Opinião
A motivação é a desculpa moderna para a falta de disciplina
Sempre se falou em motivação como um dos grandes fundamentos para o sucesso. Em quase todas as formações, livros de liderança e palestras inspiracionais, a motivação surge como o motor essencial para alcançar resultados.
Mas o que é, afinal, a motivação? A motivação é um processo psicológico — interno ou externo — que impulsiona, direciona e sustenta o comportamento humano na procura de objetivos. Funciona como um combustível emocional: dá energia, cria foco e ajuda a persistir perante obstáculos. É influenciada por necessidades, crenças, valores e contexto, e tem um papel relevante na aprendizagem, no desempenho profissional e no bem-estar.
Costuma dizer-se que a motivação nos ajuda a:
- Manter o foco nos objetivos, mesmo quando surgem dificuldades.
- Aumentar o desempenho, porque pessoas motivadas tendem a produzir mais e melhor.
- Transformar obstáculos em oportunidades de crescimento.
- Sustentar objetivos de longo prazo, sobretudo quando a motivação é intrínseca.
E até aqui, nada disto está errado.
O problema começa quando tratamos a motivação como se fosse suficiente. Como se bastasse “estar motivado” para vencer na vida, no trabalho, no desporto ou nos negócios.
Agora vou incendiar a internet ao dizer que a Motivação é sobrevalorizada e muitas vezes usada como um escudo para o fracasso.
Não estou a dizer que não seja importante. Não é isso. Mas não sejamos ingénuos.
É quase como dizer que para sermos felizes só precisamos de amor e uma cabana. Vamos lá ser honestos, quantas pessoas querem realmente viver numa cabana? Todos queremos amor, claro. Mas, na prática, preferimos que venha com uma casa bem localizada, confortável e com todas as comodidades possíveis.
Com a motivação acontece o mesmo. Ela é ótima… quando aparece. Mas não podemos depender dela para fazer o que tem de ser feito.
A verdade dura — mas libertadora — é esta: o que constrói resultados não é a motivação. É a disciplina.
Frank Lloyd Wright escreveu: “Um bom profissional é aquele que faz o seu melhor trabalho quando menos tem vontade de o fazer.”
Isto é liderança. Isto é maturidade. Isto é alto desempenho.
A motivação pode dar o impulso inicial — como um depósito cheio no inicio de uma viagem.
Mas é a disciplina que nos leva até ao destino.
Porque a motivação vai e vem. A disciplina fica.
A motivação depende do estado de espírito. A disciplina depende de decisão e compromisso.
A motivação é emocional. A disciplina é comportamental.
Eu odeio correr. Detesto mesmo. No entanto, corro — e corro bastante — e não só tenho tido bons resultados como tenho vindo a melhorar.
E isto não acontece porque acordo todos os dias cheia de motivação para calçar os ténis e sair de casa a correr. Se dependesse disso, já tinha desistido há muito tempo, ou nem sequer tinha começado.
Acontece porque sou disciplinada. Porque tenho consistência. Porque cumpro, mesmo quando não me apetece.
E é isto que falta em muitas conversas sobre sucesso. Fala-se muito de inspiração.
Fala-se pouco de rotina.
Fala-se muito de mindset. Fala-se pouco de trabalho repetido.
Fala-se muito de “querer”. Fala-se pouco de “fazer, mesmo sem vontade”.
No mundo corporativo, isto é ainda mais crítico.
Nenhuma equipa vence só com pessoas motivadas. Vencem equipas disciplinadas, alinhadas e consistentes.
Nenhum líder é grande só porque inspira. É grande porque cria sistemas, hábitos e padrões de excelência.
O futuro do trabalho — e das carreiras — não vai pertencer aos mais motivados.
Vai pertencer aos mais disciplinados. Aos que aparecem quando é difícil. Aos que entregam quando estão cansados. Aos que mantêm o padrão quando ninguém está a ver.
Por isso, da próxima vez que ouvirem “tens de estar mais motivado”, eu convido-vos a pensar de forma diferente.
Talvez a pergunta certa não seja: Estou motivado?
Mas sim: Estou disciplinado?
Porque é a disciplina que constrói resultados.
É a disciplina que cria reputação.
E é a disciplina que transforma intenções em conquistas reais.
Susana Duro tem mais de 20 anos de experiência no desenvolvimento e implementação de estratégias de marketing para marcas líderes de mercado e um sólido percurso profissional construído em empresas nacionais e multinacionais de referência dentro do mercado de FMCG.
É licenciada em Marketing e Publicidade pelo IADE, pós-graduada em Retail Management e em Direção Comercial no Indeg/Iscte e mestre em Marketing pela mesma instituição. Iniciou a sua carreira de marketing na Henkel Ibérica como gestora de produto, passando depois para brand manager na Dan Cake. Em 2004 entrou para a Nestlé onde esteve durante 11 anos. Aqui desempenhou a função de brand manager da categoria de Culinários, de trade marketing manager na categoria de chocolates e de head of trade marketing na categoria de Cereais de pequeno-almoço. Em 2017 entrou para a Coca Cola Europacific Partners como responsável pela equipa de Customer Development do Canal Alimentar. Em 2022 foi convidada para assumir a função de National Account manager ficando com a responsabilidade de várias contas no canal Horeca Organizado. É também professora na pós-graduação em Gestão de Vendas do INDEG_ISCTE, onde leciona a disciplina de Comportamento do Consumidor.








