Quais os pilares para construir uma carreira de sucesso? Maria da Glória Ribeiro, autora de “Pessoas com talento, como nós”,  partilha em entrevista ao Link To Leaders algumas pistas sobre a melhor forma de o conseguir através de histórias reais inspiradoras, “de pessoas como nós”.

Especialista em liderança e gestão de talento, Maria da Glória Ribeiro é fundadora e managing partner em Portugal da multinacional de executive search Amrop. Mestre em Psicologia, pela Universidade do Porto, e especializada em Desenvolvimento e Organização Empresarial, tem no currículo mais de 20 anos de experiência em consultoria estratégica e comportamento organizacional, sendo solicitada para avaliar, orientar e recrutar talentos para empresas dos mais diversos setores profissionais.

É ainda reconhecida como uma das principais head hunter portuguesas e está entre os 200 melhores consultores de executive search a nível mundial, de acordo com Nancy Garrison-Jenn, autora de The Global 200 Executive Recruiters.

O seu mais recente livro “Pessoas com talento, como nós” acaba de chegar às livrarias. Em entrevista ao Link To Leaders, Maria da Glória Ribeiro fala-nos dos dez pilares que devemos seguir para construir uma carreira de sucesso, das características dos líderes de hoje e de que forma as carreiras estão a ser afetadas pela nova pandemia.

“Pessoas com Talento, como nós” é o seu mais recente livro. O que a levou a escrever esta obra?
Este livro foi escrito como resultado de um desafio, uma espécie de proposta que mais uma vez me foi lançada. E eu aceitei, na tentativa de partilhar um pouco mais da minha experiência profissional, do que aprendi nos diferentes processos em que me envolvi, do apoio que dou às diferentes organizações empresariais com que trabalho na contratação e otimização dos seus quadros, com as pessoas de vários campos profissionais que conheci e com quem me cruzei ao longo deste meu caminho como consultora de Executive Search.

Todos temos um talento?
Sim, sendo que há uma correlação, quase sempre direta, entre talento e capacidade de concretização de determinada tarefa ou empreendimento. Com isto em mente podemos concluir que cada um de nós possui o(s) seu(s) próprio(s) talento(s). Vale por isso a pena enfrentar a tarefa de nos documentarmos, treinarmos, aprendermos, enfim, melhorarmos os nossos talentos de forma a influenciarmos positivamente o resultado.  Ao desenvolvermos o talento poderemos atingir com sucesso os nossos próprios objetivos. Estaremos assim a influenciar a nossa própria vida, preparando-nos para enfrentar os desafios do futuro.

“Não devemos deixar que as tendências, muitas vezes arbitrárias e seguidoras de modas sem fundamento, nos arrastem para realidades que pouco ou nada têm a ver com a nossa essência”.

Quais os pilares que devemos seguir para chegar à nossa realização profissional? E pessoal?
Temos de ser capazes de aproveitar todas as nossas potencialidades e, mais do que isso, ser capazes de as desenvolver. Para o conseguir, temos de nos situar em nós próprios. Não devemos deixar que as tendências, muitas vezes arbitrárias e seguidoras de modas sem fundamento, nos arrastem para realidades que pouco ou nada têm a ver com a nossa essência. É fundamental termos integração humana, isto é, sermos capazes de pensarmos por nós próprios e em função de nós mesmos. Cada um de nós é um mar de experiências, vivências e conjugações. A realização pessoal é isso mesmo: pessoal.

Os líderes de hoje em dia têm ou adquirem talento?
Os líderes devem estar preparados e capacitados para absorver a realidade, perspetivando o futuro e a visão para a sua organização, isto significa definir objetivos sem perder a visão global. É necessário que implementem um modelo de pensamento estratégico, particular e humanizado, porque também nas relações sociais e humanas o tema da sustentabilidade é incontornável e indispensável ao equilíbrio a médio-longo prazo. O líder tem que estar preparado para gerir uma complexa correlação de conhecimentos, objetivos e gerir as equipas de forma flexível e sempre sustentável.

Neste sentido tanto a aquisição de talento no sentido de acrescentar valor às áreas que necessitam desenvolvimento, como o desenvolvimento e adequação do talento interno das organizações se revelam ferramentas fundamentais para estimular e reforçar o desenvolvimento organizacional contínuo. O investimento na aquisição e desenvolvimento de talentos é essencial para atrair, reter e motivar colaboradores, de maneira que alcancem a melhor performance e, consequentemente, os objetivos organizacionais.

“E, se queremos realmente criar uma era abundante, teremos que aprender a pensar de forma diferente/disruptiva e sentirmo-nos à vontade em arriscar e aprender com nossos erros”.

Estamos numa fase de transição. O que antes considerávamos “normal” ou parte da nossa rotina, hoje encaramos como de grande valor e poder de liberdade. De que forma as carreiras estão a ser afetadas pela nova pandemia? O que não será mais o mesmo?
A pandemia foi o catalisador das mudanças que já estavam em curso no mundo do trabalho. É inegável que a humanidade está a entrar num período de profundas e rápidas transformações. E, se queremos realmente criar uma era abundante, teremos que aprender a pensar de forma diferente/disruptiva e sentirmo-nos à vontade em arriscar e aprender com nossos erros.

Sabia-se que muitas funções, iriam desaparecer ou ser transformadas e automatizadas. A pandemia tem acelerado todo esse processo, como já se percebeu. Os líderes, logo que possam começar a tomar decisões vão começar a atuar, irão pegar nas ferramentas que possam ter ao nível do advisory, dos consultores de transformação digital, e dos tecnólogos, as pessoas que os podem ajudar a desenvolver soluções tecnológicas para a otimização dos seus negócios, passando pela robotização e digitalização.

Eu acredito que os grandes pensamentos estratégicos, que poderíamos até chamar de futuristas, vão acontecer já. Acredito que todas essas funções, que foram tão facilmente “transportadas” para casa das pessoas porque são absolutamente transacionais, serão substituídas pela tal digitalização, pelo aparecimento da Inteligência Artificial, cada vez mais acelerada e integrada no dia-a-dia e que irá, portanto, ligar todas as funções transacionais das organizações. Para os líderes é inevitável seguir este caminho, com o respeito que obviamente têm que ter por cada um dos elementos que hoje fazem parte do seu headcount, mas com o foco apontado para o amanhã, porque quem não o fizer acabará, inevitavelmente por desaparecer porque o mundo não pára e é cada vez mais rápido.

As pessoas terão que se reinventar e começar já a pensar no futuro. Aqueles que não se cansam de poder ficar em casa e fazer calmamente as tarefas que anteriormente faziam nos escritórios, devem pensar que provavelmente, no futuro próximo, aquelas tarefas deixarão de ser “humanas”, são demasiado transacionais para continuarem a sobreviver nos moldes atuais.

“A rápida transformação digital vai obrigar os líderes a compreender que o futuro começa hoje e não é adiável, impulsionando-os a desenvolver e aplicar a tecnologia para resolver os grandes desafios da humanidade”.

Quais os desafios que as empresas enfrentam hoje em dia na descoberta de talentos?
A rápida transformação digital vai obrigar os líderes a compreender que o futuro começa hoje e não é adiável, impulsionando-os a desenvolver e aplicar a tecnologia para resolver os grandes desafios da humanidade. Tenho a convicção que as pessoas devem reinventar-se e começar já a pensar no futuro, é necessário que compreendam que parte das suas competências profissionais são humanas, emocionais, intuitivas e que estas estão mais longe de ser substituídas pela Inteligência Artificial e Digitalização.

Este futuro exige resiliência e agilidade por parte de todos, e tolerância e generosidade por parte das lideranças, todos devem trabalhar juntos no sentido de ser mais resilientes e estar mais abertos à mudança – de forma a alcançar uma conexão, uma forma de os ajudar a ter novas ideias para abordar e resolver novos problemas.

Muitas pessoas confundem talento e dom. Quais são as grandes diferenças?
Nascemos ou não com determinado dom. Sermos sensíveis ao ritmo, ao som e à música, por exemplo, é ter nascido com o dom e a sensibilidade para uma área que nos irá dar vantagens nestas matérias. Pode alguém, com este tipo de dom, ter vantagens competitivas no mundo da música? Com certeza que sim, a priori. Porém, tudo irá depender de múltiplos estímulos, circunstâncias e fatores que irão influenciar a construção da pessoa em causa, da sua personalidade e do seu perfil.

Se esta hipotética pessoa que nasceu com este dom o trabalhar, o desenvolver e o potenciar, transformá-lo-á em talento. Não se dirá mais que nasceu com o dom do ouvido, mas sim que é um talentoso músico. Os estímulos e circunstâncias que enquadram a formação da nossa personalidade ou maneira de ser são muitos e muito díspares. Porém, compete a cada um de nós fazer a autoanálise e a reflexão interior que permita ter o autoconhecimento e autodomínio para potenciar, alargar e transformar todas as nossas habilidades e dons em talento.

Que qualidades deve ter um colaborador para uma carreira de sucesso?
Há uma resposta para cada pessoa que depende sobretudo da individualidade de cada um. Posso, no entanto, com base na minha experiência, indicar quais as características e capacidades mais procuradas no mundo empresarial: visão e planeamento estratégicos; capacidade de liderança e coaching, isto é, ajuda e apoio à melhoria do grupo em que estamos inseridos; empreendedorismo e foco nos resultados; gestão de prioridades; capacidade de interagir e trabalho em equipa; flexibilidade, agilidade e mobilidade;  empenho, commitment e esforço no sentido da melhoria contínua.

 As estratégias para construir uma carreira profissional deviam aprender-se na escola ou é a experiência que nos dá as ferramentas?
Estratégia é a forma de pensar no futuro, integrada no processo decisório, com base num procedimento formalizado e articulador de resultados. Pode parecer uma definição algo elaborada, mas na prática implica que tenhamos visão, meios, decisões e atitudes certas para chegar onde queremos.

Logicamente, é uma vantagem grande e irrefutável ter-se formação reconhecida, de uma universidade de prestígio. Ter um começo estruturante vai credenciar-nos enormemente perante os outros, além da segurança que nos confere. Mas também é importante salientar que há organizações empresariais, ou de outro tipo, que são verdadeiras escolas. Proporcionam experiências práticas e efetivas a partir dos conhecimentos teóricos adquiridos no mundo académico, que são impactantes e basilares para a evolução futura. Encontramos vários exemplos de excelentes em empresas de vários setores, desde os bens de consumo até ao da banca, consultoria, indústria, etc.

Em regra, o acesso a este tipo de instituição positiva e educativa está ligado ao sucesso da etapa anterior: quanto melhor e mais credenciada for a formação de base, mais provável é a hipótese de as primeiras experiências na vida activa serem realizadas num ambiente favorável e promissor para o futuro. Em suma, tudo nos influencia na construção de uma carreira profissional, nunca paramos de ser influenciados pelo meio social e profissional que nos rodeia e a que pertencemos.

“Lembro‑me de, em criança, a dada altura ter ficado a matutar na máxima de uma força de elite: “A sorte protege os audazes”. Sempre tive a certeza de que isto estava certo. Quem trabalha e se esforça para encontrar a sorte sempre a poderá encontrar”.

A ideia de que temos de procurar a nossa sorte parece intuitiva. Porque é que é preciso dar formação às pessoas, neste sentido?
Felizmente tem‑se encontrado, ultimamente, insistente comunicação sobre o facto de a sorte não ser um fenómeno de achamento arbitrário, mas, pelo contrário, algo que resulta da procura persistente e de esforço pessoal. Lembro‑me de, em criança, a dada altura ter ficado a matutar na máxima de uma força de elite: “A sorte protege os audazes”. Sempre tive a certeza de que isto estava certo. Quem trabalha e se esforça para encontrar a sorte sempre a poderá encontrar.

Quotidianamente, há que preparar as condições para encontrar a sorte ou, o mesmo será dizer, para encontrar o futuro que pretendemos. Evidentemente que há condições externas e circunstâncias de vária ordem que não podemos prever e controlar, mas há que tentar tudo fazer para conseguirmos chegar ao ponto que desejamos. Mesmo que possamos ter encontrado o infortúnio ou vir a ter de ultrapassar os obstáculos mais improváveis.

Estar no trabalho errado pode ser confundido muitas vezes com falta de ambição ou interesse. Quando é que uma pessoa percebe que é altura de mudar de profissão?
Há e podem surgir um sem‑número de razões, contratempos ou situações imprevistas para haver uma necessidade de mudar. Circunstâncias que podem ser impossíveis de controlar e causam um sentimento de frustração e de incompatibilidade. Nestes casos, mudar é sem dúvida a decisão mais adequada. Pode haver vários exemplos deste género, completamente extrínsecos ao nosso controlo. Por exemplo, quando há um sentimento de dicotomia entre os nossos ideais de sociedade e de vida, que se incompatibilizam com o desiderato, com o objeto ou missão da organização ou empresa onde estamos.

Ou quando há na organização a que pertencemos pessoas que nos perturbam fortemente. Pode ser um chefe (ou outro, hierarquicamente superior, par ou inferior), com quem não nos identificamos, com quem entramos em conflito, expresso ou omisso de forma mais ou menos permanente.

Até quando estamos muito bem na organização, mas queremos mais. Sentimos que poderemos avançar de uma maneira melhor, ou simplesmente mais rápida. Ou até porque gostávamos de pertencer a uma empresa maior, com mais exposição ou notoriedade. Ou, o contrário, porque nos parece mais adequado para o nosso bem‑estar e realização estarmos numa organização mais pequena, onde a dimensão particular é mais focada, onde em regra pode haver espaço para a relação emocional que nos falta, mesmo profissionalmente.

Continuamos a ter a mentalidade de aceitar o fado, a sorte que acontece na vida ou as novas gerações têm uma nova visão?
Não vale a pena esperarmos que algo nos aconteça. Não nos esqueçamos de que ter sorte dá muito trabalho… A sorte, quando a encontramos, é o resultado de uma procura resiliente e audaz para a encontrar. A boa sorte deve ser criada. Ela depende, em larga medida, de nós mesmos. É preciso preparar as condições para que as oportunidades surjam.

O fatalismo, o destino, a ausência de sorte são conceitos inaceitáveis para quem procura ser melhor e preparar‑se para a realização pessoal. É frequente ouvir‑ se «eu sempre fui assim», e parece estar subentendido, «portanto, não há nada a fazer». Esta atitude fatalista destrói qualquer dinâmica de melhoramento.

Inventamos formas mais ou menos conscientes de nos livrarmos da dificuldade. Criamos justificações para a inércia ou para adiar ad aeternum a ação. Até que a oportunidade se perde. Por vezes existe o medo de mudar. É próprio do ser humano. No entanto, há muitos exercícios que melhoram a capacidade de enfrentar o desconhecido e que ajudam a combater este medo. O risco da mudança/sorte será minimizado pela autopreparação. Temos de estudar o melhor possível o ambiente novo com que nos deparamos, para assim podermos corresponder com mais segurança.

E possível ser-se bem-sucedido pessoal e profissionalmente?
Para muitos, esta é uma tarefa muito complicada. É frequente conhecer pessoas em cujas histórias de vida o insucesso está muito associado à incapacidade de conjugarem as várias dimensões da vida. Não parecem ser capazes de conciliar, em simultâneo, a pressão e o foco da vida profissional com os momentos desejáveis e equilibrados de lazer necessário. Pior ainda é o caso dos que não coordenam o tempo, a energia e a força anímica entre os compromissos profissionais e os familiares ou de outra ordem.

Existem diversas circunstâncias que podem ser desafiantes de conciliar, embora com intensidades e importâncias diferentes, como é o caso das atividades desportivas ou artísticas, pertencer a tertúlias ou outras agregações de grupo, ou um sem‑ número de outros interesses e tarefas que nos complementam e preenchem.

Para conseguirmos esta conjugação temos de ser capazes de aproveitar todas as nossas potencialidades e, mais do que isso, ser capazes de as desenvolver. Só assim teremos as ferramentas para construirmos a nossa própria realização pessoal e profissional. Com isto quero dizer que ficaremos a saber o que nos falta conhecer, ou mudar, ou simplesmente adaptar, para que fiquemos preparados para nos apresentarmos e de facto sermos diferentes ou otimizados, dependendo do que queremos vir a ser.

As pessoas não devem descurar o pensamento estratégico na conjugação da dimensão profissional e pessoal. Devem ser muito esforçadas, organizar e tentar estipular momentos ou períodos do seu quotidiano que sejam seus. Devem comandar o seu próprio tempo e construir o seu espaço de emoção e lazer conforme lhe aprouver. É verdade que todos temos horários muito apertados e condicionados, mas é fundamental aproveitarmos melhor o tempo que temos disponível. 

“Conquistar a diferenciação da nossa existência é um passo fundamental para atingir a perceção de sucesso e, muitas vezes, o próprio sucesso. Para isso ser possível, torna‑se fundamental conseguirmos pensar por nós próprios, termos um pensamento único”.

Que conselhos dá a quem está a começar a sua carreira?
Tenacidade, afinco, determinação, resiliência e automotivação são provavelmente as melhores ferramentas para conseguirmos chegar à meta que traçámos. Como sempre acontece na execução de qualquer tarefa, há que fazer um plano de ação, mas é claro, antes de mais, temos de saber para onde queremos ir. O que queremos atingir. Que meios temos ao nosso alcance. Só a partir daí poderemos elaborar um plano de ação e melhorar aquilo que sabemos que é insuficiente para a concretização dos nossos objetivos como pessoas, seres sociais e profissionais. Ou seja, não podemos simplesmente deixar que a vida nos leve.

Conquistar a diferenciação da nossa existência é um passo fundamental para atingir a perceção de sucesso e, muitas vezes, o próprio sucesso. Para isso ser possível, torna‑se fundamental conseguirmos pensar por nós próprios, termos um pensamento único. A partir daí, encontramos sempre um sítio na sociedade que nos será mais adequado, mais à medida da nossa personalidade e, portanto, daquilo que melhor se adapta à nossa maneira de ser. Desta forma, o papel que queremos ter na sociedade, bem como as nossas ambições e aspirações, terão muito mais hipóteses de ser atingidos.

Respostas rápidas:
O maior risco: Falta de coragem.
O maior erro: Imitar e papaguear o que é bom para os outros.
A maior lição: A capacidade de reinvenção das pessoas.
A maior conquista: Realização e felicidade.

 

* E autora do livro “Pessoas com Talento”

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