com a visão One Health, serão integradas. Mas há um princípio que não abdicamos: cada intervenção será feita com conhecimento do território, responsabilidade e parceria local. Não replicamos modelos de forma automática; construímos soluções contextualizadas.
“(…) o setor privado deve sentar-se à mesa das soluções e participar ativamente na construção de respostas sustentáveis”.
Que papel devem ter os líderes empresariais neste novo paradigma?
Hoje, liderar é criar contexto humano, ambiental e social. É compreender que a prosperidade de uma empresa está diretamente ligada à saúde dos ecossistemas que a rodeiam. Liderar implica agir antes da urgência, assumir responsabilidade partilhada e tomar decisões que constroem futuro. Este projeto nasce dessa convicção: de que o setor privado deve sentar-se à mesa das soluções e participar ativamente na construção de respostas sustentáveis.
Como estão a construir a rede de parceiros?
O Regenera assenta numa lógica de cooperação verdadeira. Regenerar território exige competências técnicas, ligação social, conhecimento científico e capacidade de mobilização — e nenhuma entidade reúne tudo isso sozinha. Procuramos criar pontes entre entidades locais, parceiros institucionais e organizações que acrescentam valor real ao projeto. O nosso papel é alinhar esforços, criar articulação e garantir que cada contributo reforça o impacto global.
Como imagina o Regenera dentro de cinco anos?
Daqui a cinco anos, gostaríamos de ver o Regenera como um movimento consolidado, com impacto visível em diferentes territórios e integrado numa visão One Health mais ampla. Ver ecossistemas regenerados, comunidades mais resilientes e um setor empresarial mais consciente do seu papel enquanto agente de mudança. Se tivermos contribuído para uma cultura de responsabilidade partilhada e para um território mais equilibrado, então o Regenera terá cumprido o seu propósito.








