Opinião

A próxima revolução industrial já começou, e não é apenas tecnológica

Rui Costa, Managing Director da Accenture na área de Indústria e Construção
Foto: Rui Costa

Durante décadas, a palavra de ordem na indústria foi uma só: eficiência. Produzir mais, gastar menos, desperdiçar pouco. A automação, a integração de processos e a escala foram alavancas para o progresso industrial. Funcionou. No entanto, a próxima década não será apenas sobre fazer as coisas mais depressa, mas sim sobre fazer as coisas com inteligência.

É essa a principal leitura do relatório Intelligent Industrial Operations Outlook 2026, publicado pelo Fórum Económico Mundial em colaboração com a Accenture. O diagnóstico é claro, mesmo que o problema não seja. As operações industriais estão a ser pressionadas em várias frentes em simultâneo: instabilidade geopolítica, cadeias de abastecimento cada vez mais frágeis, alterações climáticas com impacto real na produção, dificuldade em encontrar e reter talento, ameaças cibernéticas que crescem a uma velocidade assustadora e um labirinto regulatório que não para de se complicar. Neste cenário, ser eficiente já não é suficiente para garantir competitividade. O que passa a ser um verdadeiro fator diferenciador é a resiliência adaptativa, ou seja, a capacidade que cada empresa tem de antecipar o que vem aí, aguentar o embate e reorganizar-se rapidamente.

É aqui que entram as operações industriais inteligentes, ou seja, sistemas capazes de aprender continuamente, simular cenários, tomar decisões com apoio de inteligência artificial e coordenar-se não apenas dentro da fábrica, mas ao longo de todo o ecossistema industrial.

O relatório descreve esta coordenação em três camadas que se alimentam mutuamente: o núcleo da fábrica (planeamento, produção, qualidade, manutenção e movimentação interna), a empresa alargada (compras, engenharia, desenvolvimento de produto e gestão da qualidade dos fornecedores) e o ecossistema da cadeia de abastecimento (logística externa, planeamento de rede e colaboração com clientes e parceiros). Em suma, a inteligência só gera impacto real quando a autonomia e a integração da cadeia de valor caminham lado a lado.

A mensagem mais incómoda do relatório é também a mais direta: trata-se de liderar ou de ficar para trás. Segundo o estudo do Fórum Económico Mundial e da Accenture, apenas cerca de um quarto das empresas analisadas a nível global – cerca de 25% – já deu passos concretos rumo à autonomia operacional. As restantes estão presas num ciclo de pilotos desligados entre si e de dados espalhados por sistemas que não comunicam.

O roteiro de transformação proposto pelo relatório traduz-se em seis movimentos essenciais. Antes de avançarem para níveis mais sofisticados de automação, as empresas devem começar por estabilizar e digitalizar os processos de base. Em paralelo, importa abandonar a procura de uma perfeição absoluta dos dados e concentrar esforços na informação que realmente ajuda a decidir. A partir daí, o desafio passa por escolher poucos casos de uso, mas com impacto financeiro mensurável, e sustentá-los numa infraestrutura digital pensada para escalar, e não apenas para resolver necessidades imediatas. Esta evolução exige, ainda, uma nova forma de colaboração entre pessoas e máquinas, em que os profissionais assumem um papel mais claro de coordenação. Só assim será possível escalar a autonomia de modo responsável, com a sustentabilidade integrada desde o início.

Estes seis movimentos assentam, contudo, em duas condições transversais: a cibersegurança e a governação da inteligência artificial. A primeira não deve ser pensada como um extra, mas sim como algo integrado na arquitetura desde o primeiro dia. Já a segunda torna-se decisiva à medida que as máquinas começam a tomar decisões operacionais por conta própria: as organizações precisam de ter respostas claras para perguntas difíceis, como em que situações a IA apoia o julgamento humano, em que situações recomenda e em que situações decide sozinha.

É importante desfazer um equívoco comum: o estudo não prevê que o futuro passe pela existência de fábricas sem trabalhadores. Pelo contrário, o papel humano torna-se, se possível, ainda mais importante. O que muda é a natureza desse papel. À medida que os sistemas autónomos assumem as tarefas de otimização e execução, as pessoas libertam-se para o que realmente acrescenta valor: coordenar, gerir o inesperado, supervisionar as decisões automáticas e garantir que o sistema aprende e melhora. Não é substituição. É uma nova forma de trabalhar em conjunto com as máquinas.

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