Fala-se muito de fundadores. Vivemos numa altura onde se funda e funde muita coisa, no entanto, infelizmente, fala-se pouco do que se afunda.

Há grandes casos de “afundanços”, dignos de jogadores da NBA,  que os media tradicionais, digitais ou de café não se cansam de comentar. E com razão. Não deixam ninguém indiferente e fazem com que muitos planos de uma vida vão por água abaixo. Poupanças desaparecem e sonhos evaporam-se após uma vida inteira a trabalhar para a reforma que não existe. Acredito que seja como acordar de um pesadelo e perceber que vivemos num ainda pior.

No entanto, ao mesmo tempo, escapa-nos uma realidade tão ou mais importante. Enquanto todos estes grandes grupos desaparecem, há milhares de mini empresas que fecham com a mesma velocidade com que aparecem. São as chamadas Startups – empresas com licença para afundar.

Acredito que este é o ADN de um verdadeiro empreendedor e que deve ser implementado nas suas empresas, nos seus projectos e na sua maneira muito própria de ver o mundo.

As grandes empresas inovam, sem dúvida. E têm uma capacidade financeira muito superior para executar. Porém, vemos os “Facebooks” e as “Googles” a comprar constantemente empresas mais pequenas pela sua tecnologia, o seu talento, mas, acima de tudo, a comprar a sua inovação. São estas startups que movem o mercado e empurram os limites da nossa sociedade para a frente. São estas empresas que, sem o peso das grandes organizações, conseguem esgueirar-se entre os dogmas e o já conhecido.

É preciso falhar.

Ou, pelo menos, aceitar o facto de que sem falhas não existe desenvolvimento. Acredito que podemos culpar a falta de inovação na educação pelo défice desta mentalidade. Desde os primeiros dias de escola que nos é dito que não podemos falhar sob o risco de castigos ou olhares zangados dos adultos.

Os empreendedores crescem neste contexto e criam o seu próprio olhar de desafio à falha. Sei que os melhores vão ainda mais longe – com a noção de que um cenário de falhanço é real mas sem nunca o aceitar enquando houver uma gota de energia. Motivam-se por esta noção. E dão tudo até ao final.

E por falar de fundadores e afundadores – serão os fundadores os que abrem a empresa?

Numa primeira fase, sim. Até porque é essa a definição oficial que se usa e abusa em todo o lado. No entanto, à medida que a equipa da Planetiers.com cresce, deparo-me com uma nova realidade. Estou rodeado de pessoas altamente motivadas por uma missão e visão comum.

Há um momento na vida do empreendedor onde este pára por um segundo, olha à sua volta e repara que está repleto de empreendedores a fundar a empresa consigo. Não tenho dúvidas de que este é o passo número um da receita para o sucesso.

Em conversa com outros, costumo lançar o exercício mental onde peço que imaginem dois cenários: O primeiro onde se abre uma empresa com os melhores da sua área, mas estes não se entendem nem partilham da mesma visão. E o segundo, onde se inicia uma empresa com pessoas motivadas, sedentas de aprender mais e de melhorar continuamente com o objectivo comum e bem definido de ter impacto no mundo.

Qual das equipas acreditam ter maior probabilidade de sucesso a médio longo prazo?

“Fazes bem! Agora é que é a altura de arriscar enquanto és novo!”, esta é, talvez, uma das frases que oiço mais recorrentemente. Mas só será possivel inovar com menos de 35 anos? Ou 30? Ou 25? Quem ditou estas regras? É nos momentos de maior leveza mental, de maior jogo de cintura e de maior flexibidade que devemos apostar na inovação. Devemos seguir o “Play big or go home”, ou mesmo citações de grandes líderes, e apostar tudo no que acreditamos. É isto que fará com que valha tudo a pena, independentemente da idade. Portanto, refaço o que me dizem – Fazes bem! Agora é que é a altura de arriscar equanto a tua empresa é nova!

Se o empreendedor é aquele que se disponibiliza a saltar do precipício e construir o avião durante a queda, então quero ser o melhor saltador e construtor de aviões. Quero todo um círculo de pessoas à minha volta que saltem comigo e acreditem que o avião não será só para evitar a queda, mas sim para alcançar o céu. Se para sermos os melhores fundadores temos que ser os melhores afundadores, então quero uma equipa de Michael Jordans.

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Sérgio Ribeiro é CEO e cofundador da Planetiers. Concluiu o mestrado em Engenharia Biológica no Instituto Superior Técnico de Lisboa. A sua tese de mestrado baseou-se na otimização da gestão de efluentes numa fábrica de biodiesel da Galp. Nos últimos... Ler Mais