Opinião

5, 10, 20 ou 41.195 quilómetros? Os objetivos “eu” e os objetivos organizacionais

José Crespo de Carvalho, presidente do ISCTE Executive Education

É cada vez mais frequente sentar-me numa mesa de almoço ou jantar e ter à minha volta pessoas que se focam em cumprir objetivos individuais. Pessoais. Percorro todos os dias 5 km a correr. Ando todos os dias 10 km. Todos os dias corro 20 km. Já fiz as maratonas de Tóquio, de Nova Iorque, de Paris, do Dubai, do Rio de Janeiro. Faço 100 piscinas por dia. Percorro 20, 30, 50 quilómetros de bicicleta todos os dias. Temos desde corredores e maratonistas até iron men e women. Temos quem tenha corrido no Alasca ou na Antártida. Temos quem tenha corrido ou feito provas em todo o lado. A maioria delas individuais.

Nada de mal, antes pelo contrário. Fico apenas impressionado com a força de vontade, a resiliência, a tenacidade destas pessoas todas – cada vez mais – no cumprimento de objetivos individuais. Mas, depois, há explicações para este envolvimento na corrida, na natação, no triatlo, na subida de montanha, no andar de bicicleta e na superação de objetivos. E muitos referem os objetivos como qualquer coisa de extraordinário. Só quem não conhece a sensação poderá desprezar este tipo de satisfação.

As pessoas começam a correr por vários motivos. Limpar a cabeça, colocarem-se em forma, procurarem escapes. Name it. E quando começam, depressa percebem que podem fazer mais e mais e que raramente a idade é um obstáculo, começando e preocupar-se, sim, em adicionar quilómetros, em somar objetivos. E a criar uma espécie de vício. Vício bom. Este vício deve-se, essencialmente, à libertação de hormónios como a endorfina e a serotonina. Isso traz uma sensação de prazer e uma certa alegria.

Anda-se, corre-se, nada-se, anda-se de bicicleta com frio, sol, dor, chuva, com tudo. Procuram-se nesses momentos prazer, bem-estar, euforia até. Quando se para, o corpo sente claramente a sua falta.

A endorfina beneficia a memória e tem uma ação analgésica nada despicienda, aliviando dores, aumentando a resistência, gerando bem-estar e melhorando o humor. Quanto maior o esforço físico, maior a liberação de endorfina.

Por sua vez a serotonina é um neurotransmissor correlacionado com o humor. Há mesmo medicamentos antidepressivos ou alimentos que estimulam a produção de serotonina no organismo. É o caso do chocolate, que alivia a ansiedade e os efeitos depressivos.

Verifica-se ainda um conjunto enorme de outros fatores com influência psicológica e que remuneram bem o esforço: a sensação do dever cumprido e do objetivo atingido são talvez os mais importantes. Para além de todo o bem que poderá fazer à saúde.

Aqui chegados, importa perceber que segundo Hofstede, e não só, o individualismo em Portugal é relativamente baixo. A ligação e o poder congregador da família, da família estendida ou alargada e do coletivismo a mais leva-nos a baixar largamente o individualismo. Mais, este alargamento puxa-nos para baixo e alinha-nos por baixo. O coletivo tende a alinhar pelos “coitadinhos dos mais fraquinhos”, dos mais “desfavorecidos”. A sociedade torna-se muito mais rapidamente do que suposto numa sociedade medíocre, mesmo sem darmos por isso.

A corrida, o andar a pé, a bicicleta, a natação, entre vários outros, são formas de desporto individual que nos fazem imensa falta enquanto povo. Trabalham enormemente o nosso individualismo. E, com isso, mais depressa nos vemos livres do coletivismo excessivo que nos atrofia e não nos dá espaço para o potencial que podemos ter em termos individuais. Importa, assim, direcionar esse individualismo também para outras atividades para além do desporto.

Repare-se como nas empresas não sentimos necessariamente estes efeitos da endorfina e da serotonina com o objetivo cumprido. Com o objetivo alcançado. É verdade que muitas vezes desanimamos porque os objetivos são grupais, organizacionais e nós precisamos de ter objetivos individuais. E as lideranças falham em perceber isso, não por mal, mas porque querem o melhor para o todo, para o coletivo.

Porém, colocar cada qual a correr na sua pista, com objetivos próprios e puxando pelo seu lado individual para se viciar em objetivos cumpridos, em metas ganhas, não é um disparate. Antes pelo contrário. Precisamos de ter forte atenção ao fenómeno do desporto e passá-lo bem e rápido para as empresas. Para criarmos o vício do ganho individual e da satisfação do objetivo próprio cumprido e do projeto fechado, da venda feita, do trabalho acabado.

Resta saber interpretar isto da melhor forma para não colocarmos em causa a harmonia do todo. Sem dúvida uma questão maior e que deve ser percebida e endereçada pelas lideranças nas empresas portuguesas se o nosso grande objetivo for mesmo levá-las a crescer. Levando cada um de nós a dar o nosso melhor. E quando somos bons individualmente seremos igualmente bons, desde que integrados, nas empresas e organizações para as quais trabalhamos.

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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