As mulheres empreendedoras, em particular as que pretendem criar start-ups B2B, enfrentam desafios quando se trata de obter financiamento. O problema é profundo e estrutural, e não se cinge apenas ao setor da tecnologia, segundo Whitney Sales, diretor geral de uma aceleradora norte-americana.

Apesar de já existirem start-ups B2C fundadas por mulheres a entrarem em bolsa, como a Stitch Fix e a Eventbrite, ainda há um longo percurso a percorrer no que à igualdade de género diz respeito. Apenas 2% das start-ups B2B são lideradas por mulheres, contra 12% fundadas por homens, de acordo com dados do Quartz que analisou 351 start-ups lideradas por homens e mulheres desde 2013.

Estes dados revelam que existem algumas barreiras que condicionam a vontade de empreender das mulheres, nomeadamente no mercado de Software as a Service (SaaS), que deverá alcançar um valor de 186 mil milhões de dólares (163 mil milhões de euros) em 2024, a maior fatia do qual obtido em empresas B2B, avança Whitney Sales, diretor geral Acceleprise Ventures, aceleradora focada em SaaS nos Estados Unidos, à revista MIT Sloan Management Review.

Mas afinal quais são as barreiras que impedem as mulheres de dar o salto e de se tornarem líderes no mercado de SaaS?

1. Mentoria e coaching à medida de homens e mulheres
Antes de se tornarem fundadores, muitos empreendedores de B2B ganham experiência nas grandes empresas. No entanto, nessas funções os homens e as mulheres recebem informações, mentoring e coaching diferentes, o que significa que terão conhecimentos e capacidades variadas à medida que procuram estabelecer as suas próprias empresas.

É mais habitual os homens receberem formação vocacionada para estratégia de negócios e táticas empresariais, enquanto que as mulheres são mais treinadas para habilitações comportamentais, como melhorar a confiança, apresentações ou gestão de políticas internas. Ao contrário dos homens, muitas vezes as mulheres são direcionadas para “encaixar” na cultura do trabalho e não tanto em usar os seus pontos fortes para perseguir um objetivo.

“No entanto é muito importante garantir que tanto homens como mulheres têm acesso a formação tática e estratégica no mercado de trabalho, para que a longo prazo possam ambos estar habilitados a assumir cargos de liderança”, defende Sales, referindo que os gestores atuais têm também aqui um papel importante.

2. Gestores com diferentes abordagens
“Os gestores atuais têm um papel importante na igualdade de género, se determinarem um conjunto de competências chave que os colaboradores devem possuir e fomentar a formação ou coaching nessas áreas. Existem algumas competências como liderança, capacidade de comunicação, estratégia de negócio, iniciação a vendas que são imprescindíveis para qualquer empreendedor”, explica o responsável.

Este foco na igualdade de género também se aplica à partilha de informação sobre a empresa entre os líderes empresariais e os restantes membros da equipa. “Ainda é comum os gestores partilharem determinada informação com os membros masculinos da equipa e omitirem as equipa feminina, mesmo em funções de direção semelhantes.

De forma a combater esta diferença de tratamento, todos os gestores devem promover o desenvolvimento de relações de confiança profissional neutras em relação ao género”, afirma o diretor geral da Acceleprise Ventures.

3.  Investidores de capital de risco de olho nos negócios liderados por homens
Um dos principais obstáculos que as mulheres fundadoras de start-ups B2B enfrentam é a angariação de investimentos. É importante que os investidores de risco vejam as mais-valias que uma empresas lideradas por mulheres podem trazer para o negócio.

As empresas de investimento devem ser sensibilizadas para reconhecer os pontos fortes das fundadoras, que têm padrões comportamentais diferentes. Por exemplo, as mulheres habitualmente têm uma abordagem indireta e colaborativa. Um estudo do Boston Consulting Group e da MassChallenge revelou que as start-ups fundadas por mulheres “são uma melhor aposta”, pois embora recebam, em média, muito menos financiamento, apresentam um desempenho melhor ao longo do tempo.

Outro aspecto que os investidores devem ter em conta é o crescente numero de mulheres em cargos de decisão no mundo empresarial. Só nos EUA, 41% dos funcionários com decisão de compra para as empresas são atualmente mulheres e essa percentagem tende a crescer não só nos EUA, como também na Europa e na Ásia.

Com o desenvolvimento de novos programas e com as empresas de capital de risco a tornarem-se mais abertas à igualdade, o panorama de financiamento e crescimento de start-ups fundadas por mulheres pode registar uma expansão, acredita Sales.

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